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Manuel Pizarro: “A reabertura do processo da EMA é feita depois da intervenção do PS Porto”

rui duarte silva

O Governo recuou e incluiu o Porto na comissão nacional de candidatura de Portugal à Agência Europeia do Medicamento (EMA). O que levou a esta mudança de posição? No sábado, o socialista Manuel Pizarro convocou, ainda antes do anúncio da decisão, os jornalistas para uma conferência de imprensa que começaria dez minutos depois de a Lusa ter avançado com a notícia, o que sugere conhecimento prévio da decisão - e mereceu críticas de Paulo Rangel, que no Jornal de Notícias acusou Pizarro de aproveitamento político mesquinho. O Expresso entrevistou no próprio sábado quer o vereador da câmara do Porto, quer o seu presidente, Rui Moreira, sobre o processo. Nenhum dos dois quis chamar a si, de forma clara, os louros do recuo do Governo. “É uma vitória do Porto” ou “de Portugal”, dizem. Mas as respostas de ambos revelam como depois da cisão entre os dois na candidatura às eleições autárquicas não veio a união na candidatura do Porto à EMA

O vereador da câmara do Porto Manuel Pizarro diz que esta é “uma vitória de todos”, mas reforça que foi a partir do momento em que o PS/Porto apresentou a sua proposta à câmara “que as coisas começam a mudar”.

Porque houve agora uma mudança de posição por parte do Governo?
Acreditei sempre que isso aconteceria: se fôssemos capazes de explicar de forma racional e fundamentada os nossos argumentos, um Governo que tem como uma das prioridades a descentralização não poderia deixar de atender à qualidade desses argumentos. Por isso é que eu, em vez de me queixar ou protestar, achei que era mais proveitoso apresentar uma proposta concreta. Proposta que, aliás, levei ao presidente da câmara [do Porto] e que acabou, depois de amplo debate, por merecer adesão unânime na câmara: a ideia de que o Porto devia ser capaz de apresentar uma proposta que evidenciasse porque é que a candidatura da cidade era melhor para o interesse nacional.

Essa proposta sublinhava que aspetos fundamentais?
Sublinhava que, nas questões essenciais, o Porto era capaz de responder ao caderno de encargos publicado pelas instituições europeias: tem boas acessibilidades aeroportuárias, com ligação direta ao centro da cidade, uma infraestrutura hoteleira grande e de boa qualidade e uma cidade segura, confortável, onde é bom viver. Nesses aspetos, não tem vantagem em relação a Lisboa. Mas há dois aspetos em que temos vantagem: o facto de uma parte muito importante do cluster português na área da Saúde se localizar na área metropolitana do Porto; e de o Porto estar inserido numa região de convergência, onde o rendimento per capita é muito inferior à média da União Europeia (UE). E eu estou convicto que na decisão final isso terá peso, porque a UE também encarará o assunto da localização da agência como um instrumento de promoção da coesão territorial e social.

Então a viragem do Governo resultou da proposta do PS/Porto?
É nesse momento que as coisas começam a mudar. O problema começa a ser tratado com maior profundidade e nós demonstrámos ao longo desses dias que, afinal, as razões que foram apresentadas para Lisboa como sendo uma candidatura melhor talvez não fizessem assim tanto sentido. Fomos demonstrando isso com uma atitude pela positiva e muito participada. Porque esta proposta que eu e o PS levámos a câmara teve desde logo a adesão das unidades hospitalares da região (o IPO, o S. João, o Santo António, atualmente Centro Hospitalar do Porto), das instituições de ensino superior (Universidade do Porto, Católica, institutos politécnicos, Universidade Fernando Pessoa) e das grandes organizações da economia (AEP, Associação Comercial, Health Cluster Portugal e a entidade de Turismo do Porto e Norte de Portugal). Isto ajudou a tornar evidente que era possível apresentar a partir do Porto uma candidatura muito qualificada.

