Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Chefe dos espiões: qual é o segredo de Pereira Gomes, o ex-maoista que pôs Passos e Costa de acordo?

Embaixador José Júlio Pereira Gomes é o senhor que se segue na chefia das secretas, sucedendo ao magistrado Júlio Pereira

Presidência da República

Governo quis por fim ao ciclo de magistrados na chefia das secretas. Com a concordância do líder da oposição, nomeou José Júlio Pereira Gomes, um diplomata que fez uma carreira discreta. Pereira Gomes e António Costa foram secretários de Estado do mesmo ministro, António Vitorino, no primeiro Governo de Guterres

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Discrição costuma ser o adjetivo aplicado aos espiões. Ao chefe deles, por maioria de razão. A José Júlio Pereira Gomes, embaixador full rank, colocado desde 2015 em Estocolmo, o adjetivo cai que nem uma luva, agora que se apresta a assumir o cargo de secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP).

É, curiosamente, um homem que conseguiu fazer a bissetriz entre o Governo e a oposição, num tempo em que nem um nem outro se entendem sobre quase nada. Grande amigo de António Vitorino, é simultaneamente amigo de Francisco Ribeiro de Menezes, o diplomata que foi chefe de gabinete de Pedro Passos Coelho e é casado com Teresa Leal Coelho. Antes de ser chefe de gabinete de Passos, Ribeiro de Menezes era embaixador em Estocolmo.

Quem conhece Pereira Gomes diz que foi talhado para o cargo. Gosta de aprofundar os assuntos e não faz nada de modo leve, nem sem antes pensar muito. “Gosta de matutar nas coisas”, disse um velho amigo, que o acompanha desde os tempos da juventude. “Não me espanta que tenha chegado lá.” Ao tempo do 25 de Abril, militava no PCP-R, uma formação maoista que haveria de dar origem à UDP.

Ao que sabe o Expresso, a opção por Pereira Gomes tinha sido tomada por António Costa há muitos meses

A escolha de Pereira Gomes, todavia, não era óbvia. Se calhar também porque fez uma carreira discreta, longe das luzes da ribalta. Com uma exceção, mais por acaso do destino que por escolha: foi chefe da missão de observação do processo de consulta popular em Timor-Leste em 1999, no período que acabou marcado por uma onda de violência que matou cerca de 1400 pessoas, destruiu a maioria das infraestruturas e obrigou à retirada da missão portuguesa.

Foi um período muito complicado, tanto mais que António Guterres, então primeiro-ministro, não queria que Portugal abandonasse pela segunda vez o território, depois de, em 1975, as tropas portuguesas o terem feito perante a invasão indonésia. A missão portuguesa, onde se recolhiam os poucos portugueses que ficaram em Díli, entre eles quatro jornalistas, ficou cercada durante vários dias.

Os portugueses acabaram por ser retirados sob proteção das tropas australianas, que formou principalmente a força da ONU (INTERFET). Data desse tempo uma imagem mais controversa do diplomata, explicável, segundo um colega, “a um tempo muito emocional”.

Carreira pública

Antes disso, porém, José Júlio Pereira Gomes já tinha desempenhado vários cargos públicos: formado em Direito, no qual se licenciou com uma das mais altas notas do curso, foi secretário de Estado da Defesa no primeiro Governo de António Guterres - era ministro da Defesa António Vitorino (1995-1997). Os dois conheceram-se e tornaram-se grandes amigos desde os bancos da Faculdade. Quando Vitorino saiu do Governo, saiu também Pereira Gomes.

Foi nessa altura que o seu destino se cruzou de perto com o do atual primeiro-ministro. António Costa era ao tempo secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares de Vitorino, que tutelava as duas pastas. Os dois, Costa e Pereira Gomes, trabalhavam sob as ordens de Vitorino. É com a saída deste que António Costa sobe pela primeira vez a ministro, precisamente dos Assuntos Parlamentares.

Ao que sabe o Expresso, a nomeação de Pereira Gomes pelo primeiro-ministro já tinha sido feita há muitos meses, depois de ter sido sondado para outros cargos. A este não resistiu.
Foi, todavia, com Vitorino que Pereira Gomes veio a manter uma amizade para a vida: contemporâneos de curso, o diplomata seguiu com o socialista para Macau, coadjuvando-o primeiro como assessor e, depois, como Diretor do Serviço de Administração Pública. António Vitorino era então Secretário-Adjunto do Governador de Macau (1986-1987).

Depois da saída de Vitorino, Pereira Gomes ainda se manteve em Macau, mas já na carreira, como assessor diplomático do Governador Carlos Melancia.

Mais tarde, voltou a cruzar-se com Vitorino, mas na União Europeia. No tempo em que este foi comissário, Pereira Gomes desempenhou o cargo de representante permanente no Comité Político e de Segurança da União (COPS), entre 2002 e 2005. Findo este período, regressou a Genebra, para a Missão Permanente de Portugal junto da Nações Unidas, um lugar que já tinha ocupado entre 1999 e 2002. “A sua especial aptidão jurídica indicava-o para o cargo”, disse um colega de trabalho.

Júlio Pereira manter-se-á em funções até ao final da visita do Papa

Júlio Pereira manter-se-á em funções até ao final da visita do Papa

João Carlos Santos

Com a nomeação de Pereira Gomes, sai Júlio Pereira, o magistrado que praticamente “moldou” o SIRP. No cargo há 12 anos, foi o segundo ocupante do cargo, depois de reestruturação das secretas no tempo de Durão Barroso, e que se manteve durante três governos. Deverá agora sentar-se no Supremo Tribunal de Justiça como juiz, lugar a que concorreu ainda em fevereiro passado. Sai a seu pedido, com uma recomendação para o seu agraciamento com a Ordem do Infante D. Henrique.

Artigo publicado na edição do Expresso diário de 10/05/2017