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Transportes públicos gratuitos em Lisboa? Centro sem carros? Banhos no Tejo? As respostas de Medina

antónio pedro ferreira

Esta sexta-feira será anunciada a próxima “capital verde da Europa”. Na corrida está Lisboa, ao lado de Oslo, Tallin, Gante e Lati. A capital portuguesa é a única cidade do sul entre as finalistas. Em entrevista ao Expresso, o presidente da Câmara, Fernando Medina, diz que independentemente de ganhar ou não, as questões da sustentabilidade ambiental, social e económica estão na agenda das políticas para Lisboa e admite que “a grande fragilidade” é o funcionamento dos transportes públicos

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Em vésperas de saber qual das cinco finalistas poderá erguer em 2019 o galardão de Capital Verde da Europa, o presidente da Câmara de Lisboa garante que a autarquia vai "continuar a prosseguir a mesma agenda estrutural para a gestão da cidade de Lisboa", independentemente de Lisboa ser ou não premiada. Fernando Medina falou com o Expresso em Essen (Alemanha), após ter apresentado - perante um painel de júris da Comissão Europeia - as razões pelas quais Lisboa deve ser a escolhida. "Começámos tarde, mas somos rápidos a aplicar medidas", garantiu o autarca, argumentando como numa cidade estruturalmente consolidada aumentaram os espaços verdes, se criaram praças em diferentes bairros, se multiplicaram ciclovias ou se acabou com a drenagem de esgotos de 100 mil casas diretamente para o rio. Ao Expresso e à SIC garantiu que "candidatura tem o mérito de detetar áreas de fraqueza e de força", que "permite estruturar melhor as políticas" e "mobilizar os cidadãos" para decisões que podem parecer inicialmente pouco populares.


Em vésperas de saber o resultado deste concurso, qual a sua expectativa?
Dependerá do júri. O nosso caso foi apresentado com muita honestidade e transparência. Estamos longe de ser os campeões da Europa em domínios ambientais, mas fizemos um grande trabalho na área das águas, feito pela EPAL, e no domínio do saneamento houve uma importante parceria entre o município e a administração central. Estamos a dar saltos importantes ao nível dos resíduos, mas temos consciência que em várias áreas não somos os campeões da Europa. O que viemos cá dizer é que já conseguimos muito, partimos muito depois dos outros e queremos fazer mais. Este galardão dar-nos-á mais força. Se ganharmos, ótimo.

E se não atribuírem o prémio a Lisboa?
Continuaremos com a mesma determinação a prosseguir a mesma agenda, porque esta é uma agenda estrutural para a gestão da cidade de Lisboa. Se não ganharmos, o facto de aqui chegarmos já é um reconhecimento.

Lisboa concorreu em 2015 e não foi eleita. O que é que agora trouxeram que possa levar o júri a dar esta distinção?
Mostrámos sobretudo o progresso que a cidade tem conhecido para ser uma cidade mais verde. Este progresso joga-se no domínio da água, do saneamento, do tratamento de resíduos e no domínio da redução de emissões de CO2, ou seja, em todos os domínios que fazem a cidade mais sustentável ambiental, económica e socialmente. Lisboa começou tarde em relação a cidades do norte da Europa, é verdade. Quem se lembra de Lisboa há 15 ou 20 anos quando discutíamos se podíamos tirar os carros do Terreiro do Paço? Lisboa deu um salto gigante. Mais 250 hectares de corredores verdes construídos, retirando espaço ao que seriam urbanizações ou outros usos e mais 150 hectares vão ainda ser construídos. Com uma praça em cada bairro, estamos a humanizar a cidade, a torná-la mais amiga dos peões, dos ciclistas, com mais comércio local. Nós começámos tarde, mas estamos a dar saltos de gigante para uma cidade mais sustentável e foi essa a nossa argumentação.

Se Lisboa não ganhar, voltará a candidatar-se a este prémio uma terceira vez?
Sim, sem dúvida. A candidatura tem o mérito de também detetar as nossas áreas de fraqueza e de força e, no fundo, permite estruturarmos melhor as nossas políticas. Se ganharmos, excelente. Teremos aqui uma ferramenta que nos ajudará mais rápido a concretizar esta política.

Como é que ganha mais força?
É um sentido de futuro. Um instrumento para mobilizarmos ainda mais a cidade para esta batalha e para a agenda política absolutamente essencial nos nossos dias. A agenda da sustentabilidade está a ser seguida por todas as grandes cidades europeias. As alterações climáticas não são um facto do futuro, são uma realidade do presente. A sustentabilidade ambiental, financeira, económica e social é um imperativo em todo o lado, da Europa à China e aos EUA. Termos chegado à final é um reconhecimento de um trabalho muito grande e daquilo que progredimos. Sermos capital verde serve sobretudo para termos mais aliados para ganharmos mais força para esta agenda de futuro.

