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Deputados alemães: “Falar da reestruturação da dívida só depois das eleições”

Três deputados do Bundestag (Parlamento alemão) vieram a Lisboa para um encontro. Dizem estar “positivamente surpreendidos” com os resultados de Portugal

Foto Getty

Uma delegação de três deputados alemães da Comissão do Orçamento do Bundestag veio esta segunda-feira a Lisboa para um encontro com os seus homólogos portugueses. Ficaram “positivamente surpreendidos” com os resultados obtidos por Portugal. Quanto a medidas prováveis, “só depois das eleições alemãs”

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Os deputados pertencem a partidos diferentes: social-democrata (SPD), cristãos-democratas (CDU) e Verdes mas a opinião sobre o estado das finanças de Portugal foi o mesmo: “surpreendidos pela positiva” ou, dito de outro modo, “agradavelmente”, com o facto de, em função dos números, haver progressos económicos e financeiros, disseram ao Expresso numa conversa informal.

Martin Gerster, do SPD, referiu até esperar agora que, como reflexo dessa nova situação que se verifica do ponto de vista económico e financeiro, “as agências de rating ajudassem Portugal (retirando o país do nível lixo)”.

Mas a “surpresa positiva” e os progressos não bastam. Os três consideram que deve ser mantida a rota das reformas estruturais iniciada pelo anterior Governo. “O nosso ministro das Finanças olha muito atentamente para os números, mas não basta falar de mais ou menos austeridade”, disse por sua vez a deputada dos Verdes Anja Hajduk, que é secretária parlamentar do seu partido.

“É preciso manter as reformas, mas sobretudo mais investimento europeu”, afirmou a deputada por Hamburgo, convicta de que o Governo alemão se mostrará sensível no futuro a essa questão.

reuters

Diferente foi a abordagem da questão da dívida e da sua possível reestruturação. Há abertura para uma reestruturação, “mas falar nisso só depois das eleições alemãs do outono”, disseram os três. Possíveis medidas de reestruturação da dívida só serão tomadas pelo próximo Governo alemão.

O assunto, seja como for, é demasiado sensível para o eleitor alemão, que o identifica como tendo de desembolsar mais dinheiro para os povos do sul. Os três opinam que o tema tem de ser tratado a nível europeu, que se trata de uma questão que é “realista”.
Neste aspeto, reconhecem que o problema da dívida de Portugal não é tema na Europa por enquanto. “Portugal está na sombra do debate sobre a reestruturação da dívida da Grécia”, o que não é mau para o país. É um caso em que “não falar é bom”. Portugal não tem nem boa nem má imprensa na Alemanha, porque simplesmente não se fala do país, numa versão autêntica do célebre ditado “no news, good news” (não haver notícias são boas notícias).

A deputada dos Verdes admitiu mesmo que na Alemanha se fala muitas vezes dos “países do sul”, sem nenhuma distinção entre eles. “A nossa missão também é trabalhar para que se faça essa distinção, que não há nenhum bloco do sul, mas países diferenciados, que a Grécia é diferente de Portugal, este diferente da Espanha e que a França ou a Itália são outros casos”.

O jogo das alianças possíveis

Os três deputados admitem também que no seu próprio país “tudo está aberto” relativamente ao resultado das eleições, isto é, que tipo de governo poderá sair delas. A Alemanha não tem um histórico de governos minoritários e essa é razão das coligações. Agora, perante a subida do SPD nas sondagens – mesmo não pondo em causa uma vitória da CDU, de Angela Merkel - tudo é possível.

O tudo é mesmo tudo, admitido pelos próprios deputados: o SPD tanto pode fazer uma aliança com a CDU e outros como com os Verdes e os Liberais, ou os Verdes e o Die Linke (o partido mais à esquerda, identificado como os ex-comunistas); quanto à CDU, é igualmente aberta, praticamente com as mesmas opções, exceto com o Die Linke. Os Verdes esperam para ver. Dentro do próprio partido foi decidido não fechar qualquer porta nem a uma aliança com o SPD (como já governam em vários estados), nem com a CDU. No SPD, uma aliança com o Die Linke também não é pacífica nem unânime.