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Pressão cresce, Azeredo inamovível

Foto António Pedro Ferreira

O facto de Costa estar alegadamente de férias fora do país e a ausência de demissões na sequência do roubo em Tancos geram contestação à direita. A esquerda pede “responsabilidade” e “consequências”. O Governo diz que “estão a ser desenvolvidas todas as diligências para que os factos e as responsabilidades sejam totalmente apurados”

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Apesar da crescente pressão dos militares indignados com o Governo, o ministro da Defesa está inamovível. No fim de semana, Azeredo Lopes afirmou que assume “responsabilidade política” pelo assalto em Tancos pelo “simples facto de estar em funções” mas isso não significa que o ministro esteja a pensar em demitir-se.

Segundo confirmou o Expresso, Azeredo Lopes considera que não teve culpa objetiva pela falta de segurança revelada e que está a fazer as diligências que considera necessárias. Mas não é essa a perceção entre os militares. Oficiais ouvidos pelo Expresso consideram que este caso do furto de armamento em Tancos é consequência do progressivo desinvestimento nas Forças Armadas levado a cabo por sucessivos Governos e que, portanto, a responsabilidade também é política.

“As Forças Armadas têm feito sempre um grande esforço para responder às missões que são solicitadas”, frisa um oficial ao Expresso, lamentando que um dia, quando alguma coisa corre mal, seja apenas aos militares pedida responsabilidade.

Recorde-se que o chefe de Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, anunciou sábado a suspensão temporária dos cinco comandantes das unidades que asseguravam a vigilância dos paióis assaltados, atitude que é também criticada por alguns militares dado o seu caráter inédito.

“Não quero que haja entraves às averiguações e decidi exonerar os cinco comandantes das unidades que de alguma forma estão relacionadas com estes processos”, disse Rovisco Duarte, em declarações à RTP, admitindo que o furto terá sido feito com a ajuda de militares do perímetro de Tancos.

No Facebook, a revolta com o poder político dá também sinais. “Há quanto tempo o Ministério da Defesa era conhecedor das dificuldades que afetam as Forças Armadas pela suborçamentação sucessiva? (…) Os chefes militares não têm alertado a tutela política para essa realidade ao longo do tempo? (…) O que é que o Ministério da Defesa tem feito para responder a tais preocupações?”, questiona o general Formeiro Monteiro, presidente da Assembleia Geral da Associação de Oficiais das Forças Armadas.

Orlando Sierra/AFP/Getty Images

Em 2011 houve um furto no quartel dos comandos, na Carregueira, em que desapareceram 10 armas. Foi aberta uma investigação que concluiu que só podia ter havido ajuda de militares mas os autores nunca foram identificados. O comandante da unidade foi exonerado no final do inquérito.

CDS pede demissões

No plano político, o CDS viu no roubo de armas em Tancos — encadeado à tragédia de Pedrógão Grande — a confirmação de que “não é possível restaurar a quebra de confiança que neste momento existe no Estado nos domínios da Defesa e da Segurança”.

Numa conferência de imprensa esta segunda-feira à tarde na sede do Partido, em Lisboa, horas depois de ter sido recebida em Belém pelo Presidente da República, Assunção Cristas referiu-se diretamente a Constança Urbano de Sousa e a Azeredo Lopes para defender que “o primeiro-ministro tem de os demitir e, se não estiver em Portugal, convém que volte e o faça”.

Isto porque, segundo Cristas, a ministra da Administração Interna e o ministro da Defesa “não souberam estar à altura das suas responsabilidades”, pelo que as suas demissões são “inevitáveis”. “Temos de o dizer sem hesitações e sem rodeios: senhor primeiro-ministro, volte e demita-os”, afirmou a líder do CDS, numa alusão ao facto de Costa estar alegadamente de férias fora do país.

