Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Altice: Governo sob fogo cruzado

Grupo francês Altice anunciou esta sexta-feira, em Lisboa, a aquisição da Media Capital, dona da TVI e Rádio Comercial

Foto Luís Barra

Costa preocupado com reestruturação da PT. BE desconfia da capacidade financeira da Altice. PSD estranha críticas de Costa. A multinacional afasta politização dos casos TVI e PT

O dossiê Altice/TVI/PT tornou-se numa poderosa arma de arremesso político. O Governo está preocupado com os prováveis despedimentos na PT e põe-se à margem no caso TVI. E está sob fogo cruzado, à esquerda e à direita.

Este sábado Catarina Martins, a coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, introduziu um novo argumento na discussão. "Como pode um grupo comprar a TVI ao mesmo tempo que quer despedir mais de três mil trabalhadores da PT, A Altice está em condições financeiras para anunciar um dos maiores negócios de sempre?". questionou. E deixou um aviso ao Governo: "Um país que se leva a sério não pode permitir que isto esteja a acontecer". E para não haver dúvidas de que o destinatário era o Governo: "Lembro que os despedimentos coletivos é uma injustiça para quem dedicou a sua vida à empresa e estão sujeitos a autorização do Ministério do Trabalho. É é custo para a Segurança Social".

Catarina visitou a feira da Senhora da Hora, em Matosinhos e depois do diálogo com os feirantes tratou da selva PT. "Há que travar já os despedimentos que a Altice quer fazer" e "Portugal não pode ser a lei da selva na legislação laboral".

TVI não preocupa Governo

O Governo põe-se à margem na TVl, mas teme venda de ativos da PT e os efeitos da política da Altice na economia portuguesa. António Costa, na audiência de esta sexta-feira ao patrão da Altice, Patrick Drahi, terá manifestado apreensão e quis saber as intenções do grupo em relação à PT.

Costa receia que o despedimento de trabalhadores, incluindo o fecho ou venda pontual de ativos da PT, possa ser a razão pela qual a Altice está a transferir trabalhadores da PT para empresas satélites, entretanto criadas.

Patrick Drahi não disse uma palavra durante toda a apresentação do negócio Altice/TVI. Mas, à saída, a caminho dos encontros em S. Bento e Belém, desvalorizou o ambiente tenso que ofusca a atividade do grupo em Portugal. "Quem consegue resolver problemas em Nova Iorque, consegue resolver problemas em Portugal", comentou ao Público.

A Altice trouxe a Portugal o Estado-maior para explicar a compra da Media Capital. Mas, Patrick Drahi deixara o protagonismo entregue aos seus gestores. Os pormenores do negócio foram, contudo, ofuscados pelas polémicas que envolvem a sua empresa.

O receio do Governo em relação à Altice prende-se com o perfil da empresa que opera como um fundo agressivo de capital de risco, com pouco capital próprio. O método é conhecido: compra empresas com crédito bancário, corta custos, despede e reestrutura para as tornar mais apetecíveis.

Na sexta-feira, o assunto chegou a Belém. O Presidente da República recebeu uma delegação da Altice, Prisa e Media Capital. E também o presidente do Conselho de Administração da Impresa, Francisco Pinto Balsemão.

Todos ao barulho

Na quarta-feira, no Parlamento, o primeiro-ministro fez um duro ataque contra a PT-Meo, motivado pela experiência direta que António Costa viveu em Pedrógão. "O que aconteceu em Pedrogão Grande com a PT foi gravíssimo", disse.

"Se tem queixas, não é com a Altice, mas com as suas próprias pessoas", respondeu ontem Patrick Drahi, à saída da conferência de imprensa. Para o fundador da Altice "o que é importante é o tempo de resposta para reparar a rede e, nesse aspecto, os trabalhadores da PT fizeram um trabalho excepcional.

Antes, já o PSD se intrometera na polémica. Pedro Passos Coelho manifestou perplexidade e criticou Costa pela intromissão em assunto da esfera privada. Passos considera "inaceitável" a "admoestação pública" no Parlamento do primeiro ministro à Altice. "Um péssimo sinal quando um primeiro-ministro e um Governo sente que podem desta maneira junto de uma empresa", vincou Passos. Se foi um deslize de Costa, Passos espera "que não volte a acontecer" por revelar uma visão "muito negativa sobre a função do governo uma economia social de mercado".

Ontem, durante a conferência de imprensa, Michel Combes, director executivo da Altice, recusara fazer política sobre a operação portuguesa da multinacional. "Não estamos a despedir na PT, não há qualquer intenção de despedir na TVI", reafirmaram os responsáveis da Altice.

TVI: Concorrência e Bruxelas

Para o governo o problema não está na compra da TVI. Sai um grupo espanhol (Prisa), que se mostrou próximo do poder socialista, entra capital francês. O ministro Pedro Marques deu o mote ao remeter para "os reguladores, que seguramente estão atentos". Bruxelas (DGCom) poderá ter uma palavra a dizer no negócio. Mas, para já, a operação segue na Autoridade da Concorrência (AdC) e na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Nem Bruxelas, nem os reguladores portugueses se querem querem pronunciar sobre quem tem competência para analisar o dossier. Mas, a expectativa da AdC é de que o negócio vá mesmo para Bruxelas, tal como sucedeu com a compra da PT, há dois anos. Para ser classificado com "dimensão comunitária", o negócio tem que envolver um volume de negócios total realizado à escala mundial pelo conjunto das empresas em causa superior a 5 mil milhões de euros".

Prisa perde 69 milhões no negócio TVI

A imprensa espanhola passa ao lado do negócio que envolve um dos principais grupos de media do país - a Prisa. O El Pais, do universo Prisa é quem dá mais destaque ao negócio, realçando que com a Media Capital, a Altice "posiciona-se para ser uma alternativa, nos conteúdos digitais, a Facebook e Google". Sobre a operação, o El Pais diz que que gera um prejuízo contabilístico nas contas consolidadas da Prisa de 69 milhões de euros (81 milhões nas contas individuais) . A queda do mercado publicitário "afetou o desempenho financeiro da Media Capital, mas o forte controlo de custos realizado, permitiu ao grupo português fechar o primeiro trimestre de 2017 com um lucros de exploração de 5,6 milhões de euros, escreve o El Pais.

O preço pago pela Altice (440 milhões) compara com os 190 milhões de euros que a Prisa pagou em 2005 por um terço da Media Capital, avaliando a empresa em 570 milhões

A Prisa lida com pressões de accionistas e bancos para reduzir a dívida líquida, da ordem dos 1500 milhões de euros. E para a reduzir lançou há um um programa da venda de ativos que incluía a Media Capital e a editora Santillana. No primeiro trimestre, a Prisa teve um lucro líquido de 22 milhões de euros, um crescimento de 70%.