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A inteligência na política

Desconhecido do grande público, a morte de Nuno Brederode dos Santos foi quase ignorada. Nunca tendo exercido cargos executivos, cultivava a Política com P grande: na oposição à ditadura, no PS, nas crónicas de imprensa, na Câmara de Lisboa e em Belém, onde foi consultor (e amigo) de Sampaio

d.r.

nuno Manuel Brederode Rodrigues dos Santos nasceu a 14 de dezembro de 1944 no bairro lisboeta de Campo de Ourique. O mais novo de três irmãos, fez a instrução primária nos colégios inglês Queen Elizabeth e francês Charles Lepierre. O secundário foi no Liceu de Pedro Nunes, onde, com Lauro António, animou um jornalinho e se iniciou na escrita, com ensaios mais sérios no “Diário de Lisboa Juvenil”. O pai, Nuno Rodrigues dos Santos, era um conhecido advogado republicano e maçon, que desde muito cedo o iniciou nas lides oposicionistas. Com efeito, aos 13 anos, assistiu à campanha eleitoral de Humberto Delgado. Na companhia do pai, esteve na apoteótica receção ao “general sem medo” na Estação de Santa Apolónia e, mais tarde, compareceu no Saldanha, para o comício do Liceu Camões, que culminou com uma carga da GNR.

No ano seguinte, 1959, passou a frequentar uma espécie de tertúlia no café Értilas, em Campo de Ourique, onde viveu até se casar. Anagrama de Salitre, naquele café juntava-se um grupo de jovens, entre os quais quatro Jorges (Sampaio, Fagundes, Santos e Sá Borges), João Salgueiro, José Arnaut, Francisco Ferreira Gomes e Vítor Wengorovius. Estudante do liceu, ao contrário dos demais, todos universitários, Nuno Brederode recorda: “O grupo reunia-se praticamente todos os dias, depois do almoço, para um café e dois pastéis. Discutiam-se os problemas das associações de estudantes, mas também cinema, literatura e futebol, tudo subordinado a uma visão já eminentemente política. Não garanto, mas creio que nenhum era do PCP”, o partido, necessariamente clandestino, que ocupava uma posição dominante entre a juventude que se opunha à ditadura.

A crise académica de 1962 apanhou-o como caloiro da Faculdade de Direito de Lisboa. A luta era liderada pela RIA, a Reunião Inter-Associações, que tinha como secretário-geral Jorge Sampaio, que ao tempo namorava com a irmã de Nuno — Maria Emília Brederode Santos, a cursar Letras. Temendo a eventualidade de a direção da RIA vir a ser detida pela PIDE, foi criado um secretariado paralelo. Brederode foi um seus membros, juntamente com Mário Sottomayor Cardia e Tomás Rosa.

No final da crise, o Governo expulsou 21 estudantes de Lisboa de todas as escolas da capital. Brederode foi um dos punidos. Dias antes, Marcello Caetano, que no auge da crise se demitira de reitor, em pública rutura com Salazar, telefonou para casa do jovem estudante. “Era hora do jantar. A empregada atendeu e veio transmitir-me o recado: ‘É para o menino, é o senhor reitor.’ Ficámos todos espantadíssimos!” Professor da cadeira de História do Direito Português, Caetano disse ao que vinha: “Tomei conhecimento de que vai ser expulso da faculdade. Venha cá, que eu faço-lhe o exame.” A resposta não passou de um balbucio: “Oh, senhor reitor, muito obrigado.” Discreto, o exame decorreu na biblioteca da Faculdade. “Só conhecia o Caetano das aulas. O exame foi completamente formal: só os dois, eu com uma folha à frente e ele a tratar-me por ‘senhor estudante’ ou ‘senhor aluno’. Tive uma nota sofrível. Fiquei com a sensação que estava tudo arranjado, de maneira a que se chegasse à nota mínima...”

Confirmada a expulsão, em outubro seguinte matriculou-se em Coimbra, passando a frequentar a república “Rás Te Partam”. “Como era estudante voluntário, continuei a viver em Lisboa; só tinha que ir a Coimbra para as frequências e exames.” Apesar de inscrito em Coimbra, foi, por duas vezes, vice-presidente da direção da Associação de Lisboa. “Eram estatutos impostos, que não reconhecíamos, e uma forma de o manifestarmos era eleger uma direção que não coincidisse com a disposição estatutária. Assim, em vez de cinco membros, elegíamos sete.” Um dos nomes a mais foi o de Brederode, que passou a ter assento na RIA, agora por direito próprio.

