Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Bloco reúne-se com tubarões do capital americano

EDP tem como maiores acionistas a China Three Gorges (21,35%) e o Capital Group (14%), com quem o BE se reuniu

Tiago Miranda

O Capital Group, segundo maior acionista da EDP, deslocou-se a Lisboa para fazer lóbi contra os cortes nas rendas da energia. E reuniu-se com... o Bloco de Esquerda. PS e PCP não confirmam se também falaram com os norte-americanos

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Têm uma participação de 14% na EDP, avaliada a preços de mercado em mais de 1,5 mil milhões de euros. São também acionistas da REN. E estão entre os maiores investidores em dívida pública portuguesa. Os norte-americanos do Capital Group vieram a Portugal defender os seus interesses económicos e, apurou o Expresso, encontraram-se com alguns dos intervenientes políticos mais críticos do capitalismo: entre as reuniões realizadas esta terça-feira esteve uma com o Bloco de Esquerda (BE).

O BE confirma que se reuniu terça-feira “a pedido do Capital Group” e o encontro “serviu para apresentação dos pontos de vista de ambas as partes sobre o dossiê CMEC [Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual] / rendas excessivas”.

Segundo uma outra fonte ouvida pelo Expresso, a delegação do grupo norte-americano de gestão de ativos terá ainda solicitado reuniões com o Partido Comunista Português (PCP) e com o Partido Socialista (PS), mas nenhuma destas duas forças políticas confirmou que os encontros tenham acontecido.

A agenda do grupo americano em Lisboa incluiu ainda um encontro com o secretário de Estado da Energia, Jorge Seguros Sanches, e outro com a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), que tem em mãos neste momento o processo de cálculo da parcela final dos CMEC, que determinará quanto a EDP terá a receber até à completa extinção destes contratos, prevista para 2027.

Instada a esclarecer o propósito da reunião com o Capital Group, a ERSE comentou apenas que “tem por norma reunir-se, sempre que para tal seja solicitada, com os mais diversos stakeholders do sector energético, incluindo investidores e analistas nacionais e internacionais no sentido de garantir a transparência e a equidade da informação em matéria de regulação”.

A visita do Capital Group a Lisboa acontece duas semanas depois de a China Three Gorges (maior acionista da EDP, com 21,35% do capital) ter realizado uma missão semelhante ao mais alto nível, em que se reuniu com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa. Esses encontros não constaram das agendas oficiais dos chefes de Estado e de Governo.

Os maiores acionistas da EDP, quer os chineses, quer os norte-americanos, estão preocupados com o futuro. E têm razões para isso. A investigação que o Ministério Público tem em curso sobre alegados benefícios económicos que a empresa conseguiu na criação dos CMEC e na extensão das concessões do domínio hídrico provocou no último mês e meio uma forte desvalorização das ações.

Sede da EDP em Lisboa

Sede da EDP em Lisboa

Luís Barra

O presidente do conselho geral e de supervisão da EDP, Eduardo Catroga, escreveu este mês uma carta a vários membros do Governo português denunciando uma série de “mitos” sobre a empresa e alertando para a queda em bolsa, conforme o Expresso noticiou no passado sábado.

O Ministério Público fez buscas na EDP, REN e Boston Consulting Group, a 2 de junho, constituindo como arguidos o presidente executivo da EDP, António Mexia, e o administrador João Manso Neto. Desde essa data e até 10 de julho, as ações da EDP chegaram a desvalorizar 17%, com a capitalização bolsista da empresa a encolher mais de 1,5 mil milhões de euros. Só a posição do Capital Group afundou mais de 200 milhões de euros. Milhões mais que suficientes para justificar uns milhares de euros de despesa nos bilhetes de avião para Portugal.

O que é o Capital Group?

O Capital Group é a oitava maior gestora de ativos do mundo, logo a seguir à PIMCO, segundo o raking da Investment Pensions & Europe relativo a 2016. O grupo tinha, no final do ano passado, um total de 1,3 biliões de euros de ativos sob gestão.

Entre as gestoras de ativos que investem em dívida soberana portuguesa, o gigante norte-americano ocupa a segunda posição, com um investimento de 580 milhões de euros, segundo dados da Bloomberg citados esta semana pelo “Jornal de Negócios”.

É também o segundo maior investidor na EDP-Energias de Portugal, com 14,09%, e detém ainda 4,75% da REN-Redes Energéticas Nacionais.

Segundo o grupo, a sua estratégia de investimento no país baseia-se numa aposta na subida do rating da República, o que vê como uma “oportunidade” numa análise com perspetivas de investimento que divulgou este mês.

Mas no caso da EDP, notícias negativas em torno da empresa levaram as ações da empresa a perder 12,8% em Bolsa no espaço de um mês, entre 1 de junho e 1 de julho. O título recuperou algum terreno com notícias sobre a existência de negociações para uma eventual fusão com a espanhola Gas Natural, um cenário que esta quarta-feira voltou a ser desmentido pela espanhola. A EDP soma agora perdas de 9% desde o início de junho.

O Expresso contactou o Capital Group para obter mais informações sobre as diligências feitas no mercado português, mas não foi possível obter respostas em tempo útil.