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Este Papa é de esquerda?

OSSERVATORE ROMANO/HANDOUT/ EPA

Francisco nunca foi de direita, mas também já garantiu que nunca foi comunista. Será o Papa que visita Portugal pela primeira vez no dia 12 de maio de esquerda?

ANTÓNIO MARUJO

A sua preocupação com a Justiça e os direitos humanos fundamentam-se no evangelho, não em categorias políticas, garante Bergoglio

Na relação com a política, o Papa tem estado, aparentemente, do lado oposto aos que têm vencido: critica Trump e este é eleito; diz que "esta economia mata", mas o sistema financeiro continua a ditar regras em todo o mundo; condena a guerra na Síria, mas ela parece recrudescer em vez de parar; critica a Europa na crise de solidariedade a propósito dos refugiados, mas nenhum Governo europeu arrepia caminho; condena as perseguições aos cristãos no Médio Oriente, mas eles continuam a ser mortos em vários países.

Também no interior da Igreja, Francisco quer que ela mude de prática em relação à família mas é objeto de críticas públicas de cardeais. E a oposição interna aumenta, sobretudo por parte daqueles que, antes, defendiam que um Papa estava acima das críticas...

Será que Francisco está do lado dos perdedores? Ou o seu objetivo é outro que não o de ganhar discussões públicas e políticas? Para o Papa, fé, oração e compromisso a favor de quem mais necessita são dimensões inseparáveis. Por outras palavras, rezar, entende Francisco, é uma forma de contemplar Deus através das outras pessoas - nas suas solidões e abandonos, nas suas alegrias e realizações.

No filme "Francisco - o Papa do Povo", há uma cena que sintetiza bem este modo de ver e agir, mostrando esta dimensão da personalidade do atual Papa: perante a ameaça dedemolir a "Villa 31", um dos bairros pobres de Buenos Aires, o então bispo auxiliar Jorge Mario Bergoglio convence o arcebispo, cardeal Antonio Quarracino, a celebrar missa em pleno bairro, quando a demolição das barracas já se iniciava.

Com os moradores do bairro cercados pela polícia de choque e escavadoras, o decorrer da celebração leva vários agentes a participar também. No final, eles abandonam o cerco e as pessoas podem continuar a ter um teto, mesmo que degradado.

Uma das orações de consagração da missa diz: "Por este sacrifício de reconciliação, dai, Senhor, a salvação e a paz ao mundo inteiro." A cena do filme é uma tradução do modo como Bergoglio, o Papa Francisco, deposita a sua convicção nestas palavras. Mas, para ele, a oração deve ser consequente; e, por isso, a missa, em vez do recato da capela privada do cardeal, é celebrada no meio do bairro, perante os polícias e as máquinas que se preparam para demolir as barracas.

A oração consequente

Para Francisco, o lugar e o modo de fazer também importam. Ele pretende que a oração seja consequente e operativa, e que não repouse na atitude de ficar sentado à espera que um Deus mágico ou condoído da sorte de alguns resolva agir em favor destes.

Esta mesma convicção sobre o poder da fé já o levara à convocação do jejum pela paz na Síria, em setembro de 2013, quando vários responsáveis de governos europeus e dos Estados Unidos vinham fazendo uma série de declarações, preparando a hipótese de uma intervenção armada no terreno.

Ao culminar a jornada com um tempo de oração pública, reproduzido também em centenas de catedrais e igrejas pelo mundo fora, o Papa e os que aderiram à sua proposta mostraram que havia uma forte oposição à ideia da escalada belicista.

No dia seguinte, vários líderes ocidentais retrocederam nas declarações, a Rússia envolveu-se na mediação e conseguiu-se um arremedo de diálogo.

A Síria, no entanto, é um dos exemplos de como o Papa não consegue mais do que a sensibilização de algumas pessoas e das suas convicções. A guerra continua com o seu trágico cortejo de mortos, apesar das declarações de Francisco. Tal como as suas críticas a Trump não tiveram qualquer resultado na eleição presidencial dos Estados Unidos - pelo contrário: a maior parte dos católicos do país votou no candidato republicano.

E nem sequer os seus alertas sobre a crise de solidariedade europeia para com os refugiados inverteram as políticas de países como a Polónia ou a Hungria ou deram origem a uma política mais eficaz por parte dos países membros da UE.

Significa então que o Papa está a perder nas suas batalhas? Um dia, Estaline terá perguntado ao diplomata francês Pierre Laval (que viria a ser também primeiro-ministro): "E quantas divisões tem o Papa?" Sem divisões militares nem exércitos, o Papa não pode senão tentar convencer pela palavra e pela consciência.

As origens latino-americanas de Jorge Bergoglio não são, aqui, de somenos: na segunda metade do século XX, o catolicismo daquela região do mundo empenhou-se na transformação social da realidade, através de um conjunto de estruturas, iniciativas e dinamismos.

Durante o pontificado de João Paulo II, tais dinâmicas foram muitas vezes contrariadas, nomeadamente através da formação dos padres (mais voltada para um espiritualismo pouco interessado na relação com o quotidiano) ou da nomeação de bispos - muitos deles, claramente situados à direita do espectro político, mais próximos do poder económico-financeiro e opostos a qualquer ideia de intervenção social dos cristãos para lá da assistência.