Na revista “Quadrante”, pertencente à Associação, assinou, com Jorge Almeida Fernandes e Almeida Faria, um artigo intitulado “Autópsia do Ensino em Portugal”, o que ditou a sua extinção. Passados os 30 meses de expulsão, voltou à faculdade de Lisboa, para concluir o curso em 1968. Em abril seguinte, casou-se com a colega Regina Carvalho dos Santos, com quem teve dois filhos (Vasco e Alexandre) e quatro netos — e de quem se separou no início dos anos 90. Durante algum tempo trabalhou no escritório de Sampaio, na Rua Duque de Palmela (a dois passos da primeira sede do Expresso), e frequentou os almoços num restaurante vizinho, do Hotel Florida.

Não tendo pertencido nunca nem à maçonaria nem ao PCP, fez parte do MAR, o Movimento de Acção Revolucionária. Muito crítico, à esquerda, do PCP, o MAR defendia o recurso à luta armada como forma de apressar o derrube da ditadura, mas ficou-se pelas intenções. “O MAR acabou por ser uma dinâmica entre católicos e não católicos, que serviu de ponte para o desenvolvimento de atividades de oposição legal.” Um bom exemplo foi uma reunião dominical na casa de Sintra da família Sampaio, onde, “em estilo mais ou menos semiclandestino”, se discutiram Maurice Duverger e Georges Burdeau, teóricos franceses do constitucionalismo democrático. Cinéfilo militante e devorador de literatura, colaborou revista na “Seara Nova”.

A 25 de Abril de 1974 estava a cumprir o serviço militar em Nampula (Moçambique). Concluído a tropa, em agosto foi de férias: México e Cuba, donde só regressou em outubro, para retomar o gabinete no escritório de Sampaio, com quem passou a ter um convívio diário, tornando-se um dos amigos mais chegados. Em breve, porém, instalou-se no escritório do pai, na Rua Augusta. “O pai já estava doente e fui para lá com o objetivo de assegurar a sua continuidade.” Contrariando a tendência da maioria dos seus pares, após o 25 de Abril o pai juntou-se não ao PS mas ao PPD. Já o sogro, Teófilo Carvalho dos Santos, aderiu ao PS e veio a ser presidente da Assembleia da República. Quanto a Nuno, optou pelo Movimento de Esquerda Socialista (MES), de cuja dinâmica — cada vez mais à esquerda, seguindo a cartilha leninista — foi um dos primeiros e mais cáusticos críticos. “Eu, o José Manuel Galvão Teles e o João Bénard da Costa estávamos numa de dissociar o nosso grupo daquela aventura. Éramos claramente contra aquela porcaria.” A rutura do grupo liderado por Sampaio deu-se no congresso constitutivo, em dezembro de 1974, na Aula Magna. “Escrevi uma carta datada do primeiro dia do congresso: uma carta de não entrada e não de demissão — é um preciosismo de jurista.” Nela defendia que o MES seguisse “uma lógica semelhante ao PSU francês”, de diálogo e aproximação ao PS, “por contraposição à ilusão de um partido de massas e de representação operária, que foi a linha que fez vencimento. Inventei até o termo ‘Zululândia’, para designar o grupo dirigente, liderado pelo Augusto Mateus e Afonso de Barros (mais quatro ou cinco fulanos de extração operária), cujo hieratismo evocava um festim tribal.”

Nas eleições constituintes de 1975 votou no PS e nas presidenciais do ano seguinte escolheu Pinheiro de Azevedo. “Nessa noite, estivemos em casa do Bénard da Costa em Sintra e cada um disse em quem tinha votado. Não fizemos segredo. Praticamente ninguém votou em Ramalho Eanes. Claro que, em 1980, votei Eanes contra o Soares Carneiro.”

