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Quando Costa era “alérgico” a políticos que choram na TV durante as tragédias

António Cotrim/Lusa

Em 2005, António Costa era ministro da Administração Interna e teve um verão negro. Como este ano, mudou as chefias do combate aos fogos em cima do verão. E as más notícias não o impediram de ir de férias

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Em 2005 António Costa era o ministro da Administração Interna (MAI) do Governo de José Sócrates. Fazendo a história desse verão — o segundo pior de sempre em termos de incêndios em Portugal — há muita coisa parecida com o que se está a passar este ano. E algumas contradições também relevantes.

Pouco depois de entrar em funções, em março, o MAI decidiu mudar os principais responsáveis da estrutura de combate aos incêndios — tal como este ano, essa alteração aconteceu em cima da época de fogos. A estrutura de proteção civil falhou, e um dos governadores civis recém-nomeados por Costa reconheceu que não percebia nada do que estava a fazer, no âmbito das suas competências de coordenação do combate aos fogos — porém, a julgar pelas declarações da ministra Constança Urbano de Sousa há poucos dias, bateu aquela saudade em relação aos governadores civis. Em 2005, a tragédia não impediu o primeiro-ministro de ir de férias — Sócrates fez malas para o Quénia, deixando Costa, o seu número dois, a chefiar o Governo. Depois, mal Sócrates voltou, foi a vez de o próprio Costa ir a banhos, apesar de o país continuar a arder. No final, perante as contas da área ardida e das vítimas mortais, Costa prometeu que nada voltaria a ser como era... Soa familiar?

Ainda julho de 2005 ia a meio e já as contas davam dores de cabeça: o número de fogos era o triplo da média dos cinco anos anteriores e havia um risco sério de que o ano terminasse com um balanço pior do que 2003, o annus horribilis de Durão Barroso, quando arderam 425 mil hectares, uma área nunca ultrapassada.

Contas feitas, 2005 ficou-lhe atrás — nesse ano, o primeiro de Costa como MAI, arderam 339 mil hectares, em resultado de quase 36 mil fogos florestais registados (este sim, um valor ainda hoje recorde). E morreram 15 pessoas, das quais 10 bombeiros.

Chegados a agosto, os fogos florestais tinham-se transformado num fogo político, com Costa como bombeiro de serviço: de férias num safari africano, Sócrates “por duas vezes” telefonou ao MAI a perguntar se devia voltar à pátria; este respondeu-lhe “por mais de duas vezes que não se justificava interromper as suas férias” — palavras de Costa no Parlamento, reunido de emergência em pleno agosto para debater os fogos (e as férias do chefe do Governo). Ocasião para o nº 2 do Executivo dar provas do seu sangue frio político: “Sou alérgico a políticos que correm para as câmaras de televisão a chorar e a rasgar as vestes perante uma tragédia”, disse Costa — mensagem que a sua atual ministra da Administração Interna (que em 2005 era assessora do MAI) não fixou. Nem Constança, nem o rol de governantes que desfilou por Pedrógão.

A crítica do comentador Marcelo

Em 2005, a oposição protestou pela ausência do primeiro-ministro — e, nessa altura, oposição significava PSD e CDS, mas também PCP e BE. Bagão Félix, que poucos meses antes era ministro das Finanças, colocava uma questão que, agora, também se tem ouvido: “Se isto fosse com o dr. Santana Lopes, o que seria?” Também um popular comentador, de seu nome Marcelo Rebelo de Sousa, se espantava com o à vontade com que Sócrates prolongava o descanso: “Acho maravilhoso como é que o primeiro-ministro, com o país nestas circunstâncias, consegue passar tanto tempo de férias.” O mesmo Marcelo que, esta semana, desvalorizou as férias do primeiro-ministro num momento de crise.

