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Desistências no curso de Comandos. A culpa é do fim de semana

O general Rovisco Duarte, ao centro na imagem, recebeu esta terça-feira à tarde os deputados da comissão de Defesa Nacional no Regimento de Comandos, na Serra da Carregueira, concelho de Sintra

António Cotrim

Chefe do Estado-Maior do Exército relacionou as elevadas taxas de desistência no curso 128 de Comandos com eventuais pressões familiares sobre os instruendos

Carlos Abreu

Jornalista

Os fins de semana estão a revelar-se fatais para o curso 128 de Comandos, do qual já desistiram 40 dos 57 instruendos que iniciaram há cerca de seis semanas esta exigente formação militar. A revelação partiu do próprio chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) no final de mais uma visita, esta terça-feira, da comissão parlamentar de Defesa Nacional à Serra da Carregueira.

“O curso é exigente. É rigoroso. São muito anos de cursos de Comandos com provas dadas em teatro [de operações] e isto significa que não baixamos o nível de exigência e, possivelmente, por pressão das famílias, normalmente às segundas-feiras, temos uma ou duas desistências”, disse aos jornalistas o general Rovisco Duarte sublinhando que se trata de uma “análise muito simplista” deste fenómeno recorrente nos cursos de Comandos.

“Não estou a afirmar que estas desistência resultam da pressão das famílias mas é um facto que às segundas-feiras há sempre uma ou duas desistências”, insistiu o chefe do Estado-Maior do Exército.

De acordo com os números avançados esta segunda-feira pelo Exército à agência Lusa, o curso 128 tem atualmente 17 instruendos, dos quais três oficiais, dois sargentos e 12 praças. Esta tarde, o general Rovisco Duarte reconheceu perante os jornalistas que as desistências no curso 128 são “ligeiramente superiores à média” mas que “já existiram cursos com taxas de desistências superiores”.

Apesar dos instruendos ainda terem muitas semanas de formação pela frente – o curso 128 arrancou a 7 de abril e terá a duração de 16 semanas, terminando em meados de julho – o chefe do Estado-Maior do Exército está convencido de que os 17 instruendos que ainda não desistiram vão mesmo conquistar a boina e o crachá.

E explicou porquê: “O curso está estruturado em fases e a fase individual [em que o curso se encontra] é a mais complicada. Quando se passar para a fase de equipa e mais tarde a fase de grupo já não existe o mesmo nível de exigência em termos individuais. Estou convencido que o grande número de desistências já ocorreu, à semelhança dos outros cursos – normalmente nesta parte final da parte individual – e que vamos ter gente até ao fim a quem daremos as boas vindas aos Comandos”.

Segundo o general Rovisco Duarte, as desistências do curso de Comandos que não são estranhas ao Exército, serão em breve analisadas no âmbito do “processo de certificação e avaliação do curso” durante o qual serão “recolhidos testemunhos de quem decidiu desistir mas também dos instrutores que avaliaram [os instruendos] e, se houver alguma coisa a corrigir, será corrigido no próximo curso”.

“Já percebemos que os instruendos não desistem por motivos físicos ou de praxe, ou por quaisquer outras situações menos claras”, esclareceu o general CEME assegurando que as eventuais razões de ordem social serão estudadas pelo Centro de Psicologia Aplicada do Exército.

Desde os trágicos incidentes no curso 127, marcado pela morte dos instruendos Hugo Abreu e Dylan Araújo, em setembro do ano passado, o general Rovisco Duarte lembrou que “o Exército trabalhou profundamente em várias áreas, desde o apoio sanitário, começando pela recolha de elementos relativos ao militar, ao apoio no terreno, à prevenção, para termos a certeza – e esta certeza vale o que vale em situações de formação extremamente exigente -, que essas situações não iriam ocorrer”.

O general CEME lembrou ainda que, nestas cinco semanas que do curso 128, “os procedimentos implementados no terreno permitiram detetar situações que poderiam ser de potencial risco. Através de análises recolhidas diariamente percebemos situações de rabdomiólise [destruição das fibras musculares motivada por excesso de esforço] que numa situação normal só iriam ser detetadas mais tarde”

“Não havia sintomatologia de que o militar estava com esse problema mas as análises permitiram detetar essa situação o que significou evacuar o militar para a retaguarda, iniciar um tempo de recuperação e devolvê-lo sem necessidade de mais tratamentos porque as coisas correram bem. Ou seja, criámos um mecanismo que procura evitar que situações mais graves ocorram futuramente”, contou aos jornalistas comandante do Exército.