Sem partido, durante o processo revolucionário o grupo aproximou-se dos militares moderados que formaram o “grupo dos nove” — muito especialmente ao major Melo Antunes, que fora o autor do programa do MFA. A residência de Nuno Brederode, na Estrada das Laranjeiras (em Lisboa), foi o local escolhido para uma reunião secreta entre Melo Antunes e Álvaro Cunhal, nas vésperas do 25 de Novembro. O objetivo era evitar uma confrontação militar e alertar o PCP para os riscos da sua estratégia. “Primeiro, apareceu o Melo Antunes, sozinho; depois, o Cunhal. Feitas as cortesias normais, retirei-me. Tomei banho, estive na cama a ler e, passadas umas duas horas, o Melo Antunes chamou-me. Fui até à sala e conduzi o Cunhal ao elevador. O Melo Antunes ficou mais meia hora, mas não revelou nada de concreto — apenas o suficiente para eu perceber que estava a tirar ilações corretas. Assim, ele defendeu a ideia segundo a qual o PC não deveria pactuar com a grande radicalização da extrema-esquerda. A seu ver, era fundamental que o PC sobrevivesse na legalidade, mas não no poder.” A famosa declaração de Melo Antunes, a 26 de novembro (“A participação do PCP na construção do socialismo é indispensável”), “não constituiu nenhuma surpresa para mim, mas foi o seu autêntico suicídio político.” Ainda durante o PREC, iniciou a colaboração no Expresso. “Canto Esquerdo” foi o título de uma coluna que partilhou, durante ano e meio, com Sampaio.

A partir de 1976 os dissidentes do MES criaram a Intervenção Socialista (IS). Espécie de clube de reflexão política, procurou promover o diálogo entre PS e PCP. Sem qualquer sucesso. A maioria dos seus membros acabou por aderir ao PS dois anos depois, após uma negociação com Mário Soares. Brederode participou nas conversas, conduzidas por José Manuel Galvão Teles, vizinho de cima de Soares, que acabara de firmar um acordo com o CDS de Freitas do Amaral, viabilizando assim o II Governo Constitucional. “Os que entraram no PS assinaram um documento, que foi publicado no ‘Diário de Notícias’. Quem o escreveu? Se calhar fui eu…” As fichas de inscrição foram assinadas por Soares e pelo número dois do partido, Salgado Zenha. “Eu e o Jorge entrámos para a secção do PS de Benfica, a que pertenciam o Almerindo Marques, o José Leitão e a Margarida Marques. Fomos muito bem acolhidos.” Dos 36 novos militantes, 21 pertenciam à IS, como João Cravinho, Luís Nunes de Almeida, Joaquim Mestre, Nuno Portas e João Bénard da Costa. Os restantes 15 eram independentes, com realce para Miguel Galvão Teles e José Vera Jardim. “A nossa entrada serviu de compensação pela saída do Lopes Cardoso”, que formara a UEDS. No congresso de 1979, Brederode foi eleito para a Comissão Nacional, figurando num modestíssimo 108º lugar. No ano anterior, a convite de Soares, entrara para diretor adjunto do matutino “A Luta”; dirigido por Raul Rêgo e ligado ao PS, deixaria de ser publicado seis meses depois.

As presidenciais de 1980 dividiram profundamente o PS. Soares recusou-se a apoiar a recandidatura de Eanes, não tendo sido secundado pela direção do partido, onde avultaram nomes como Zenha, Vítor Constâncio, António Guterres e todos os sampaístas. No congresso seguinte, de 1981, Soares reconquistou e limpou o partido. Afastadas do poder interno e das listas de deputados, as diversas minorias, conhecidas pela designação de “ex-secretariado”, passaram a reunir-se no sótão de Guterres, em Algés. Brederode era um dos habitués. “Era um grupo bastante heterogéneo, unido pelo combate contra a política de Soares no governo do bloco central e pela liderança logística do Guterres.”

Quadro qualificado do Instituto de Participações do Estado (IPE), de que viria a ser administrador, Brederode retomou a colaboração no Expresso em fevereiro de 1985, que manteve durante 17 anos consecutivos, até outubro de 2001. Foi a época da sua mais fértil produção literária, em crónicas marcadas por uma escrita que exprimia toda a sua inteligência e cultura, aliadas a uma enorme imaginação e criatividade, e pautadas por um fino humor e uma desconcertante irreverência. Crónicas que em 1990 lhe valeram o Prémio Gazeta do Clube de Jornalistas. Uma parte desses textos viria a ser publicada pela Relógio D’Água num volume intitulado “Rumor Civil”. Em 2006 passou a colaborar no “Diário de Notícias”, onde a 10 de maio de 2009 assinou a sua última crónica inteiramente original.

