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Política

Pedrógão e Tancos vão contaminar o debate do Estado da Nação

António Costa vê a sua popularidade e a do Governo descerem no mês de julho, já depois da tragédia de Pedrógão Grande e do assalto em Tancos

Foto José Carlos Carvalho

Politólogos garantem que os dois acontecimentos vão estar no centro da discussão, podendo desgastar o Governo. Até aqui as expectativas estavam a ser superadas

Na próxima quarta-feira à tarde o parlamento vai debater o Estado da Nação. Não tivessem acontecido a tragédia dos incêndios em Pedrógão Grande e o roubo de armamento em Tancos e a equipa liderada por António Costa estaria tranquila, a superar as expectativas, com uma oposição em dificuldades e um Presidente da República como elemento decisivo, afirmam vários politólogos. Mas os dois acontecimentos mudaram a realidade.

António Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais, e André Azevedo Alves, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, garantem que há um antes e um depois do incêndio em Pedrógão Grande, que vitimou 64 pessoas, e do do roubo de material de guerra da base militar de Tancos (Santarém). Ambos os politólogos acreditam que os dois acontecimentos vão contaminar o debate.

"Até Pedrógão Grande e Tancos é relativamente fácil: temos o Governo socialista que continua a conseguir fazer duas coisas improváveis: aproveitar a recuperação económica e a melhoria das relações com Bruxelas, mantendo a estabilidade fundamental com os seus parceiros de acordo parlamentar", referiu António Costa Pinto. Na sua opinião, "a contaminação por estes fatores conjunturais não vai permitir ao Governo fazer um balanço - ainda que vá ser essa a sua tentativa - sobre a recuperação económica".

Administração Interna e Defesa "muitíssimo enfraquecidas"

Já André Azevedo Alves considera que "é ainda muito cedo e, portanto, há efeitos que não é possível medir já" destes dois acontecimentos. Ainda assim, é visível que "as posições da ministra da Administração Interna e do ministro da Defesa estão muitíssimo enfraquecidas". Mas, "o mais relevante é que a dimensão sem precedentes da tragédia, juntamente com a gravidade do roubo de armamento de guerra em Tancos, deixam muitas questões em aberto e são daqueles raros casos de problemas nos quais há uma clara implicação dos pilares fundamentais do Estado, tendo por isso potencial para se constituírem como fatores de desgaste a médio e longo prazo."

Para lá dos casos de Pedrógão Grande e Tancos, António Costa Pinto realça que os estudos apontavam até agora para "uma recuperação eleitoral do PS sem grandes danos eleitorais para os partidos que os apoiam". "Sobretudo o PSD demonstrou ao longo da sessão legislativa grandes problemas - como quase sempre acontece - em conseguir suster uma oposição que possa ser alternativa e seja percecionada como tal." E prevê: "Quanto mais tempo esta solução governativa de mantiver estável, maior é o potencial para crises no interior do PSD."

Para André Azevedo Alves a estabilidade do Governo dever-se a "uma conjugação de fatores: a habilidade política de António Costa, o efeito indireto de silenciamento e apagamento do BE e do PCP que a solução acabou por ter, o apoio do Presidente da República e o estado da oposição". Ou seja, "o CDS pelas dificuldades de afirmação da nova líder até ao momento; o PSD pela inabilidade, tem sido largamente reconhecido que a oposição não tem sido eficaz, provavelmente porque Passos Coelho e o seu círculo mais próximo apostava, como muitos analistas, numa queda rápida do Governo".

Marcelo tem um "papel quase de amparar o Governo"

Sobre a importância e centralidade do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ambos os politólogos estão de acordo. António Costa Pinto é perentório ao afirmar que o chefe de Estado se "transformou no eixo semipresidencial" e que "é e será até às próximas eleições o elemento decisivo da vida política portuguesa".

Destaca ainda que "Marcelo Rebelo de Sousa transformou-se ao longo desta legislatura no principal elemento de confiança, mas também no principal elemento de desconfiança dos partidos políticos em Portugal porque está nas mãos do Presidente da República, de uma forma bem mais clara, apoiar, estabilizar ou provocar alterações ao nível eleitoral, perante a eventualidade de uma crise". Recordando que o próprio Presidente da República se assumiu como "um aliado precioso da estabilidade desta solução governativa", André Azevedo Alves afirma que Marcelo Rebelo de Sousa tem tido um "papel quase de amparar o Governo em momentos de maior dificuldade, realçando números bons, desvalorizando números maus".