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Moreira não comenta declarações de vereador socialista e diz não estar em campanha

Na primeira reunião do executivo camarário após o divórcio político entre Rui Moreira e o PS, o presidente da câmara evitou comentar a entrevista do vereador socialista Correia Fernandes

André Manuel Correia

Uma semana e meia após o divórcio político entre Rui Moreira e o PS, era grande a expectativa em relação à primeira reunião do executivo da câmara do Porto. Esta terça-feira, ainda antes da sessão ter início, o jogo das cadeiras políticas já era bem visível. Ao lado esquerdo do presidente do município surgia Cristina Pimentel, vereadora da Mobilidade, em vez do leal vereador Manuel Pizarro – braço direito de Moreira ao longo de três anos e meio de mandato e agora seu oponente na corrida às autárquicas de outubro.

Apesar de os socialistas e o movimento de Rui Moreira terem seguido rumos diferentes, o ambiente nesta primeira sessão do executivo indicia um fim de namoro político pacífico, pelo menos a fazer fé nas poucas ocasiões em que interveio o candidato do PS à Câmara do Porto: fê-lo para saudar iniciativas e propostas do executivo municipal.

Exemplo disso foi a proposta de alteração das regras relativas às taxas a cobrar pela transmissão da titularidade da licença para o Mercado do Bolhão, pensada, segundo Rui Moreira, para “garantir direitos históricos de transmissão” aos antigos comerciantes do emblemático espaço portuense, atualmente encerrado para obras de requalificação.

Manuel Pizarro secundou Moreira nesta proposta “muitíssimo importante”, ao permitir “condições materiais para que os comerciantes do Bolhão continuem no mercado (…) sem que se faça uma cobrança de taxas elevadas”. O representante socialista acrescentou ainda que a medida “dá seriedade à natureza genuína do projeto” para o histórico edifício. Este foi, assim, um dos raros momentos em que Pizarro tomou de palavra para intervir ao longo de reunião que se estendeu por três horas.

Os recentes abalos políticos sentidos na estrutura autárquica não se fizeram sentir apenas para Manuel Pizarro, que na passada semana renunciou ao pelouro da Habitação e Ação Social, mas também para o eleito socialista Correia Fernandes que, à semelhança do líder da distrital PS, deixou igualmente de ser o responsável pelo pelouro do Urbanismo. E foram precisamente declarações deste último interveniente a respeito da postura de Rui Moreira, a motivar o momento de maior desconforto durante a reunião.

A razão do incómodo foi uma entrevista à Visão de Correia Fernandes, na qual acusou Rui Moreira de ter uma atitude de “falta de cultura democrática”. O até há uma semana vereador do Urbanismo disse ainda que “o apelo ao debate público sobre o PDM [Plano Diretório Municipal] por parte da presidência foi zero” e acrescentou que, sobre esse tema de “importância decisiva” para a cidade, a contribuição “do presidente não foi a nenhuma”. No mesmo artigo, Correia Fernandes queixa-se de ter sido “deixado sozinho no terreno em diversas situações” e afirmou que “o pelouro do Urbanismo foi sendo secundarizado”.

Ricardo Almeida, eleito pelo PSD, recuperou as afirmações dessa entrevista e acredita que nela existem “considerações políticas de uma gravidade extrema”. “Gostaria de saber qual é o ponto de situação do PDM e aquilo que vai ser feito em termos de debate público?”, interrogou o vereador social-democrata.

Em resposta, Rui Moreira começou por dizer que não se iria pronunciar sobre a entrevista de Correia Fernandes. “Não me compete a mim pronunciar”, afirmou o edil. “Se me quer fazer perguntas sobre o PDM, eu direi apenas o seguinte: se houve uma matéria em que o presidente da câmara e todo o executivo confiaram no vereador do Urbanismo – não apenas pela qualificação, mas pela confiança que sempre mereceu – foi a de levar a cabo o processo de debate relativo ao PDM. E esse debate envolveu todos os pelouros”, garante o presidente da Câmara Municipal do Porto.

“Sobre o meu maior ou menor empenho pessoal [em alguns temas], são critérios de avaliação que eu reconheço todo o direito ao arquiteto Correia Fernandes de se pronunciar”, acrescentou Rui Moreira, que não viu com “nenhuma dificuldade” a entrevista e assegurou a Ricardo Almeida não estar disposto a “entrar na politiquice que, com certeza, lhe daria jeito”, rematando: “O PSD já está em campanha. Eu ainda não estou”.

Moreira explica que se não houve um maior envolvimento da sua parte a promover o debate do Plano Diretório Municipal que tem incluído também universidades e associações, foi porque considerou que Correia Fernandes o estava a fazer “muito bem e com todos os recursos” que foram solicitados. “Tenho a certeza que depositei no vereador Correia Fernandes toda a confiança, que a merece por todo o passado e conhecimento que tem sobre a cidade do Porto”, frisou o autarca.

Sobre a entrevista, Correia Fernandes optou por não a comentar, porque, entende, que a reunião do executivo municipal “não é sítio, não é próprio, nem é isso que está em questão”. Relativamente ao facto de não ter existido um maior envolvimento de Rui Moreira nas várias discussões públicas do PDM, o antigo vereador do Urbanismo acredita que, “certamente, razões de agenda não terão permitido que o presidente da câmara tenha participado em alguns debates”, mas acrescenta que “isso não implica um afastamento”.