Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Cuidado com o que desejas

António Costa está a conseguir o que desejava. E o que aconteceria se as ambições de Marcelo, Passos, Cristas, Catarina e Jerónimo se concretizassem nos próximos tempos?

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Helena Pereira

Helena Pereira

texto

Editora de Política

João Carlos Santos

João Carlos Santos

ilustração

Fotojornalista

ilustração joão carlos santos

A língua inglesa tem um ditado que diz “tem cuidado com o que desejas, pode realizar-se”. O primeiro-ministro não fez caso do alerta e tem visto concretizados todos os seus desejos (mais houvera?). E no resto do país político, o que seria ver os sonhos tornados realidade? Fizemos o exercício. Qualquer semelhança com a realidade é pura especulação.

MARCELO REBELO DE SOUSA
REELEIÇÃO COM APOIO DO PS

Imagem cedida pelo gabinete do Primeiro-ministro

Imagem cedida pelo gabinete do Primeiro-ministro

foto de Clara Azevedo

Seria o país todo aos seus pés. Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito com o apoio dos partidos de direita, tem exercido a sua magistratura de influência em sintonia com um primeiro-ministro de esquerda. O corolário seria a reeleição com o apoio do PS, o que até seria possível a avaliar pelo que alguns dirigentes do PS já vão admitindo. Marcelo seria assim o Soares II, repetindo o feito que só o fundador do PS conseguiu: uma recandidatura com o apoio do Bloco Central depois de conseguir ‘dobrar’ durante o primeiro mandato o principal partido rival da sua base de apoio.

O atual Presidente tem feito tabu da hipótese de recandidatura. Gosta de brincar com isso, como aconteceu na semana passada na Faculdade de Direito de Lisboa. Mas o país político conta já com essa recandidatura e os cálculos começam a ser feitos.

Pedro Passos Coelho
Ficar à frente do PS nas autárquicas (e, já agora, acertar uma previsão económica que seja)

marcos borga

Se é para sonhar, é para apontar ao impossível e o líder do PSD, que até é conhecido por ser um homem realista, fixou a fasquia no congresso que o (re)elegeu, há um ano: o seu partido ambiciona recuperar a presidência da Associação Nacional de Municípios, o que significa voltar a ultrapassar o PS em número de câmaras. A meta parece inalcançável, mesmo para os mais otimistas. Há quatro anos, os sociais-democratas ficaram 44 autarquias aquém dos socialistas - o pior resultado de sempre em autárquicas. Inverter a situação significaria manter exatamente as 106 autarquias que tem neste momento e conquistar ao PS pelo menos 23. Perante a crueza dos números, o líder social-democrata sabe que tem de se agarrar a um facto iniludível: o resultado de 2013 foi tão mau que ninguém acredita que o de 2017 não seja melhor. Mesmo que apenas “um bocadinho” melhor é quanto basta para o presidente social-democrata repor a energia que precisa para chegar nas condições anímicas que se lhe exigem ao congresso do início de 2018 e enfrentar eventuais adversários na disputa pela liderança partidária.

Entretanto, lá para os seus botões, de certeza que Passos pede que os números do desempenho económico não prossigam a escalada inversamente proporcional à das suas previsões. A verdade é que dava “algum jeito” à credibilização do seu discurso.

Assunção Cristas
Vitória em Lisboa

mario cruz/ lusda

Seria uma espécie de livre-trânsito para o seu futuro político, com o prémio inesperado de assumir uma função que ela não esconde que gostaria mesmo de vir a exercer um dia. Se o CDS conseguisse sozinho (bom, com o apoio (?) do PPM e do MPT) o que só conseguiu durante os mandatos de Kruz Abecassis (e em coligação com o PSD), a líder centrista calaria de vez os (ainda assim discretos) opositores internos e até se poderia dar ao luxo, se fosse essa realmente a sua vontade, de se concentrar em Lisboa, passando a pasta da liderança partidária (e da candidatura às legislativas de 2019) a um delfim ainda não identificado. Mas essa é a miríade. O sonho, que não deixa de ser sonho mas é, ainda assim, mais realizável, passa antes por obter tantos ou mais votos do que Teresa Leal Coelho, a sua adversária do PSD. Seria a prova provada de que a estratégia de Cristas – que tem passado por um claro namoro ao eleitorado de centro-direita que não se sente representado por um PSD mais à direita do que tradicionalmente os habituou – está correta, algo de que ainda não há absolutas certezas no partido.

Catarina Martins
Reestruturação da dívida

luis barra

Uma das ambições do BE seria, sem dúvida, conseguir que o Governo desencadeie na Europa um processo de reestruturação da dívida aproveitando o balanço do relatório da dívida apresentado em abril. O Governo guardou-o na gaveta, dizendo estar à espera que passem as eleições alemãs em setembro. Como dizia Francisco Louçã em recente entrevista ao Público/Renascença, o “Estado passou a ter a obrigação de propor a reestruturação da dívida”.

Para o partido de Catarina Martins, a única forma de o país conseguir ter um crescimento sustentável e as famílias verem reforçados os seus rendimentos será o Estado ver aliviada a fatura em pagamento de juros, podendo mesmo vir a beneficiar de um perdão de dívida. O relatório apresentado em abril não vai tão longe mas, como sublinhava o BE, já representou “uma viragem do cabo Bojador”. Falta a travessia no Índico.

Jerónimo de Sousa
Salário mínimo de 600 euros já

marcos borga

O Governo acordou com o BE um aumento do salário mínimo para 600 euros ao longo da legislatura. O aumento é feito de forma faseada e o PCP nunca concordou com este objetivo simplesmente porque acha pouco e quer que o ritmo de aumento seja mais rápido. “Para nós isto não é uma luta terminada”, tem avisado Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP.

Ora um dos grandes objetivos é que a meta de 600 euros seja alcançada já em janeiro, quando, pelo acordado entre BE e Governo, está previsto que o salário mínimo suba, no início do próximo ano, para 580 euros.

Este é um dos principais cavalos de batalha do PCP, a par com o aumento das pensões de reforma. Na discussão do Orçamento do Estado para 2017, os comunistas propuseram um aumento mínimo generalizado de 10 euros, mas o Governo só cedeu para as pensões entre 275 e 628 euros.

Heloísa Apolónia
Fecho de Almaraz

marcos borga

Os Verdes lutam há vários anos pelo fecho da central nuclear de Almaraz, junto à fronteira com Portugal. Heloísa Apolónia foi a primeira deputada a trazer o assunto à discussão nos debates quinzenais mal António Costa tomou posse como primeiro-ministro. Havia sinais de que as normas de segurança não estavam a ser cumpridas e Os Verdes quiseram saber o que estava o novo Governo a fazer. A primeira resposta de Costa foi a de que não tinha interlocutor em Espanha (o país estava em fase pós-eleitoral naquela altura e não havia Governo formado). Desde então, o Parlamento português até aprovou por unanimidade uma recomendação para que o Governo português pressione Madrid a encerrar a central nuclear, mas do lado do Executivo não houve qualquer compromisso ou abertura para aceitar tal repto. Pelo contrário, o ministro do Ambiente já deixou claro que não se opõe à manutenção desta central e que a construção de um novo armazém não precisa de autorização por parte do país vizinho.

Será que os próximos tempos trarão estas boas notícias aos vários protagonistas políticos?