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Juncker trouxe boas notícias para Portugal

O discurso sobre o estado da União do presidente da Comissão foi uma intervenção otimista, que devolve um sentido de futuro à Europa, a partir da visão de um homem que assume "amar" a Europa. Para Portugal, foi bom.

Juncker é um visionário e as ideias que transmitiu neste discurso são um pontapé de saída para uma nova Europa, algumas das quais correspondem aquilo que Portugal tem vindo a reivindicar. Estas são três conclusões que ficaram do debate organizado pelo Expresso a propósito da intervenção sobre o estado da União e que reuniu uma política, Regina Bastos, uma investigadora, Marina Costa Lobo e a representante da Comissão Europeia em Portugal, Sofia Alves.

"Jean-Claude Juncker é um homem experiente que tem sido sempre um visionário", afirmou Sofia Alves, chefe da representante da Comissão em Portugal. "É um homem de visão, que soube ser resiliente, às vezes perdeu a paciência e diz verdades inconvenientes, outras baixou a cabeça, mas manteve sempre o seu caminho", afirma a portuguesa que lidera a representação da comissão. "Ele tem-nos mostrado que tem uma estratégia e qual é o caminho para o futuro da Europa. Este discurso é mais uma prova disso", afirma.

No seu entender, a mensagem-chave de Juncker - um homem que confessou que o projeto europeu tem sido o seu amor e como todos este amor traz desilusões e por vezes tristezas - é o recentrar da Europa nos valores essenciais que estão subjacentes ao projeto de integração europeia.

"Juncker quer uma Europa mais unida, mais forte e mais democrática, ao longo do discurso percorreu variadíssimas políticas que precisam ainda de ser concretizadas e trouxe algumas ideias novas", salienta Sofia Alves, para quem esta mensagem foi "serena".

Os dois eixos fundamentais do seu discurso foram, na sua opinião, não só a parte económica, de completar a União Económico-Monetária e a união bancária, mas também a ideia de uma Europa Social, de uma Europa mais justa, uma Europa onde todos se sintam iguais.

Segundo a representante da Comissão, trata-se de um recentrar dos valores democráticos e do Estado de direito essenciais para o projeto europeu "e que não podem continuar à deriva", destacou. Quanto ao cidadão, sublinha, há uma atenção especial que se percebe quando Juncker opta por passar por de cima de algumas questões económicas e financeiras que são igualmente importantes.

O facto não o impediu contudo de referir que é importante finalizar a união bancária e a União Económica Monetária e, mais ainda, de lançar a proposta de um ministro da Economia e Finanças. Segundo Sofia Alves tal proposta irá com certeza gerar muitos comentários em Portugal.

Agenda maximalista

Esta ideia é corrroborada por Marina Costa Lobo, para quem a União Bancária "é extremamente importante" para Portugal. "Trata-se de um conjunto de medidas que irão beneficiar Portugal, porque somos um pequeno Estado-membro bastante dependente de tudo o que são iniciativas europeias. Estagnámos com a crise e com a falta de dinâmica a nível europeu", disse.

Para a investigadora, a Europa funciona se as pessoas sentirem nos seus porta-moedas que existe dinheiro. "A Europa é um projeto de prosperidade, sem ela não pode haver mais Europa e o presidente Juncker quis dar esse sinal dizendo que vai haver política industrial, mais solidariedade, mais regulação do mercado de trabalho, e tudo isso são boas notícias para Portugal. Para todos os emigrantes portugueses que estão em países da União Europeia, isto é bom", reiterou.

"A Europa como que respirou fundo e agora há um pontapé de saída para mais Europa, no sentido de resolver alguns problemas que estiveram subjacentes à crise europeia. Juncker está a dar pistas para uma agenda que diria ser relativamente maximalista da Comissão Europeia", disse ainda a politóloga.

Regina Bastos, que é presidente da Comissão parlamentar de Assuntos Europeus, considera por sua vez que completar a União Económico-Monetária através da constituição de uma União bancária do Fundo Europeu de depósitos e da criação de um Fundo Monetário Europeu "é a agenda que Portugal tem vindo a reivindicar relativamente a estas questões".

O proveito de Portugal

A deputada social-democrata também vê com bons olhos a existência de uma figura como o ministro de Economia e Finanças, que concentrasse institucionalmente sob a sua alçada a coordenação das políticas económicas e financeiras de todos os Estados-membros e que ficaria também, a chefiar o Eurogrupo.

"Parece-me que é uma figura fundamental fazer para conseguirmos todos, no âmbito do clube europeu, termos objetivos comuns e perseguirmos esses objetivos sem grandes divergências", sublinhou a deputada.

Segundo Regina Bastos, tal "ministro" seria útil para Portugal, porque "não se trata da coordenação isolada de um Estado-membro com mais ou menos dificuldades, mas de uma coordenação igual em paridade e em patamar absolutamente harmonizado para todos Estados-membros".

"Não vejo esta figura como uma ameaça, mas como uma conquista de um processo que é feito por etapas", disse ainda a presidente da Comissão dos Assuntos Europeus. "Para Portugal, é absolutamente vital que haja uma união bancária, um Fundo Monetário Europeu que tenha a ver com as instituições comunitárias".

Regina Bastos realçou também as diferenças entre os discursos de Juncker do ano passado e deste ano, sublinhando a mudança para melhor. "Em 2016, Juncker falou em crise existencial da Europa e num certo desânimo, agora há um balanço deste ano e uma projeção do futuro para 2018".

E concluiu: "Há realmente um fosso entre os dois, entre o pessimismo realista e o otimismo também realista. Ora, esse tom de otimismo é a pedra de toque fundamental para que os investidores, as pequenas e médias empresas e os cidadãos confiem mais nas políticas da União Europeia".