A renovação da intervenção católica já deixara, no entanto, muitas sementes.

No Brasil, por exemplo, o Movimento dos Sem-Terra e outras dinâmicas sociais ou, mesmo, alguns sectores que depois se incorporariam no Partido dos Trabalhadores, de Lula da Silva, nasceram à sombra dos bispos e das estruturas da Igreja.

Nessa dinâmica do catolicismo latino--americano, a formação das consciências ocupou um lugar cimeiro e prioritário.

E isso fez-se através da criação de milhares de comunidade eclesiais de base (CEB), cujo centro era a leitura da Bíblia. A partir do confronto da realidade com os textos bíblicos, cada pessoa ou grupo retirava as consequências do que era importante fazer para configurar a realidade mais de acordo com o evangelho.

TIZIANA FABI/AFP/GETTY

Uma consciência que nasce da Bíblia

No seu livro "E a Igreja se Fez Povo", o teólogo Leonardo Boff explicava essa relação entre as diferentes dimensões: "O mistério cristão se torna crível, mesmo naquelas dimensões estritamente misteriosas, porque confere um sentido pleno à existência, permite sonhar em grande na sociedade e abre perspetivas para a frente e para cima rumo à destinação última da história que para os cristãos só pode ser o Reino do Pai." As CEB não estavam sozinhas nesse processo. Na sequência do II Concílio do Vaticano (que reuniu todos os bispos católicos do mundo entre 1962-65) e das suas propostas de aggiornamento do catolicismo, outras dinâmicas surgiram.

Uma delas, por exemplo, levou um conjunto de bispos a comprometer-se em conjunto num estilo de vida mais pobre e mais sóbrio, mais empenhado na luta por uma sociedade mais justa e solidária e mais próximo das camadas mais desfavorecidas da população.

Esse compromisso, conhecido como "Pacto das Catacumbas", provocou uma viragem na forma de viver e de agir de muitos bispos. E isso levaria a decisões históricas a nível do continente - por exemplo, a afirmação da "opção preferencial" da Igreja pelos mais pobres, feita sucessivamente nas conferências que reuniram todos os bispos latino--americanos em 1968 (em Medellín, Colômbia), 1979 (Puebla, México), 1992 (Santo Domingo) e 2007 (Aparecida, Brasil).

Nesta última assembleia, o então arcebispo Bergoglio, de Buenos Aires, foi um dos responsáveis pela redação do documento final. E o atual Papa já citou esse texto várias vezes. No parágrafo 122 da exortação "A Alegria do Evangelho", Francisco destaca precisamente o protagonismo de cada povo na evangelização, característica das comunidades eclesiais de base: "Cada porção do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus segundo a sua índole própria, dá testemunho da fé recebida e enriquece-a com novas expressões que falam por si.

Pode dizer-se que 'o povo se evangeliza continuamente a si mesmo'".

"Isto não é ser comunista"

Mesmo não querendo reduzir a categorias simplistas o pensamento do Papa Bergoglio, há afirmações do próprio que não deixam grande margem para dúvidas. Na entrevista que deu ao padre jesuíta Antonio Spadaro, em setembro de 2013, ele afirmava: "Nunca fui de direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões [quando era responsável máximo dos jesuítas na Argentina] que criou problemas." Noutra entrevista, dada aos jornalistas Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin em 2010 (e publicada em Portugal pelas Paulinas), disse que tinha lido textos do Partido Comunista Argentino que contribuíram para a sua formação política. Uma das suas grandes amigas, responsável no laboratório onde ele trabalhou, era militante do partido mas ele "nunca" tinha sido comunista.

No ano passado, em Cracóvia (Polónia), onde esteve para presidir à Jornada Mundial da Juventude, disse a um grupo de três dezenas de jesuítas: "O pensamento liberal, que retira o homem do centro e ali coloca o dinheiro, não é o nosso. A doutrina da Igreja é clara e é preciso avançar neste sentido".

Pelo contrário, o cristianismo deve dar "particular atenção" aos mais "marginalizados, à defesa dos que têm mais necessidade de ser protegidos.". E acrescentou: "E isso - que fique claro - não é ser comunista: é, simplesmente, estar verdadeiramente envolvidos com a realidade." Muitas afirmações do Papa colocam-se numa perspetiva da esquerdademocrática do espectro político (na perspetiva da esquerda democrática das últimas décadas do século XX). Basta recordar as suas repetidas reivindicações de "terra, teto e trabalho" para todos, feita nos encontros com movimentos populares (um deles, na presença do Presidente boliviano, Evo Morales), a sua denúncia de que "esta economia mata" ou a ideia de que o atual "sistema social é injusto na sua raiz", como também escrevia na sua primeira exortação, "A Alegria do Evangelho".

Aliás, esse parágrafo 59 do primeiro grande texto do seu pontificado quase parece retirado de uma cartilha marxista ou de textos de Bertolt Brecht: "Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança.

Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. Quando a sociedade - local, nacional ou mundial - abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade.

Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz." Para Bergoglio, não são estas posições que vão ao encontro da esquerda mais radical; antes é a esquerda e os comunistas que "pensam como os cristãos", dizia ele, em novembro passado, numa entrevista ao "La Repubblica": "Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não. É a eles que temos de ajudar, para obterem a igualdade e a liberdade." É verdade que estas críticas ao capitalismo selvagem ou aos abusos de uma economia sem rosto já vinham sendo feitas desde João XXIII e Paulo VI, na década de 1960, até Bento XVI, que pediu uma reformulação completa do sistema financeiro internacional.

Mas, em relação aos seus antecessores, uma das diferenças de Bergoglio está na capacidade de aliar as denúncias a gestos vigorosos - ir a Lampedusa ou a Lesbos por causa dos refugiados, receber vítimas de atentados como os de Nice, entrar numa favela no Rio de Janeiro, visitar uma mesquita cercada por milícias cristãs na República Centro-Africana...

Outra diferença fundamenta-se na perceção da realidade: o Papa argentino viu - no seu trabalho diário como padre e, sobretudo, como bispo e cardeal - o que era a extrema miséria em que vivem milhões de pessoas e a corrupção de um sistema financeiro que as usa como "descartáveis", como ele refere tantas vezes. "O seu pensamento económico vai além de Karl Marx", contra essas novas escravaturas que deixam quase toda a gente indiferente, escrevia o jornalista Giacomo Galeazzi, num artigo em "Il Sismografo", em março de 2015.

Ao mesmo tempo, acrescentava, o Papa recupera uma teologia "de libertação" que coloca "a misericórdia cristã no lugar do marxismo".

Não é por acaso que, nas suas homilias, textos ou discursos, ele convida os crentes a redescobrirem permanentemente os valores éticos inspirados na Bíblia - e, nomeadamente, nos textos das 'Bem-Aventuranças' de Jesus ou nos Dez Mandamentos da tradição judaica.

São essas referências que o levam a repetir que "espezinhar a dignidade de uma pessoa é pecado grave".

Claro que muita da esquerda não acompanha o Papa quando ele defende a manutenção da doutrina tradicional da Igreja sobre questões da moral individual como o aborto, o divórcio, a homossexualidade ou a procriação.

Também aqui, ao acentuar o acolhimento da pessoa em detrimento da regra, Francisco está a regressar ao paradigma do evangelho: a pessoa não foi feita para o sábado (ou seja, para cumprir normas), mas o sábado (as regras) é que foi feito para a pessoa.

Além de Marx e do marxismo

O Papa estabelece uma hierarquia e, para ele, claramente, as questões da moral individual não estão no topo. No regresso da viagem a África, em novembro de 2015, quando foi perguntado sobre o preservativo, dizia: "Sim, é um dos métodos" de prevenção do contágio da sida, por exemplo" mas, acrescentou, esse não é o problema. "O problema é maior: (...) a desnutrição, a exploração das pessoas, o trabalho escravo, a falta de água potável: estes são os problemas.

(...) A grande ferida é a injustiça social, a injustiça ao meio ambiente, a referida injustiça da exploração e a desnutrição.

Este é o problema. Não gosto de descer a reflexões de casuística, quando as pessoas morrem por falta de água e à fome, por causa do habitat... (...) Porque é que se continuam a fabricar armas e a comercializar as armas? As guerras são a maior causa de mortalidade..." Resta uma questão onde a esquerda (e, tragicamente, também muitos sectores da direita política) não acompanha o Papa: a sua constante denúncia dos massacres e perseguições aos cristãos.

Há dois anos, Lucia Annunziata, a diretora de "The Huffington Post" italiano, que se apresentava como ateia, defendia que Francisco tem um pensamento de "esquerda", mas é traído pela "esquerda" ideológica: esta, que se reclama de um património de "justiça", não se mexe perante os "crimes mais terríveis contra as pessoas indefesas" que são os cristãos perseguidos. E as diferentes esquerdas não se mobilizam para exprimir "pena ou horror pela morte de homens e mulheres só por causa da fé que professam", ao contrário do que fazem com atentados como o que atingiu os jornalistas do "Charlie Hebdo", em França.

Domingo de Páscoa, na sua alocução urbi et orbi (à cidade e ao mundo), o Papa afirmou que Cristo ressuscitado "cuida de quantos são vítimas de escravidões antigas e novas: trabalhos desumanos, tráficos ilícitos, exploração e discriminação, dependências graves". E acrescentou: "Cuida das crianças e adolescentes que se veem privados da sua vida despreocupada para ser explorados; e de quem tem o coração ferido pelas violências que sofre dentro das paredes da própria casa. (...) faz-se companheiro de viagem das pessoas que são forçadas a deixar a sua terra por causa de conflitos armados, ataques terroristas, carestias, regimes opressores. A estes migrantes forçados, Ele faz encontrar, sob cada ângulo do céu, irmãos que compartilham o pão e a esperança no caminho comum." Percebe-se, pela sua mensagem e insistência, que é esse ângulo do céu, com pão e esperança compartilhados, que Francisco quer ganhar. Para cada pessoa.

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