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Ana Avoila sobre a greve: “Se não há respostas, não vamos ficar parados. E há consequências”

josé Caria

No dia em que greve geral “superou as expectativas”, a coordenadora da Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, Ana Avoila, defende que este é um sinal bem representativo do “descontentamento dos trabalhadores”. “Esperamos mesmo que o Governo faça a leitura do que se passou esta sexta-feira”

Qual foi a adesão à greve geral desta sexta-feira?
A adesão geral é de 75%. Mas na educação e na saúde a adesão foi de 90% e, em alguns casos, um bocadinho superior a isso. A greve superou as expectativas nestes dois sectores. Por norma, são sectores que têm sempre adesões muito elevadas, mas desta vez foi algo nunca antes vista. Os hospitais de norte a sul do país estiveram com 100% de encerramento, apenas com serviços mínimos, tirando o Hospital de Santa Marta e os Capuchos, que tiveram 75% de adesão, ambos em Lisboa. Em Coimbra, por exemplo, estiveram todos fechados. Já na educação, houve distritos em que nenhuma escola esteve aberta: Évora, Beja, Santarém… Efetivamente, a adesão é muito significativa, o que mostra seriamente que os trabalhadores acreditam que os objetivos da greve eram justos e que preciso mudar. É para o Governo perceber que não pode continuar a fazer ouvidos moucos às reivindicações que os trabalhadores têm há muito tempo. Vamos ver como é feita a leitura do descontentamento dos trabalhadores.

Portanto, os sectores com maior adesão foram saúde e educação?
Sim. Mas houve muitos outros serviços encerrados a 100%. Falamos nestes porque são grandes agrupamentos de trabalho, são milhares de pessoas envolvidas. Mas houve outros serviços que aderiram: informações e serviços dentro da Segurança Social, o Instituto da Mobilidade e Transportes (IMTT), os serviços administrativos e de apoio às cadeias, na justiça, etc.. O saldo que se faz desta greve é muito positivo e corresponde àquilo que se vive nos locais de trabalho.

Quais são as reivindicações?
Entregámos a proposta reivindicativa do ano 2017 e tivemos resposta negativa. Defendemos o descongelamento do aumento salarial, que está assim desde 2009; o descongelamento das progressões das carreiras, congelado desde 2005; a admissão de pessoal; a reposição das 35 horas de trabalho para as cerca de 70 mil pessoas que ainda não têm. Estamos ainda contra a centralização da municipalização dos serviços que o Governo quer fazer, que além de colocar em causa os direitos dos trabalhadores, coloca em causa os direitos dos serviços públicos e das funções sociais de Estado. E depois há a questão da regulamentação do trabalho precário, que não começou da melhor maneira, porque está tudo ao contrário. Queremos que o Governo faça um processo, mas que seja feito de forma diferente, com mais eficácia no sentido de resolver a situação mais rapidamente.

O atual Governo, além de ser apoiado pelo PCP e BE, tem reposto direitos aos trabalhadores. Mesmo assim, decidiram avançar com a greve. Porquê?
Não rejeitamos essa ideia. Lembro que desde o Governo de Sócrates estamos a perder direitos. Portanto, este Governo repôs alguns direitos, mas está muito longe de ter reposto os direitos todos. Embora tenha reposto os cortes nos salários, que era obrigado a fazer, foi só para aqueles que tinham mais de €1500. Depois, a carga fiscal é tão alta que o valor dos impostos levou quase a totalidade da reposição – alguns trabalhadores até ficaram com menos. O Partido Socialista comprometeu-se com a reposição das 35 horas para todos, mas ainda há quem não as tenha. Estaríamos mal se os trabalhadores se conformassem com estes sinais e esta reposição de direitos mínimos que o PS, enquanto Governo minoritário, fez. Porque a verdade é que está quase tudo por fazer. A administração pública está outra vez à beira da continuação da política de austeridade em relação aos salários e às carreiras. O Governo entregou em Bruxelas o Programa de Estabilidade, que prevê aumentos salariais apenas em 2021, um aumento do custo de vida em 8% e que as carreiras não é para descongelar todas ao mesmo tempo. Isto está muito aquém das necessidades. Basicamente, o Governo tem de se sentar e fazer acontecer. Tiraram-nos direitos, têm de ser repostos, porque as conquistas que se fazem em sociedade não é para regredirem. Os indicadores mostram que o país está a crescer - portanto, neste momento não há nenhuma razão para dizerem que não podem devido às contas públicas. Isso está fora de questão.

Caso não haja abertura do Governo para responder às reivindicações, já estão a planear novas formas de lutas?
Esperamos mesmo que o Governo faça a leitura do que se passou hoje. O Partido Socialista tem o dever de perceber o que é que está em causa, que é muita coisa. Os trabalhadores tem esperança e, dentro dessa esperança, tem de haver respostas. Se não há respostas, naturalmente, não vamos ficar parados. E há consequências.

Que consequências são essas?
Os trabalhadores sabem quem é que os protege e não protege. O Partido Socialista começou, e bem, a repor direitos, mas agora têm de se conquistar mais. Ainda falta uma série deles para repor e os trabalhadores não vão ficar contentes. Por isso, é bom que o Partido Socialista e este Governo percebam o que está em causa.