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Seis dias, sete ilhas: os avisos de Marcelo para lá dos Açores

José Carlos Carvalho

Marcelo focou-se nos Açores e tentou deixar de fora dos comentários à atualidade política do país durante a sua visita à região. Mas o impacto do crescimento do turismo e os níveis de otimismo de António Costa e Vasco Cordeiro estenderam a conversa ao continente. Pelo meio, deixou uma nota a quem quis ouvir: “Quem faz política achando que os seres humanos são cobaias, a meu ver, não está a ver toda a realidade”

Raquel Albuquerque

Raquel Albuquerque

(texto)

Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

(fotos)

Fotojornalista

Foram seis dias acelerados, preenchidos de manhã à noite, com centenas de conversas, de perguntas e de respostas, todas tão diferentes quanto as sete ilhas que o Presidente da República visitou. Mesmo assim, houve um denominador comum a todos estes dias: Marcelo Rebelo de Sousa tentou evitar quase todos os assuntos políticos extra-Açores.

Um dos pontos de que falou, que ultrapassa a região autónoma, foi o impacto do turismo. Marcelo aconselhou que o “crescimento económico, nomeadamente o que se baseia no turismo, que é uma realidade indesmentível e pujante, acautele os equilíbrios sociais, ambientais e culturais”, segundo disse no discurso no Parlamento regional, na sessão solene do Dia da Região, comemorado na Horta, ilha do Faial. Em causa está a necessidade de “preservar” a região “para as gerações futuras”.

Foi também sobre o otimismo do primeiro-ministro António Costa – quando confrontado com ambiente cordial em que esteve sempre com o socialista Vasco Cordeiro, “a pessoa mais bem disposta do mundo” – que a conversa chegou ao continente. Consegue Vasco Cordeiro ser mais otimista do que António Costa? Não, na opinião de Marcelo. “São diferentes. O otimismo do senhor primeiro-ministro passa muito pela sua personalidade. Aqui, é outro contexto diferente. O presidente do Governo regional também me parece otimista, mas para tomar uma palavra do próprio senhor primeiro ministro, batê-lo em otimismo é muito difícil. Ele diz que é a mim que é difícil bater, mas acho que é a ele que é difícil.”

Quanto às gargalhadas que conseguiu Vasco Cordeiro dar ao longo destes dias – num ambiente totalmente oposto ao que marcou a última visita de Cavaco Silva como chefe de Estado, dada a tensão então vivida com o chefe do Governo regional Carlos César – Marcelo voltou a explicar a importância de um bom relacionamento político. “O relacionamento em política é um relacionamento entre duas pessoas. Se as pessoas se dão bem, é meio caminho andado. Se as pessoas se dão mal é o contrário.”

E como há sempre imprevistos, acabou por ter que comentar o caso das secretas, em que aconselhou o Governo (e os socialistas mais críticos) a esperar pela audição do indigitado secretário-geral do SIRP, Pereira Gomes.

Marcelo comparou o otimismo do primeiro-ministro com o do presidente do Governo regional dos Açores

Marcelo comparou o otimismo do primeiro-ministro com o do presidente do Governo regional dos Açores

José Carlos Carvalho

Aquilo de que não falou

Marcelo recusou falar sobre a reforma da autonomia da região – ele que foi deputado constituinte e que, por isso, foi também fundador deste sistema. Não quis fazer comentários sobre a greve dos juízes, sobre a nomeação do secretário-geral das secretas disse apenas que “acompanha” o assunto e também não comentou a eventual extinção do cargo de Representante da República para os Açores – que o presidente do Governo regional, Vasco Cordeiro, defendeu abertamente no Parlamento regional, considerando que o fim do cargo seria de uma “emancipação de tutelas desnecessárias”.

Para explicar por que razão não comenta alguns destes assuntos, usou como argumento o facto de achar que não é competência do Presidente da República fazê-lo. Ao Presidente cabe “fazer cumprir a Constituição”, um “compromisso” que assumiu quando tomou posse, e cabe ainda a obrigação de “respeitar diferenças”. Isso coincide com a sua forma de atuar – transversal a todos os partidos, "sem olhar a cores partidárias", razão pela qual suspendeu a sua militância no PSD. “Para ser Presidente de todos os portugueses, não se pode olhar para uns de maneira diferente.”

Destes seis dias de “proximidade” e “afetos” com os açorianos, sem querer comentar muitos dos temas de atualidade (com a exceção dos atentados terroristas em Londres, que condenou), questiona-se qual o objetivo. “Hoje é impossível fazer política na base apenas da cabeça. Sei que há políticos que entendem que é assim. E eu deveria ser assim talvez. Professor de Direito, teoricamente intelectual, deveria ser racional. Mas quem faz política na base apenas do pensamento, achando que os seres humanos são cobaias, a meu ver, não está a ver toda a realidade da política.” Uma frase que pode ser entendida como recado a Pedro Passos Coelho.

“Às vezes, há também o risco de se cair na emoção pura e simples, é verdade”, afirmou em declarações aos jornalistas, defendendo um “equilíbrio” entre as duas coisas. “A vinda do Presidente aos Açores passava muito por este universo dos afetos e pela criação de empatias”, explicou, acrescentando que na verdade não conhecia bem os titulares do Governo açoriano. “Portanto, o simples facto de passar a conhecer bem é um passo útil no relacionamento.”

Em todos as sete ilhas e 12 concelhos, ligados por 17 voos e uma inesperada travessia de barco entre o Pico e o Faial, Marcelo foi bem recebido pela população, que se juntou nas ruas para lhe falar. “Os açorianos foram excecionais no acolhimento, no afeto, na abordagem direta, na franqueza, assim como foram as autoridades regionais, como o Governo regional e a Assembleia Legislativa”, concluiu o Presidente, num balanço final da viagem.

“Daqui parto naturalmente atento aquilo que a República está a fazer e pode fazer ainda mais. O que está a fazer, como estudar o papel das Forças Armadas que são um contributo muito importante para facetas da vida económica, social e comunitária dos açorianos”, declarou, destacando sectores como o das forças de segurança, o sistema judicial e prisional como os domínios onde “é possível fazer ainda mais”. “Quanto ao que ouvi relativamente aos Açores, deixa-me com uma expectativa acrescida, para não dizer uma certa reforçada, quanto ao desenvolvimento económico, rural e cívico desta região.”