Soares e Zenha apresentaram-se às presidenciais de 1986. Contra quase todas as expectativas, a maioria do ex-secretariado alinhou com Soares, opção que Brederode ajudou a justificar com a sua lucidez e frieza políticas. A primeira volta funcionou com uma eleição primária entre os vários candidatos da esquerda: não apenas Soares e Zenha, mas também Maria de Lourdes Pintasilgo. Soares encarregou Sampaio e Brederode de contactar com a engenheira, no sentido de a convencer a desistir da corrida. “Fomos de comboio ao Porto, falar com o Nuno Grande, que era o mandatário nacional e que eu nem conhecia. Propusemos-lhe a desistência. A troco de quê? De argumentos políticos, de não deixar o PC ganhar.” A resposta de Pintasilgo foi negativa. “O Nuno Grande estava convencido que a Maria de Lourdes poderia ganhar ou que teria bastante mais votos que o Zenha.”

A vitória de Soares na segunda volta das presidenciais (contra Freitas do Amaral), aliado à humilhante derrota de Almeida Santos nas legislativas de 1985, deixou o PS nas mãos do ex-secretariado. “A candidatura do Constâncio a secretário-geral foi pacífica à escala do grupo do sótão. Tinha uma boa aceitação e significava uma mudança geracional dentro do PS.” Sempre na sombra, Brederode tornou-se um dos mais sólidos apoios do economista. “Eu conhecera o Vítor ainda nos anos 60, num debate realizado em Campolide e moderado pelo Mário Murteira. O Vítor afirmou-se claramente como socialista, para grande surpresa minha, e revelou que já tinha uma reflexão muito elaborada.”

Líder do principal partido da oposição contra o governo de maioria relativa de Cavaco Silva, Constâncio recorreu a Brederode como interlocutor junto do PSD e do executivo. Do outro lado, o parceiro foi o ministro Dias Loureiro, com quem travou numerosas conversas. “Fomos encarregues de um acompanhamento de rotina das relações interpartidárias. Era o caso de encontrar, por exemplo, nomes para provedor de Justiça, Tribunal Constitucional, Caixa Geral de Depósitos ou Banco de Portugal.” Os encontros, quinzenais ou mensais, feitos ao sabor das circunstâncias, eram ao almoço, geralmente no restaurante Saddle Room, na Praça José Fontana. “Nessas conversas a dois não havia decisões e cada um ia falar com o seu ‘chefe’. A ideia era poupá-los a um encontro que daria nas vistas. Pelo contrário, como eu estava no IPE, seria relativamente normal encontrar-me com um ministro, para conversar. Em momentos mais dramáticos, era o próprio Vítor Constâncio que tratava com o Cavaco” — como sucedeu nas negociações para a revisão constitucional de 1988. “Quando o Sampaio passou a secretário-geral, fui chamado muito menos a fazer esse papel. Por um lado, porque o Cavaco passara a ter maioria absoluta; por outro, porque o Sampaio não teve muito tempo de sossego no partido — ao contrário do Constâncio, que teve um prolongado período de graça.”

No PS de Constâncio, Brederode foi ainda o principal estratego da Convenção da Esquerda Democrática, de 1986, que procurou alargar o partido à direita e à esquerda. “A ideia era chocalhar o aparelho, abrir o partido e encontrar uma bissetriz diferente.” Tratou-se de uma espécie de ensaio geral dos Estados Gerais do tempo de António Guterres, que se revelaram decisivos para a vitória do PS nas legislativas de 1995. “O Guterres foi adaptar tudo o que se fizera na Convenção da Esquerda Democrática e fez os seus Estados Gerais, já na perspetiva de ganhar as eleições.”

