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Quem disse que os dinossauros estão extintos?

A notícia da sua ‘morte’ foi ligeiramente exagerada. As autárquicas de 1 de outubro marcam o regresso de vários ‘dinossauros’ do poder local. Será que é isso que o povo quer?

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

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Jornalista da secção Política

João Carlos Santos

João Carlos Santos

ilustração

Fotojornalista

ilustração joão carlos santos

São quase três dezenas de nomes que a limitação de mandatos impedia que se pudessem ter candidatado há quatro anos mas que, agora, estão de volta. Nem todos pelo partido de sempre, nem todos pelo mesmo concelho. Acreditam ter valor por si próprios, pelo trabalho feito ao longo de décadas.

Uma aparente mais-valia (nem sempre a reeleição está garantida), com dois bicos para os partidos: tanto pode aproveitar-lhes (um “valor seguro” pode significar uma vitória e uma vitória conta muito numa eleição cujo resultado final é o somatório de 308 atos eleitorais), como virar-se contra eles (se esse “valor seguro” concorrer agora como independente, ou seja, contra o partido que já foi o seu).

Valentim Loureiro

Foi o último a anunciar que volta a jogo, quando já nada o fazia prever. Estava afastado da política desde 2013, quando cumpriu o seu quinto mandato, o segundo como independente (depois de o PSD ter recusado apoiá-lo em 2005 devido ao seu envolvimento no caso Apito Dourado).Volta a candidatar-se à autarquia de sempre, Gondomar, depois de, confessa, ter hesitado muito, mas achando que pode ser útil à cidade.

Isaltino Morais

Anunciou há dois meses que ia recandidatar-se à presidência da Câmara de Oeiras, lugar que ocupou durante 24 anos. Nas últimas autárquicas ainda estava a meio da pena de dois anos de prisão a que fora condenado por fraude fiscal e branqueamento de capitais. O envolvimento nesse processo custou-lhe o apoio do PSD (pelo qual sempre tinha sido eleito) mas candidatou-se como independente em 2005 e ganhou. Objetivo que volta a ter agora, três anos depois de ter saído da cadeia.

Joaquim Raposo

Foi presidente da Câmara da Amadora entre 1997 e 2013, mantendo-se como presidente da assembleia municipal. Sempre pelo PS, volta a tentar o poder executivo, mas, desta vez, pelo concelho vizinho de Oeiras, onde vai enfrentar Isaltino.

Narciso Miranda

Depois de ter estado à frente do município de Matosinhos ininterruptamente entre 1977 e 2005, desentendeu-se com o PS e acabou expulso do partido em 2007. Dois anos depois voltou a candidatar-se, como independente, mas perdeu para o socialista Guilherme Pinto (que lhe sucedera em 2005), falecido no início deste ano. Há quatro anos não foi a votos (apoiou o candidato oficial do PS, António Parada), mas agora não resistiu a voltar a tentar, mais uma vez como independente.

Avelino Ferreira Torres

O controverso presidente da Câmara de Marco de Canaveses volta à liça mas, desta vez, pelo concelho vizinho de Amarante, de onde é natural. Presidiu ao Marco, pelo CDS, entre 1982 e 2001, voltou a candidatar-se como independente em 2009 e 2013, mas sem sucesso. No entretanto foi acusado e condenado por peculato (sentença de que recorreu e acabou por prescrever).

Carlos Pinto

Foi presidente da Covilhã entre 1989 e 1993 e entre 1997 e 2013, sempre eleito pelo PSD. Mas tem sido um crítico da liderança de Passos Coelho e avança agora como independente.

Lista em desenvolvimento

O histórico social-democrata Fernando Costa, que presidiu às Caldas da Rainha durante 27 anos, tenta agora a sua sorte em Leiria depois de ter concorrido (e perdido) a Loures há quatro anos. Em Salvaterra de Magos, um regresso, após o interregno obrigatório por lei: Ana Cristina Ribeiro, que foi durante anos a única presidente de Câmara eleita pelo BE. Em Coimbra, Jaime Ramos (que foi durante 16 anos presidente de Miranda do Corvo) apresenta-se às urnas como independente. No Alentejo, em Moura, o histórico do PCP José Pós de Mina volta a apresentar-se a votos, depois de, em 2013, ter sido forçado a afastar-se por ter atingido o limite legal de três mandatos consecutivos. Em Vendas Nova, João Teresa Ribeiro (que presidiu à autarquia entre 1980 e 2002) também volta para tentar reconquistar para o PCP a câmara perdida para o PS em 2013. Mas há mais: um pouco por todo o país, são quase 30 (neste momento) os ‘dinossauros’ de volta. Quem previu a sua extinção estava, pois, redondamente enganado.