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Há 12 anos que as Forças Armadas não registavam baixas debaixo de fogo

Forças especiais malianas, militares franceses e soldados ao serviço da ONU lançaram o assalto ao Hotel Le Campement Kangaba este domingo, pelas 19 horas

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O sargento-ajudante do Exército português que, aos 42 anos, perdeu a vida este domingo durante um “ataque terrorista” já tinha estado ao serviço da ONU em Timor-Leste. Em 2011 foi distinguido com uma Medalha de Prata de Comportamento Exemplar. Deixa mulher e duas filhas menores

Carlos Abreu

Jornalista

Desde 2005 que Portugal não registava baixas entre os militares em “situação operacional” além-fronteiras, apurou o Expresso junto do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA). Este domingo, 12 anos depois de o primeiro-sargento comando João Paulo Roma Pereira ter perdido a vida no Afeganistão durante uma operação militar, o Exército volta a perder um dos seus: o sargento-ajudante Paiva Benido, de 42 anos. Casado, pai de duas filhas menores.

Natural de Valongo, o militar especialista em transmissões (comunicações) integrava desde 16 de maio o contingente nacional na Missão de Treino da União Europeia no Mali (EUTM). Aí deveria ficar até novembro, cumprindo um destacamento por seis meses.

Era um dos dez militares portugueses (seis do Exército, três da Força Aérea e um da Marinha) que apoiam o treino e formação das Forças Armadas do Mali. Local habitual de trabalho: campo de treino em Koulikoro, a cerca de 60 quilómteros a nordeste de Bamako, onde está sediada a Força-Tarefa de Educação e Treino (ETTF).

Mas este fim de semana, Paiva Benido, tal como outros militares ao serviço da União Europeia (incluindo mais um militar português que ficou ferido mas já está “completamente recuperado”), tinham decidido abrigar-se do intenso calor húmido que sempre assola aquela região africana no Hotel Le Campement Kangaba, um eco resort localizado nos arredores de Bamako.

No comunicado divulgado esta segunda-feira de manhã, o Estado-Maior-General das Forças Armadas, responsável pelas Forças Nacionais Destacadas, esclarece que o “ataque terrorista” deste domingo ocorreu num local “reconhecido e autorizado pela EUTM Mali como Wellfare Center entre os períodos de atividade operacional dos militares que prestam serviço neste país”.

O Hotel Le Campement Kangaba é “reconhecido e autorizado pela EUTM Mali como Wellfare Center entre os períodos de atividade operacional dos militares que prestam serviço neste país

O Hotel Le Campement Kangaba é “reconhecido e autorizado pela EUTM Mali como Wellfare Center entre os períodos de atividade operacional dos militares que prestam serviço neste país

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Não era a primeira experiência internacional do sargento-ajudante Paiva Benido, de serviço no Comando de Pessoal no Porto, antes de rumar a Bamako, há cerca de um mês. Em reconhecimento da sua participação na Missão das Nações Unidas de Apoio a Timor-Leste (maio de 2002 a maio de 2005) foi distinguido em 2012 com uma medalha UNMISET. Um ano antes, o então primeiro-sargento era condecorado com a Medalha de Prata de Comportamento Exemplar.

EMGFA manda investigar

Para “esclarecer as circunstâncias que envolveram o ataque terrorista em Bamako”, o EMGFA já mandou instaurar um inquérito. Tudo aconteceu uma semana depois do Departamento de Estado norte-americano, através da embaixada no Mali, ter alertado aos seus cidadãos para o aumento do “risco de ataques contra missões diplomáticas ocidentais, locais de culto e outros frequentados por ocidentais em Bamako”. No apelo divulgado a 9 de junho, as autoridades norte-americanas até davam exemplos: “hotéis, restaurantes e igrejas.”

Já nem seria novidade, depois de a 21 de março de 2016 o Azalai Hotel, quartel-general da missão da União Europeia na capital do Mali, ter sido atacado por um grupo armado e o Radisson Blu hotel, em novembro de 2015, ter sido tomado de assalto por militantes islamitas que fizeram 170 reféns, 20 dos quais (seis malianos e 14 estrangeiros) acabariam por morrer.

Este domingo, um grupo armado voltou a invadir uma unidade hoteleira, onde os alojamentos, do tipo bungalow, estão dispostos numa área vasta. Em declarações ao corresponde da Associated Press no Mali, o general Salif Traoré, ministro da Segurança, diz que se tratou de “um ataque jiadista” e que as forças de segurança retiraram do local 36 funcionários e clientes.

“Todos os terroristas foram mortos. A situação está sob controlo”, acrescentou esta segunda-feira o general Traoré. Para além do militar português, foi confirmada a morte uma cidadã franco-gabonesa, que ainda não foi identificada.

Contam os media locais, citando testemunhas, que os atacantes começaram a disparar de forma indiscriminada aos gritos de “Deus é Grande!” (Allah akbar) e que teriam feito reféns. Mas mais de 30 pessoas conseguiram fugir.

Durante o assalto ao hotel terão sido abatidos quatro atacantes. Mais cinco suspeitos foram capturados esta segunda-feira, informa o ministro da Segurança do Mali

Durante o assalto ao hotel terão sido abatidos quatro atacantes. Mais cinco suspeitos foram capturados esta segunda-feira, informa o ministro da Segurança do Mali

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A resposta chegou através das forças especiais do Exército do Mali, apoiados por soldados franceses da “Operação Barkhane”, de combate ao terrorismo na região do Sahel, e por operacionais da Minusma, a missão das Nações Unidas, na qual Portugal também tem participado regularmente com uma aeronave C-130 e cerca de 60 militares da Força Aérea e do Exército (paraquedistas).

Pelas 19 horas locais (mais uma em Lisboa), estes militares lançam o assalto, que haveria de ser dado por concluído já durante a noite. Diversas testemunhas dizem que se escutaram disparos durante horas.

Marcelo e Azeredo consternados

O Presidente da República, por inerência comandante supremo das Forças Amadas, e o ministro da Defesa, já apresentaram à família do militar do Exército as “mais sentidas condolências”.

“Foi com consternação que o Ministro da Defesa Nacional recebeu esta manhã a notícia e visitou, juntamente com o Chefe do Estado-Maior do Exército, General Rovisco Duarte, a família do militar falecido para prestar os seus mais profundos sentimentos e solidariedade nesta hora de dor e sofrimento”, informa em comunicado, o ministério de Azeredo Lopes.

“A morte prematura e trágica deste Português, ao serviço da União Europeia, é um ataque aos valores democráticos em que todos acreditamos. Estou por isso seguro de que a melhor homenagem que saberemos prestar será continuar firmes e determinados em combater o avanço do terrorismo, defendendo, valorizando e promovendo os valores democráticos da liberdade e do Estado de Direito em que se funda Portugal e a União Europeia”, escreve Marcelo Rebelo de Sousa numa breve mensagem publicado no site da Presidência.

Os restos mortais do sargento-ajudante Paiva Benido regressarão a Portugal a bordo de uma aeronave da Força Aérea.