Em novembro de 1988, Constâncio demitiu-se de secretário-geral. Inesperada, a decisão foi precipitada pelas eleições autárquicas e em particular pela incapacidade em encontrar um forte candidato para disputar a presidência da Câmara de Lisboa. Decisiva foi uma reunião realizada na casa de Constâncio em Oeiras. “Eu presenciei, tal como o Carlos Santos Ferreira — ele e eu para diluir o óbvio e sermos testemunhas. O Vítor convidou, um a um, vários dos presentes para serem candidatos por Lisboa: o Guterres, o Cravinho, o Sampaio, outros ainda. Todos recusaram! A mim, claro que não convidou, seria absurdo. O Jorge, que o Constâncio escolhera para líder parlamentar, foi ultrapoupado, enquanto o mais praxado foi o Guterres. Vista a posteriori, toda a conduta do Constâncio nessa reunião foi a de abrir o caminho ao Jorge, enquanto o Guterres percebeu que a sucessão estava a ser organizada de modo a que não fosse ele.”

A demissão ocorreu dias depois, com estrondo e a acusação formal ao Presidente da República de continuar a condicionar a vida do PS. O próprio Brederode ficou surpreendido — com o anúncio e a virulência. “Não sabia da decisão do Constâncio. Estava em Luanda, em casa do embaixador António Franco, quando ele me telefonou a informar que iria demitir-se no dia seguinte.”

Seguiu-se a liderança de Jorge Sampaio, que o próprio Constâncio apoiou discretamente, contrariando as expectativas de Guterres. “Eu sabia, pelas muitas conversas que tivera com o Vítor, que a sua confiança ia mais para o Jorge. Por outro lado, eu próprio comentei mais que uma vez para o Guterres: ‘És muito novo há demasiados anos’.”

Se Brederode não acompanhou Sampaio no novo secretariado do PS, nem por isso deixou de desempenhar um papel de relevo — sempre na retaguarda. Coube-lhe negociar com Almeida Santos a recondução, ao âmbito do partido, da cooperativa gráfica CEIG e sobretudo da poderosa Fundação de Relações Internacionais, que canalizava parte substancial do apoio financeiro. Ambas deixaram de estar nas mãos do sector soarista.

Mas foi o processo de candidatura de Sampaio à Câmara da capital, à frente de uma inédita coligação com o PCP, que mais gozo deu a Nuno Brederode. “O Jorge avançou porque também não teve generais. Pensou: ‘Não posso repetir o número do Constâncio.’ Percebeu rapidamente que só tinha uma solução: avançar ele próprio.” Uma decisão inédita em Portugal: nunca um líder partidário se candidatara a uma câmara. “Estive em casa do Jorge e sei que o António Costa também falou com ele várias vezes. Defendíamos ambos aquela solução.” A fundamentação foi elaborada por Brederode: “Por ser a capital, Lisboa tinha uma importância muito especial, mesmo única, num país governado por uma maioria absoluta de direita; o Jorge era o único socialista em condições de arriscar uma coligação com o PCP; e se conquistasse a Câmara, ele e o PS obteriam uma vitória muito superior ao simples âmbito autárquico.”

Despedida. Nuno Brederode dos Santos e Maria do Céu Guerra, na última aparição pública: a 7 de abril, na Gulbenkian, no lançamento do segundo volume da biografia do seu amigo Jorge Sampaio

Despedida. Nuno Brederode dos Santos e Maria do Céu Guerra, na última aparição pública: a 7 de abril, na Gulbenkian, no lançamento do segundo volume da biografia do seu amigo Jorge Sampaio

joão lima

O lugar era notoriamente ambicionado por João Soares. Na Comissão Nacional de julho de 1989, em que Sampaio divulgou a decisão e exigiu um mandato em branco, Brederode ficou estrategicamente sentado ao lado de Soares. “Quando ele viu que o candidato era o secretário-geral, ficou siderado, sem saber como reagir. Correu para o telefone, a falar com o pai. Quando regressou ao lugar, comentou para mim: ‘Isto de o Sampaio ser o candidato é de uma grande coragem…’”

