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A história militar de Portugal tem quase mil anos. E começou com um casamento

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A História Militar de Portugal tem implicações políticas, económicas, sociais e culturais. Ao longo de 700 páginas, três historiadores relatam-nos esta dimensão da vida do nosso país num livro que é apresentado esta sexta-feira no Museu Militar de Lisboa, pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva

A história militar de Portugal é anterior à fundação do reino e ao nascimento de D. Afonso Henriques. Pode dizer-se que começa com a ‘prenda’ que Henrique de Borgonha e D. Teresa, filha bastarda de Afonso VI de Leão e Castela, receberam do pai da noiva quando casaram em 1096. E essa ‘prenda’ foi o governo e defesa do Condado Portucalense.

O livro que vai ser apresentado ao fim da tarde desta sexta-feira no Museu Militar de Lisboa pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, é uma “síntese” da história militar do nosso país. E é também a primeira obra com estas caraterísticas nos últimos 86 anos”. Quem o diz é o historiador Nuno Severiano Teixeira, coordenador e co-autor da obra.

O que as 700 páginas deste trabalho têm de novo, é uma análise da história militar em função do “contexto”, explica Nuno Severiano Teixeira: “Não é o herói ou o acontecimento” que conta, mas o “contexto político, social, cultural e económico do conflito”.

Antes deste novo livro da editora Esfera dos Livros, a última obra com caraterísticas similares – da autoria de Carlos Selvagem [pseudónimo] – foi publicada em 1931, de acordo “com o paradigma historiográfico da época”, ou seja o relato da história só em função de acontecimentos, no caso batalhas, guerras, derrotas e conquistas, diz Severiano Teixeira.

Esta “História Militar de Portugal” começa em 1096 e termina em 2010. Ao longo de 700 páginas, Nuno Severiano Teixeira, Francisco Domingues e Gouveia Monteiro analisam a importância da instituição militar e o seu impacto na vida social, económica e cultura ao longo de 914 anos

Esta “História Militar de Portugal” começa em 1096 e termina em 2010. Ao longo de 700 páginas, Nuno Severiano Teixeira, Francisco Domingues e Gouveia Monteiro analisam a importância da instituição militar e o seu impacto na vida social, económica e cultura ao longo de 914 anos

D.R.

Voltando à ‘prenda’ que Afonso VI ofereceu à sua filha Teresa e ao genro Henrique de Borgonha por ocasião do seu enlace em 1096, acresce dizer que – em 1093 – o rei de Leão e Castela recebera uma estranha ‘oferta’ das mãos de Al Mutawakil. O rei mouro (muçulmano) de Badajoz estava descontente e receoso daquilo que na atualidade poderíamos chamar de estratégia expansionista e prática sanguinária da dinastia almorávida [defensora de uma interpretação fundamentalista do islão], e preferiu entregar as cidades de Lisboa, Santarém e Sintra ao católico Afonso VI, a deixá-las cair nas mãos dos radicais da época.

Aguarela de Alfredo Roque Gameiro, intitulada “A conquista de Lisboa aos Mouros”

Aguarela de Alfredo Roque Gameiro, intitulada “A conquista de Lisboa aos Mouros”

Coleção Museu da Cidade/CML

Afonso VI confiou o governo e defesa das três cidades que atualmente fazem parte do território português ao seu genro Raimundo, Conde de Borgonha, marido de Urraca, sua filha pela linha legitimária, mas Raimundo perderia as praças de Lisboa e Sintra no ano seguinte.

O que aqui recordamos mostra que a diplomacia matrimonial é anterior à fundação do reino, e que teve desde essa altura um papel determinante na política de alianças. Seria seguida nos oito séculos seguintes da monarquia portuguesa, com boas e más consequências para a independência do reino.

O contexto da guerra

Por ser uma “obra de síntese”, este livro “procura um panorama histórico e uma visão de conjunto do seu objeto (...) que procura combinar com equilíbrio, o rigor e a exigência académica com uma narrativa académica”, lê-se na introdução.

A estrutura da obra segue a periodização clássica a que correspondem cada uma das três partes do livro: A primeira, da autoria de João Gouveia Monteiro, cobre a história medieval (1096-1495); a segunda, da autoria de Francisco Contente Domingues, cobre a história moderna (1495-1820), enquanto a terceira, de Nuno Severiano Teixeira, se dedica à história contemporânea, de 1820 a 2010.

Imagem sobre a estratégia utilizada na batalha de Montes Claros. Foi em 1665, nos arredores de Estremoz, nas guerras que se seguiram à Restauração

Imagem sobre a estratégia utilizada na batalha de Montes Claros. Foi em 1665, nos arredores de Estremoz, nas guerras que se seguiram à Restauração

Biblioteca Nacional de Portugal

Durante muitos séculos a guerra teve uma função “identitária” no nosso país. Primeiro foram as guerras contra os mouros, contra Leão e Castela – os combates pela independência do reino sempre que esta esteve ameaçada, muitas vezes pelas linhas de sucessão geradas por uma diplomacia matrimonial em circuito fechado.

Mais tarde foram as guerras da expansão marítima e territorial, as guerras da restauração da independência, as guerras civis do século XIX. Em todas, houve fações, partidos, que de uma forma ou outra contribuíram para a génese e consolidação da identidade nacional.

Mais próximo de nós foram as guerras da descolonização e as intervenções militares com impacto na vida política do país: As revoluções de 1910, 1926 e 1974.

A participação portuguesa nas missões de paz, “caraterizam o final do século XX e primeiros anos do XXI”. Estas campanhas surgem a partir de 1996, com a participação de militares portugueses no conflito da ex-Jugoslávia: “Assinalam a primeira participação portuguesa em conflitos internacionais, depois da I Guerra Mundial”, lembra Severiano Teixeira, acrescentando que estas missões “foram (e são) importantes em termos de modernização e prestígio internacional” das Forças Armadas portuguesas.

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