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Morreu Medina Carreira

O fiscalista e antigo ministro das Finanças, Henrique Medina Carreira, morreu esta segunda-feira num hospital em Lisboa, vitima de doença prolongada. Tinha 86 anos

Henrique Medina Carreira, que morreu esta segunda-feira aos 86 anos, era nos últimos anos uma das vozes mais acutilantes em relação às opções políticas e em particular à estratégia financeira do país, que governou no I Governo Constitucional.

Nascido em Bissau em 14 de janeiro de 1931, Medina Carreira aprendeu a ler e a escrever aos quatro anos, com o pai, que lhe ensinou também "o rigor no dinheiro" e a assumir responsabilidades desde muito cedo.

Medina Carreira era licenciado em Direito, tinha bacharelato em Engenharia Mecânica e uma licenciatura em Pedagogia, tendo começado o percurso profissional como professor técnico de matemática e empregado de escritório no sector metalúrgico, que acumulava com o estudo de Direito, que só concluiu em 1962.

A partir de 1964, começou a dedicar-se ao exercício da advocacia, sobretudo Direito Fiscal, e ao estudo da fiscalidade.

Após o 25 de Abril, foi nomeado administrador, por parte do Estado, do Banco Internacional Portugal e, de outubro de 1975 a julho de 1976, foi subscretário do Orçamento no executivo provisório de Pinheiro de Azevedo, tendo desde logo alertado várias vezes para a situação financeira do país.

Foi já como ministro das Finanças - pasta que assumiu entre julho de 1976 e janeiro de 1978, em governos presididos por Mário Soares - que liderou as negociações com Fundo Monetário Internacional (FMI) com vista à obtenção de um empréstimo de 750 milhões de dólares.

Em entrevista ao Jornal de Negócios em 2009, Medina Carreira recordou que ser ministro das Finanças era "um lugar melindroso", porque "todos os dias se negava dinheiro às pessoas. É um lugar de combate e de grande antipatia nas decisões".

"Não era uma atração ser ministro das Finanças. Num país rico e próspero, deve ser agradável", disse, o que não era de todo o caso de Portugal naquela altura e foram as divergências em relação às opções político-partidárias que o levaram a demitir-se no II Governo do PS, partido de que era militante desde 1973.

A par da sua carreira profissional, foi membro do Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais, membro do Conselho Fiscal da Fundação Oriente, vice-presidente do Conselho Nacional do Plano, vogal do Conselho de Administração da Expo'98, presidente da Comissão de Reforma de Tributação do Património (nomeado por António Sousa Franco), presidente da Direção da Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores e vogal eleito do Conselho Superior da Companhia de Seguros Sagres.

Nos últimos anos, Medina Carreira fazia-se acompanhar – nas participações em debates e televisivas – com estatísticas e gráficos que atestavam o galopar dos gastos públicos e da dívida de Portugal, criticando opções dos sucessivos governos.

Na entrevista publicada pelo Jornal de Negócios em 2009, Medina Carreira dizia não ter medo da morte, mas "da maneira de morrer".

"Defendo que desde a nascença devíamos ser portadores de uma ampola com cianeto de potássio. (...) Acho que devíamos ser senhores do nosso fim. Não devíamos discutir eutanásia e testamento vital: era uma ampolazinha de cianeto de potássio. Mas isto é doutrina que nunca pegará, como é óbvio".

Medina Carreira, morreu esta segunda-feira num hospital em Lisboa, aos 86 anos, vítima de doença prolongada, disse à Lusa fonte ligada à família.