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Miguel Urbano Rodrigues: Carta da filha ao pai

A carta de despedida de Maria da Paz Trefaut, filha do jornalista, escritor e político

Meu pai sempre disse que éramos muito parecidos. Especialmente nos defeitos. Agora que ele se foi, gosto de pensar que partilhávamos algumas qualidades. Durante toda a vida discordamos na política. Ele era um comunista renitente. Quando fez 80 anos eu o procurei e jurei: nunca mais vou brigar com você por causa de Cuba, da ex-URSS, das posições do Partido Comunista, nem de nada parecido.

Nos anos 90, quando se afastou da direcção dos principais jornais comunistas de Portugal (“Avante” e “O Diário”), e foi finalmente exercer seu mandato de deputado, do qual havia aberto mão várias vezes, passou a representar os comunistas portugueses junto ao Conselho da Europa. Numa de suas viagens para Estrasburgo, na Alsácia-Lorena, convidou-me para acompanhá-lo. Passei uma semana com ele, convivendo com o grupo de esquerda do Conselho da Europa, onde havia de gregos a finlandeses. Foi sua fase mais conciliadora. Era admirado até pelos sociais democratas franceses por conta de sua cultura.

Lembro de uma noite, em que estávamos só os dois, numa “brasserie” tomando cerveja com “saucisses e frites”, coisa que adorava, quando lhe falei dos crimes da KGB. “Mas minha filha, a KGB é uma invenção de Hollywood”, respondeu. Dizia Ollywood, sem “agá”, para reafirmar seu profundo desprezo pelos “yankees”.

Esse radicalismo nunca impediu que as pessoas o achassem um personagem fascinante. Apesar de polémico, era calmo. Não levantava a voz numa discussão. E quando se irritava, ria. Anticlerical ao extremo, não baptizou os filhos nem queria que aprendessem a rezar. Eu nunca tinha assistido uma missa até aos dez anos, quando implorei para acompanhar nossa empregada, a Genita, a uma missa do galo. Ele colocou todos os impedimentos possíveis, mas, afinal, consentiu. Na hora que saímos, segurou Genita pelo braço e disse: “Está bem, ela vai, mas está proibida de comungar!”.

Com o tempo, percebi que sua religião era o comunismo. Mas muito mais que isso. Aos 91 anos ele ainda era capaz de acreditar num sonho, ainda que fosse um sonho já tão desacreditado. Quando o visitava no Porto, onde passou a residir nos últimos anos, ficava impressionada com suas conexões e com a vida social que mantinha numa fase tão avançada da vida. De manhã caminhávamos cinco quilómetros pelo calçadão que margeia o Douro e íamos ao café onde ele ia todas as manhãs para ler o jornal, antes de sentar para escrever.

Aos poucos, o pai autoritário dava lugar a outro, mais carinhoso, mais tolerante, que já se conformava em ser um cavaleiro de causas perdidas. A política sempre foi o centro de sua vida. Quando eu era pequena, ele a tratava como uma opção pelo sacrifício, como um desprendimento por um mundo melhor. Já mais velho conseguiu construir pontes afectivas com os netos, que passavam pelo conhecimento da geografia, pelo prazer de ensiná-los a jogar bridge ou por algo que emanava dele absolutamente sedutor, apesar de todas as suas contradições.

Guardo a lembrança da última vez que nos vimos, em janeiro deste ano, em Paris. “Não te verei mais, mas não tem importância”, disse numa manhã que ainda era noite, com uma mão na bengala e outra apoiada em meu braço, na Avenue des Gobbelins, antes de entrar no táxi, com destino ao aeroporto de Orly.

“Será que depois de tantas despedidas esta é mesmo a última? – pensei, ao acompanhar o carro deslizar no asfalto até se perder no lusco fusco do amanhecer.

Com ele aprendi que a vida é uma paixão eterna e que o amor acaba. Mas renasce. Não se sabe de onde nem porque. E que pode ser novamente tão inesperado, tão vasto e tão intenso, como se fosse uma coisa de Deus. Mesmo que Deus não exista.