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“Era mais fácil demitir-me mas optei por dar a cara”

A ministra Constança Urbano de Sousa manifestou, em entrevista à RTP3, alguma “perplexidade” pela atuação da GNR e admitiu ter havido uma subavaliação das condições meteorológicas, no entanto poupou bombeiros e Proteção Civil perante um fenómeno “absolutamente anómalo”

A ministra da Administração Interna está para ficar. Pelo menos se a decisão de permanecer no Governo estiver na suas mãos. A tragédia dos incêndios que, provocou 64 mortos e mais de 200 feridos, já deu origem a fortes críticas e a pedidos de demissão da responsável pelas forças operacionais no terreno. Mas Constança Urbano de Sousa deixou claro esta quinta-feira à noite, em entrevista a Vitor Gonçalves, da RTP3 que não tem intenções de deixar o Governo.

“Enquanto tiver a confiança do primeiro ministro, não me demito”, disse. E, se é certo que atravessou o momento “mais difícil não só do meu mandato, como da minha vida”, acha que tem obrigação de continuar. “Era fácil demitir-me, rolava uma cabeça e o problema continuava”, disse, considerando que “teria sido cobarde fugir da adversidade”.

Há quatro dias instalada no chamado teatro das operações, localizada ora em Pedrogão Grande, ora em Ansião, a ministra da Administração Interna deu a sua primeira entrevista desde que deflagrou o mais trágico incêndio de que há memória na história da democracia portuguesa. Constança Urbano de Sousa realçou isso mesmo. “A única que ficou em permanência fui eu, que nunca fui rendida por ninguém”, disse na RTP3.

No dia em que o Governo em peso, o chefe de Estado, o presidente da Assembleia da República e representantes de todas as bancadas parlamentares estiveram em Castanheira de Pêra para o funeral do bombeiro morto no combate ao incêndio, a ministra respondeu a todas as principais dúvidas que se têm vindo a colocar sobre o que falhou nas operações de ataque ao fogo.

Foi, segundo a ministra, um fenómeno “absolutamente anormal”. A maneira como o incêndio surgiu e progrediu teve todos os adjetivos no grau máximo. “Alucinante” e“catastrófico” foram alguns dos termos escolhidos para justificar, também, a ausência da abertura de um inquérito que a ministra não exclui para mais adiante. Até lá “precisamos de perceber muito bem o que é este fenómeno”, disse.

Poupar bombeiros e Proteção Civil

Ao longo da entrevista a ministra admitiu ter algumas dúvidas sobre a reacção ao fogo que começou no sábado à tarde em Pedrogão Grande. Confessou mesmo que o facto de não ter sido encerrada a EN356, (a chamada estrada da morte onde morreram 47 pessoas), lhe causou “alguma perplexidade”, tal como admitiu poder ter havido “uma subavaliação das previsões meteorológicas” por parte do Instituto do Mar e da Atmosfera.

Mas já quanto aos organismos diretamente sob a sua tutela – como a actuação da Protecção Civil, bombeiros e o funcionamento do SIRESP, o sistema de comunicações coordenado e contratado pelo seu Ministério – Constança Urbano de Sousa foi bastante mais protectora. A ministra garantiu mesmo não ter informação “que as comunicações tenham estado cortadas”, dificultando a coordenação das operações de combate ao fogo, limitando-se a dizer que “houve intermitências” superadas com a instalação de redes móveis satélites no local, logo às 20 horas de sábado, o dia em que o incêndio deflagrou.

A atuação dos bombeiros mereceu rasgados elogios por parte da ministra que garantiu que todos os “meios estavam em estado de prontidão”, apesar de a época de incêndios só ter início oficial no dia 1 de julho e desvalorizou eventuais falhas com a complexidade da situação que as forças operacionais tiveram de enfrentar. “Há velocidades de incêndios que nada pode parar”, afirmou.

A capacidade de resposta do sistema de Protecção Civil não foi posta em causa com o balanço trágico destes incêndios, assegura a ministra que justificou esta afirmação com o facto de, no mesmo dia, o país ter enfrentado 156 fogos, dos quais “apenas dois ficaram por resolver na sua fase inicial”. Constança Urbano de Sousa admitiu ainda mandar abrir um inquérito aos acontecimentos à Inspecção Geral da Administração Interna e não fechou a porta à proposta, apresentada esta quarta-feira pelo PSD, de promover um inquérito a realizar por parte de uma entidade independente para apurar responsabilidades e corrigir falhar.