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Bloco de Esquerda convidou deputada a sair

Domicília Costa saiu em silêncio

Marcos Borga

Uma minirremodelação termina com a curta carreira parlamentar de Domicília Costa. Deputada alega que foi apenas foi “cansaço”

O debate do Estado da Nação foi o último dia de trabalho da deputada Domicília Costa. E logo por azar, o lugar ‘habitual’ onde se costumava sentar a mais velha parlamentar da atual legislatura — na última fila e colada à bancada dos jornalistas — já estava ocupada. O colega de bancada não mudou. Domicília ainda mencionou que era o seu “último dia”, mas conformou-se em sentar-se mais à direita. No final, nenhuma referência. Uma curta nota, enviada à Lusa poucas horas depois do plenário ter encerrado, acabaria com a carreira política da deputada.

Domicília, de 71 anos, prefere o silêncio. “Renunciei ao mandato por cansaço e regressarei agora à terra de onde vim e à vida que tinha antes de ser deputada”, disse. E não quer acrescentar mais nada, recusando qualquer tentativa de comentário feita pelo Expresso. O BE também nada adianta. E não promoveu qualquer iniciativa — fosse jantar, cerimónia de homenagem ou uma simples referência no plenário — sobre a ‘renúncia’ de mandato da deputada que, concorrendo em 4º lugar pela lista do Porto foi uma das surpresas na noite da eleição autárquica.

A própria, que se apresentava como “doméstica”, foi a primeira a confessar publicamente ter ficado surpreendida com a eleição. Em 2015, nenhuma sondagem apontava para uma inversão da tendência histórica do Bloco que, quando muito conseguira eleger dois candidatos pelo Porto. Mas o partido conquistou cinco deputados por esse círculo. E Domicília Costa mudou-se para a capital, cabendo-lhe um lugar na comissão de Negócios Estrangeiros, a menos exposta politicamente.

A saída da deputada, num momento em que a tensão política dentro da ‘geringonça’ está a aumentar, foi conveniente para a estratégia parlamentar do Bloco. E, na verdade, a iniciativa de renunciar, apurou o Expresso, não partiu de Domicília Costa, mas da liderança do partido, que queria imprimir mais músculo político e capacidade de intervenção no arranque dos trabalhos parlamentares. Há meses que foram feitos os primeiros contactos com a deputada para estudar uma saída. O BE não queria criar um caso, nem ferir suscetibilidades. Domicília aceitou, mas pediu discrição. Na verdade, arrumou as suas coisas e deixou o Parlamento no dia seguinte ao debate com o Governo, nem esperando para a última sessão de trabalhos parlamentares antes das férias.

O BE, por seu lado, põe uma pedra sobre o assunto e avança com o currículo da nova deputada que, ainda esta semana, avança para os trabalhos parlamentares. Maria Manuel Rola tem 33 anos, e é designer gráfica. Há três anos que é dirigente nacional do partido e vai acumular a comissão dos Negócios Estrangeiros com a do Ambiente. Apareceu pela primeira vez nas listas de candidatos eleitorais nas legislativas de 2015 num lugar considerado absolutamente inelegível: o sétimo pela lista do Porto. Esta semana, contrariou as probabilidades e vai sentar-se no plenário parlamentar. O sexto nome proposto pelo Bloco para o Porto recusou deslocar-se a Lisboa. Mário Moutinho prefere o combate autárquico.