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Tancos: oficiais em protesto vão depor espadas à porta da Presidência da República

Manifestação marcada para quarta-feira, contra a exoneração de cinco comandantes de unidade anunciada pelo chefe do Estado-Maior do Exército. Oficiais estão a ser convocados por email e estarão fardados na ação de protesto

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Os oficiais do Exército estão a ser convocados por email para uma manifestação na próxima quarta-feira, em Belém, em protesto contra a forma como cinco comandantes de unidades foram exonerados pelo chefe de Estado-Maior do Exército (CEME) na sequência do roubo de armamento de guerra em Tancos, na semana passada.

O Expresso teve acesso ao email que convoca a manifestação. O plano é começar com uma concentração às 11h30, em frente ao Monumento aos Mortos, na zona da Torre de Belém, e depois seguir em marcha silenciosa em direção ao Palácio de Belém. Aí, os oficiais deverão depor simbolicamente as suas espadas, perante a residência oficial do Presidente da República, que é o comandante supremo das Forças Armadas.

O protesto visa diretamente Marcelo Rebelo de Sousa, cujo silêncio sobre este caso se prolonga desde que foi noticiado o roubo, na quinta-feira, mas tem como alvos principais o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, e o CEME, Rovisco Duarte, que anunciou a exoneração dos cinco comandantes em direto numa entrevista à RTP, sem antes ter contactado os visados.

As instruções para os manifestantes são rigorosas: de acordo com o email que começou a circular esta segunda-feira, os oficiais não devem fazer declarações à imprensa e devem apresentar-se fardados, com o "uniforme nº1, sem condecorações, só com os crachats de especialidade", para além de levarem as espadas, que simbolizam o comando de oficiais.

Note-se que não é comum os oficiais das Forças Armadas manifestarem-se fardados. Nas ações de protesto convocadas pela Associação dos Oficiais das Forças Armadas, esta organização opta, em regra, por manifestações à civil. Mas a ação da próxima quarta-feira não está a ser convocada por qualquer organização formal, mas por oficiais que espontaneamente decidiram reagir contra a "ignomínia" de que estão a ser alvo os cinco militares exonerados.

"Estão em causa valores e o bom nome de vários dos nossos camaradas, arrastados pela lama por chefes militares que há muito já deveriam ter sido demitidos", lê-se no texto que acompanha a convocatória para a manifestação. "Os princípios e valores que nortearam a Instituição Exército, e nos quais fomos forjados, correm hoje sérios riscos, numa sociedade sem norte, à beira do inaceitável, onde a indignidade, a desonestidade e a incompetência, são ameaçadoras moléstias em período de forte contágio. Ignorar sofrimentos, princípios de generosidade e de solidariedade, de dignidade e de honra, não é um procedimento certo!", lê-se no mesmo documento.

Os objetivos assumidos para o protesto são claros e incluem o pedido de exoneração do CEME, Rovisco Duarte, e do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Pina Monteiro. Outro objetivo é "demonstrar a indignação, através da entrega da espada, símbolo do comando de oficiais, pela exoneração e humilhação pública, familiar, social a que foram sujeitos os nossos camaradas", assim como "pedir a recondução dos coronéis exonerados no comando das unidades e um pedido formal de desculpas pela Instituição aos seus familiares e camaradas de armas".

Recorde-se que, no sábado, o CEME anunciou a exoneração "temporária" de cinco comandantes: da Unidade de Apoio da Brigada de Reação Rápida, do Regimento de Infantaria 15, do Regimento de Paraquedistas, do Regimento de Engenharia 1 e da Unidade de Apoio de Material do Exército.

O anúncio foi feito durante uma entrevista à RTP. Rovisco Duarte não relacionou os militares exonerados com qualquer suspeita direta neste caso, mas explicou a decisão "por uma questão de clareza e para não interferirem com o processo de averiguações até se esclarecer" o que aconteceu no roubo de armamento de guerra na semana passada.