Essa viragem é uma vitória de quem?
Acho que é sobretudo uma vitória do país. O reflexo de nós termos um Governo que está atento aos argumentos. É uma demonstração de força quando o Governo reconhece que os pressupostos de uma decisão não estavam corretos e é capaz de inverter essa decisão e de olhar para os argumentos dos outros. Fico cheio de orgulho por ser apoiante de um partido cujo Governo é capaz de reconhecer quando há argumentos que justificam mudança de uma decisão.

Mas é uma vitória política de Manuel Pizarro ou de Rui Moreira?
É uma enorme vitória do Porto. Estou muito contente por estar associado a esta vitória, mas não a quero reivindicar para mim nem para o meu partido. É uma grande vitória do Porto e do meu país. Temos muito trabalho pela frente, para construir uma candidatura com a qualidade que ambicionamos, mas de certeza que faremos jus a esse trabalho.

Está a dizer que todas as partes tiveram o seu papel?
Não vou reivindicar para mim esta vitória. Tenho bem consciência do trabalho que realizei para que isto fosse possível e de como fui persistente – porventura até teimoso – no argumento de que valia a pena propor e lutar. Agora que alcançámos este resultado, esta vitória é evidentemente de todos.

A divergência entre Rui Moreira e o PS/Porto na questão das autárquicas está ultrapassada? Este é agora um momento de união ou de desunião?
A vitória do Porto é evidentemente um momento de união. Todo este processo mostra bem como a nossa participação na vida autárquica do Porto é tão importante para a sociedade.

Em que medida?
A verdade é que a iniciativa de apresentar uma proposta e de reivindicar a reabertura do processo é uma iniciativa que é feita a partir da nossa intervenção. Essa é uma realidade objetiva. Agora, repito: esta é uma vitória do conjunto da sociedade e é um motivo para nos unirmos.

Ao longo deste processo, falou com o primeiro-ministro, António Costa?
Fui fazendo chegar os argumentos, por vários canais. Não vou, naturalmente, tratar das conversas que fui tendo com uns ou com outros. Procurei fazer com que os meus argumentos chegassem aos decisores. Mas também acho que nessa matéria a comunicação social teve um grande papel, porque deu um enorme contributo para que esses argumentos se tornassem conhecidos.

Que tipo de contactos foram estabelecidos com o Governo?
Nessa matéria apenas quero evidenciar a componente pública: a proposta que levámos à Câmara Municipal do Porto, o debate que se generalizou na câmara, na cidade e no país, o facto de ter sido aprovada por unanimidade e o facto de termos tido oportunidade, junto dos mais diversos meios, de expôr os argumentos que de acordo com o interesse nacional favoreciam a candidatura do Porto.

Mas o Porto ainda vai a tempo de ter uma candidatura forte? Este processo não a prejudicou?
É muito exigente preparar a candidatura num período tão curto, mas eu já tinha estabelecido muitos contactos. E hoje retomei esses contactos e já há muitas pessoas a trabalharem ativamente para a prepararem a candidatura do Porto com a qualidade que é indispensável para que ela se apresente no país e, sobretudo, na Europa como uma candidatura potencialmente vencedora.

Como é que este processo de candidatura se vai desenrolar a partir de agora?
Essa é uma matéria sobre a qual não estou em condições de me pronunciar. A minha parte do trabalho é fazer com que no Porto se criem as condições para que nós apresentemos uma grande candidatura. Também nesse processo trataremos das questões de comunicação dessa candidatura no plano nacional e internacional, mas é ainda muito cedo para estabelecer os detalhes dessa intervenção.

E já se sabe quem vai liderar a candidatura do Porto?
Tudo isso será agora tratado nos próximos dias, com o mesmo espírito de convergência e de união com que o assunto foi tratado até agora.

Mas vai continuar a estar envolvido?
Estarei agora, como estive sempre, envolvido em todas as causas determinantes para o Porto.

E há hipótese de liderar a candidatura?
Estarei envolvido, seja qual for o meu papel.

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