A coligação foi pacientemente cerzida entre socialistas e comunistas, que desde 1974 se guerreavam. Chegado o momento das grandes decisões, Sampaio e Álvaro Cunhal tiveram mais que uma reunião secreta. Brederode foi a única testemunha. “O primeiro encontro foi num sítio absurdo, numa moradia para os lados do aeroporto. Parecia um encontro clandestino. Fui eu e o Jorge, enquanto o Cunhal estava sozinho. Eu pus a hipótese de sair da sala, o que o levou a dizer que ‘era o que faltava...’ Mas não abri praticamente a boca. Dissemos-lhe que para o PS era uma aposta muito importante: investíamos tudo naquele projeto, até o líder! Ele teve medo das consequências de um não. Percebeu que tudo o que era unitário podia ir por água abaixo…” Contra todo o tipo de ventos e marés, a coligação fez-se mesmo: Sampaio na Câmara e José Saramago na Assembleia Municipal. Ambos se empenharam numa campanha extremamente difícil, contra uma coligação de toda a direita, juntando PSD, CDS e PPM, liderada por Marcelo Rebelo de Sousa e a que todas as sondagens vaticinavam a vitória. Sempre criativo, Brederode ajudou a preparar o único debate televisivo com o temível adversário. A meio do programa, e lembrado do mergulho no Tejo e de outras ações de campanha, Sampaio soltou uma frase mortal: “O Rebelo de Sousa é um rapaz divertido… e digo isto com toda a simpatia…” A inspiração viera de Brederode. “Foi uma frase completamente assassina para o Marcelo, que ficou enormemente desestabilizado.” O debate saldou-se por um inesperado KO, com influência absolutamente decisiva no resultado eleitoral.

Sem jeito nem gosto para lugares executivos, muito menos de âmbito autárquico, Brederode deixou a sua impressão digital em dois momentos-chave da coligação de esquerda. A primeira, quando, em 1991, à beira das legislativas, o PSD exigiu à Procuradoria-Geral da República e à Alta Autoridade Contra a Corrupção que apurasse irregularidades em despesas de publicidade camarária. Antecipando-se de forma desconcertante, a Câmara resolveu constituir uma comissão de inquérito; para a presidir, foi convidado o próprio Marcelo, vereador e líder da oposição, que não teve como recusar. O resultado do inquérito foi ilibatório.

Pela mesma altura, à revelia e contra o parecer da Câmara, o secretário de Estado da Cultura, Pedro Santana Lopes, nomeou Marcelo para comissário da Lisboa-94 — Capital Europeia da Cultura. Enfurecido e inspirado pela irreverência de Brederode, Sampaio criou uma comissão municipal paralela, eleita por voto secreto em sessão de Câmara. Presidida por Brederode, a comissão reuniu-se durante meses, à porta aberta, no Café Nicola, com gente dos mais diversos quadrantes políticos e culturais, juntando ideias e projetos para a Lisboa-94. Sem condições para continuar como comissário, Marcelo renunciou. Quanto a Santana, acabou por aceitar as condições da Câmara, que impôs Constâncio para novo comissário e ditou a forma estatutária da empresa incumbida de gerir a grande festa da cultura.

Nas vésperas das legislativas de 1991, em que Cavaco esmagou Sampaio, este lançou um livro intitulado “A Festa de Um Sonho”. Coletânea de intervenções enquanto secretário-geral e presidente da Câmara, era antecedido por um magnífico ensaio autobiográfico. A forma, o estilo e a sensibilidade, porém, traíam o verdadeiro autor: o amigo Nuno Santos, como Sampaio costumava referir-se a Brederode, que preparou numerosos textos para o edil e, mais tarde, para o chefe de Estado.

A candidatura de Sampaio a Belém foi muito semelhante à da Câmara: rápida, solitária e inesperada. Brederode voltou a estar presente no momento decisivo: quando marcou o terreno à esquerda e, simultaneamente, desafiou Cavaco Silva. Foi numa entrevista ao Expresso, em fevereiro de 1994, em que Sampaio declarou: “Há um fator de natureza subjetiva que, sem ser decisivo, não deixaria de ser estimulante para a minha decisão: saber que me ia confrontar com o professor Cavaco Silva.” A frase fora cuidadosamente preparada num restritíssimo grupo que se vinha reunindo nas noites de segunda‑feira em casa de Sampaio, que não se coibiu de reconhecer: “Quem ‘inventou’ essa ‘boca’ foi o Nuno Brederode dos Santos.” A partir de Belém, Mário Soares multiplicava-se em convites para o suceder, enquanto uma parte do PS se inclinava para Fernando Gomes, e Guterres ainda hesitava. “A função da entrevista foi dupla: dar o primeiro sinal público e amarrar-se ele próprio à candidatura, porque era difícil recuar daquela frase.”