“Responsabilidade” e “consequências”, pede a esquerda

O avolumar de situações que traduzem um “falhanço em tarefas fundamentais do Estado” — como lhe chamou Catarina Martins — levou o Bloco de Esquerda e o PCP a aumentaram ligeiramente, este fim de semana, o tom das críticas à atuação governativa. E se é certo que os dois partidos, cada um à sua maneira, conseguiu estender parte das responsabilidades (ainda) às consequências da governação do PSD e do CDS, nenhum deixou de fora do alvo o executivo de António Costa. E se é certo que ninguém pediu demissões no Governo, os eufemismos entraram em força no discurso, travestidos de exigências de “responsabilidades” e “consequências”.

“No momento em que estamos a discutir como o Estado falhou tanto na tragédia de Pedrógão Grande, somos surpreendidos com notícias de outras áreas que mostram este falhanço em tarefas fundamentais do Estado. Falo-vos do roubo de armamento em Tancos, que é seguramente um roubo que não se consegue explicar e que tem uma enorme gravidade pelo armamento roubado, de que ainda não sabemos o destino e ainda não foi resgatado. E também porque ficámos a saber da vigilância inexistente”, disse Catarina Martins no domingo, à margem da apresentação da candidatura de Ana Ribeiro à Câmara de Salvaterra de Magos.

Assumindo a sua “perplexidade” por esta situação, a coordenadora do Bloco defendeu que “estas descoordenações e falhanços em funções essenciais do Estado precisam naturalmente que sejam assumidas responsabilidades”. E se admitiu que “podemos olhar para o Governo PSD/CDS-PP e para a forma como cortou irresponsavelmente no Estado” para encontrar essas responsabilidades, Catarina Martins também enfatizou que “o PS está no Governo”, que “há mais de um ano e meio aprovou Orçamentos do Estado” e “deveria ter dado resposta a estas necessidades de serviços públicos”. Algo que não aconteceu porque no último orçamento, por exemplo, houve “1, 6 mil milhões de euros que não foram gastos, para reduzir o défice ainda mais do que o que estava previsto”, acabando esse dinheiro por fazer falta “no funcionamento dos serviços” do Estado.

No caso concreto dos serviços militares - e a propósito do roubo de armas em Tancos - Jerónimo de Sousa também argumentou que “existe uma responsabilidade clara por parte do Governo” e “por parte de sucessivos governos” por terem reduzido ‘ao osso’ “a condição militar, tanto no plano pessoal, dos direitos dos militares e da própria quantidade das Forças Armadas”. E isso ocorreu, segundo o secretário-geral do PCP, “esquecendo muitas vezes que, aceitando as imposições da União Europeia, dos cortes e mais cortes, de reduções e mais reduções, colocam em causa aquilo que é a missão fundamental das nossas Forças Armadas, que é serem o garante da nossa independência e soberania”.

Para Jerónimo, o roubo de armas foi “uma situação muito grave” e que por isso “exige apuramento e também que se retirem consequências daquilo que aconteceu”. “Não se trata de mais um incidente, mais um crime, e creio que é fundamental que esse apuramento seja feito e se retirem as ilações, tanto no plano da instituição, como no plano político”, referiu, sem pedir diretamente a demissão do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, e estendendo as responsabilidades a António Costa. “Se isto se resolvesse com a demissão do ministro, muito bem. Mas penso que, de qualquer forma, a responsabilidade política maior é do primeiro-ministro. E é nesse quadro que a questão deve ser colocada”, defendeu no domingo.

Antes de Cristas pedir as demissões de Constança e Azeredo, o ministro dos Negócios Estrangeiro, Augusto Santos Silva, admitiu que “a violação de instalações militares” foi “um acontecimento muito grave”.

Em declarações aos jornalistas após um encontro com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, no Palácio das Necessidades, em Lisboa, Santos Silva garantiu que “estão a ser desenvolvidas todas as diligências para que os factos e as responsabilidades sejam totalmente apurados, assim como todas as medidas para reaver o material roubado”.