Essa força não pode ser posta em causa pelos munícipes de Lisboa, nomeadamente pelas fraquezas que a cidade tem a nível da qualidade do ar, do congestionamento automóvel ou da reciclagem dos resíduos?
Nunca resolveremos em absoluto todos os problemas. O que interessa é a direção e o caminho que estamos a seguir. Identificámos algumas dessas fragilidades. Temos um défice grande no transporte publico. O transporte público não é hoje a espinha dorsal na qual a cidade possa confiar. Esta é talvez a grande fragilidade que enfrentamos e condiciona a vida das pessoas, com os congestionamentos de trânsito e também o ambiente e a economia da cidade e do país com a importação de combustíveis. Essas áreas necessitam de trabalho e este prémio ou concurso permite-nos sinalizar isso mesmo e mobilizar os cidadãos para essas respostas.

Leva daqui alguns exemplos a seguir, como o de Tallin, que tem transportes públicos gratuitos e rentáveis. Isso será possível algum dia em Lisboa?
A acessibilidade através dos transportes públicos é absolutamente chave. O equilíbrio de ter preços mais baixos e mais passageiros é possível, haja também financiamento. Desde que tomámos posse da Carris, baixámos os passes daqueles que têm mais de 65 anos de 27 euros para 14,5 euros. Em 3 meses apenas contámos mais 300 mil viagens de pessoas com mais de 65 anos e mais de 60 mil de crianças e jovens que passaram a ter um passe gratuito. Promover a acessibilidade ajudará a equilibrar financeiramente as contas. Mas não haverá serviço público de transportes em nenhuma cidade, seja Tallin ou outra qualquer, que funcione bem sem ter um financiamento público assegurado. A nossa responsabilidade é assegurar isso. Ter uma mobilidade assente no transporte público é um benefício não só por quem usa, mas também por toda a comunidade. Com menos poluição, menos congestionamentos, menos tempo perdido e uma vida mais saudável para todos.

Alguma vez poderá Lisboa propor, como propõe Oslo, banir os carros do centro da cidade?
Não podemos promover soluções mais radicais se não tivermos um transporte público eficaz ou parques dissuasores. Tem de ser uma evolução gradual que não causa distúrbios no sistema social. Gostaria muito de ter transportes públicos mais acessíveis para todos. Estamos a trabalhar para isso. Mas tenho consciência das décadas de atraso com que Lisboa começou este projeto.

Com o encarecimento do estacionamento pago e os futuros parques para automóveis nas entradas da cidade, quantos carros pensam impedir de entrar em Lisboa? E quantos conseguiram reduzir nos últimos tempos?
Nos últimos tempos aumentaram, esse é um problema estrutural da área metropolitana. Durante décadas, uma parte da população trabalhadora da cidade foi viver para os concelhos limítrofes. Quando a cidade melhora e há maior emprego, a mobilidade piora. Essa é uma das contradições de fundo que temos tido. Nos anos da recessão houve menos problemas de congestionamento de trânsito. Só entre 2014 e 2016 entraram por dia em Lisboa mais 15 mil novos carros todos os dias. Se os alinhássemos todos numa fila compacta, seria uma fila de 15 quilómetros.

Mas tem alguma meta para a redução de carros na cidade?
Não apontamos metas, não estamos em condições de apontá-las, mas temos muito claro o que temos de estabelecer em termos de agenda com o Governo para ter uma mobilidade diferente.

Como se pode ajudar as pessoas que vivem fora de Lisboa de forma a criar uma rede de transportes públicos que funcione e permita às pessoas deixar o carro em casa?
Com duas medidas. Tem de haver um acordo com a administração central para haver investimento no transporte pesado de passageiros. Por exemplo, a linha de Cascais, que é das linhas que mais pessoas faz entrar na cidade de Lisboa, é uma linha que tem perdido qualidade e passageiros e urge recuperar. Como urge pensar a introdução de transporte público na A5, onde não há uma via dedicada. Em segundo, a coordenação dos vários municípios da área metropolitana em torno do transporte rodoviário.

Durante a apresentação perante o júri falou várias vezes no nome do atual primeiro-ministro, António Costa. Porquê?
Por uma razão de justiça e da história que contei. A cidade de Lisboa fez uma mudança de paradigma a partir de 2007. Toda a agenda governativa desde então foi muito orientada pela gestão financeira, ambiental e social da cidade. Muitos dos projetos que pude apresentar têm aí origem. 2007 marca um virar de pagina com a assunção da sustentabilidade como um eixo central da política da cidade de Lisboa.

Acha que algum dia vamos conseguir dar um mergulho no Tejo, junto ao Terreiro do Paço?
As questões de natureza ambiental estão resolvidas, mas há questões de segurança que desaconselham que avancemos com uma solução dessa natureza. Estamos a trabalhar mais no projeto de tornar o rio um canal de recreio e de navegação turística e não para ser um local de banhos.