Durante os dois mandatos do amigo Presidente, Brederode foi um dos seus conselheiros. “Não quis ser assessor, preferi ser consultor e não recebi qualquer pagamento. O Jorge, de princípio, não percebeu. ‘Até parece que estás a marcar distâncias’, chegou a dizer-me. Mas nunca me passou pela cabeça renunciar à minha vida profissional. Passava mais tempo no IPE que em Belém”, onde ia às reuniões da assessoria política, dirigidas pelo Presidente às segundas-feiras de manhã. “Era como se fosse um administrador não executivo do uma empresa. Mas também havia muitas conversas nas horas mortas.”

Apaixonado, em termos intelectuais, pela política internacional, acompanhou Sampaio a quase todas as cimeiras ibero-americanas. “Estive pelo menos nas de Cuba, Venezuela, Chile, Porto e Espanha. O Jorge pediu-me mais que uma vez para falar com o Guterres, para tentar esclarecer qualquer mal-entendido, dos muitos criados pelas comitivas de ambos. Numa delas fui ao quarto do Guterres, onde me deparei com uma nuvem de humidade: estava a tomar banho de imersão, só com a cabeça e os joelhinhos fora de água, mas já não me lembro da chatice que fui resolver.”

No Chile, participou no encontro com Fidel Castro. “O Fidel estava sozinho e muito bem informado, mesmo sobre o Jorge.” O mesmo sucedeu com Hugo Chávez, da Venezuela. “O Chávez era um case study. Dizia coisas extraordinárias e ameaçava acabar com tudo o que eram interesses corporativos, incluindo sindicatos e confederações empresariais. Resumia a democracia ao exercício político do voto. Confirmei que era pelo menos louco...” A deslocação a França foi uma das raras visitas de Estado que integrou. “Ver os Campos Elísios cheio de bandeiras portuguesas foi inesquecível.”

Em Belém, acompanhou todas as grandes crises. Na demissão de Guterres do cargo de primeiro-ministro, “o Jorge foi apanhado completamente de surpresa. As coisas não estavam a correr bem para o Governo, com as minorias, todas juntas, a formar uma maioria de bloqueio. E julgo que o Guterres estava decididíssimo.”

Na cimeira das Lajes, sobre o Iraque, “o Jorge só soube em cima da hora. Nem sequer houve um pré-aviso da intenção. Se tivesse havido, o Presidente teria pelo menos a hipótese de tentar dissuadir. Mas com a aceitação por parte dos vários envolvidos já não havia margem para dar um murro na mesa.”

Brederode foi um dos muitos conselheiros que se pronunciou contra a nomeação de Santana para primeiro-ministro. Foi uma das raras vezes em que discordou de Sampaio. “Achei que devia haver eleições. Mas depois da audiência ao Ferro Rodrigues, o Jorge ficou com a sensação que o PS não estava preparado para formar Governo.” Os meses anteriores haviam sido terríveis para os socialistas, com o caso Casa Pia. “É espantoso o que sobrou daquele mar de notícias! Ficou a prisão do Paulo Pedroso, que nem sequer foi a julgamento.”
O governo de Santana durou pouco mais de quatro meses. “Sampaio e Santana até tinham um relacionamento fácil. Mas era impossível escapar ao bombardeamento da imprensa em torno dos constantes incidentes e trapalhadas. Foi algo nunca visto — nem o Sócrates nem o Passos Coelho se comparam ao tempo do Santana. Gerou-se uma sensação de cansaço e de ânsia pela normalidade e o Sampaio fartou-se!”

Nuno Brederode viveu os últimos 20 anos com a atriz Maria do Céu Guerra, que conhecera dos tempos da universidade: ele em Direito, ela em Letras. A última meia dúzia de anos foi penosa, marcada por sucessivos problemas de saúde: um cancro nos pulmões, um segundo no fígado, sérios problemas na vista, que o impediam praticamente de ler e escrever. A última aparição pública foi a 7 de abril, na Gulbenkian, para assistir ao lançamento da biografia do amigo Sampaio. Uma semana depois foi internado no Hospital dos Capuchos, onde lhe foi detetado um cancro no pâncreas. Faleceu no dia 29, com 72 anos.