Não só a agenda do PM não foi beliscada pelos fogos em 2005, como o MAI não deixou de ir a banhos com o país a arder — em meados de agosto, mal Sócrates voltou, foi a vez de Costa banhar-se no Algarve. Mas a situação dos fogos era tão grave que teve de interromper o descanso para ir à Sertã, onde apareceu perante as câmaras. Não chorou nem rasgou vestes, mas desabafou: “O Governo quer é que esta época de fogos passe depressa, para depois criar um novo projeto, para o ano. Já se sabia que [2005] ia ser muito mau.”

As explicações sobre o que correu mal foram adiadas, “até que todos os dados sejam recolhidos”, anunciou Costa, mas a narrativa política não esperou: a responsabilidade era dos Governos anteriores, de Durão e Santana, e não da equipa que entrara em março.

As decisões de Costa

Não era bem assim: em abril, Costa avançou com duas decisões com impacto direto na coordenação do combate aos fogos.

Primeiro, mudou todos os governadores civis, cumprindo a tradição de trocar os boys quando mudava o Governo — o problema é que era a eles que competia, nesse tempo, a direção distrital do combate aos fogos. Na prática, em 2005, tal como este ano, os responsáveis distritais da proteção civil foram mudados quando os fogos estavam quase a começar. O caso do governador civil de Coimbra tornou-se paradigmático: “Combate a fogo de Coimbra foi entregue a ‘caloiro’”, noticiava o Expresso em agosto de 2005. O fogo que atingiu a cidade de Coimbra demorou 90 horas a ser extinto, com o comando das operações entregue a Henrique Fernandes. O governador civil escolhido por Costa admitia que era “um caloiro”, sem “qualquer formação técnica no domínio do combate aos fogos”. Estranhamente, depois do incêndio no Pinhal Interior, Constança Urbano de Sousa lamentou o desaparecimento dos governadores civis.

Mas voltemos a 2005, e à segunda grande decisão de Costa antes dos fogos. Embora tenha mantido a estrutura de Proteção Civil do Executivo anterior, o MAI tomou aquilo que, na época, o Expresso classificou como uma “opção arriscada”: “A equipa dirigente do Serviço Nacional de Bombeiros e Proteção Civil [como então se chamava o organismo] foi mantida, mas foi-lhe retirada toda a autoridade em matéria de combate aos incêndios. Esse poder foi passado para a Autoridade Nacional para os Incêndios Florestais, cujo presidente (Ferreira do Amaral, um general do Exército) instalou o seu quartel-general na sede do SNBPC e passou a trabalhar diretamente, e só, com o coordenador nacional do Serviço, Gil Martins (que tinha sido demitido pelo Governo do PSD/CDS depois da tragédia de 2003).”

Depois do teste de fogo que foi o grande incêndio de Coimbra, o mesmo Ferreira do Amaral diria que, apesar de em teoria estar no topo da pirâmide da máquina de bombeiros e proteção civil, na prática o seu papel era dar “motivação”e “força moral”...

Outro texto do Expresso explicava o racional político das alterações introduzidas por Costa antes do início dos fogos: “Se as coisas corressem bem, podia sempre dizer que tal se devia a à eficácia da coordenação do chefe da nova Autoridade. Correndo mal, como está a acontecer, pode sempre atribuir responsabilidade à herança recebida.” Assim foi: “Não podíamos fazer mais do que fizemos. Os planeamentos já estavam feitos pelo anterior Governo”, afirmou Costa, rodeado de cinzas.

Popularidade do Governo intacta

Não há notícia de o Governo de então ter feito um focus group sobre a sua popularidade pós-incêndios, mas o barómetro do Expresso, em setembro, era sintomático: Sócrates continuava a ser o líder mais popular e 61% dos inquiridos achava bem que o PM não tivesse interrompido as férias. Quanto às responsabilidades políticas pelos fogos, 55% atribuía culpa aos “sucessivos governos”. Costa, esse, prometeu mudar tudo o que precisasse de ser mudado para não se repetir uma tragédia daquelas — contratou o SIRESP, mandou comprar helicópteros Kamov, reformulou a Proteção Civil. Mas esse é assunto para o texto ao lado.

Artigo publicado na edição do Expresso de 07/07/2017