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Política

Morais Sarmento: primárias nos partidos são “fantochada"

Rui Ochoa

Ex-dirigente do PSD elogiou Assunção Cristas e considerou que Fernando Medina era “perfeitamente derrotável”

O ex-dirigente do PSD Nuno Morais Sarmento defendeu hoje que o atual presidente da Câmara de Lisboa "era perfeitamente derrotável" nas próximas autárquicas e apontou Cristas como a candidata que melhor poderá estabelecer uma "relação individual" com os eleitores.

Numa conferência sobre o sistema político português, organizada pelo Núcleo de Estudantes Social Democratas da Faculdade de Direito de Lisboa (NESD/FDL), o antigo ministro da Presidência dos Governos PSD/CDS de Durão Barroso afirmou que a abertura dos partidos à sociedade civil não passa por "fantochadas" como apenas "abrir em momentos de votação", numa referência às primárias, mas por uma "reconfiguração radical" do sistema político.

Sublinhando que as bases do sistema político português não mudam desde os anos 80, e que todo o resto do mundo mudou, Morais Sarmento defendeu que as alterações têm de ser feitas a partir das ambições das pessoas para as instituições, e não ao contrário.

A este propósito, apontou erros no processo eleitoral em Lisboa para as próximas autárquicas, em que "os diretórios dos partidos" escolheram "majestaticamente os seus candidatos" e lamentou que o PSD tenha considerado o atual presidente da Câmara "inderrotável".

"Aqui em Lisboa vai-me ser difícil...Olhando, qual é de todos os candidatos aquele que tenta ter uma relação individual [com os eleitores]? É a Assunção Cristas", afirmou.

O outro orador do painel, o ex-líder da JSD e impulsionador do movimento Portugal Não Pode Esperar, Pedro Rodrigues, lamentou que, durante quatro anos, o PSD não tenha percebido "que as eleições se ganham no período em que se está na oposição" e tenha "desaparecido" em Lisboa das freguesias e da Assembleia Municipal.

"Obviamente, não é alguém iluminado sentado numa poltrona que diz 'aquela senhora vai ganhar as eleições'", afirmou, considerando que "assim, de facto, Fernando Medina não é derrotável".

Morais Sarmento apontou exemplos tão diferentes como o de Donald Trump, nos Estados Unidos, ou do atual Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, para defender que, no futuro, só irá triunfar quem estabelecer "uma relação individual" com os eleitores.

Na perspetiva do antigo vice-presidente social-democrata, essa alteração deve-se a duas mudanças estruturais na sociedade: a capacidade dos cidadãos de intervenção instantânea e global e a substituição dos modelos de controlo em pirâmide - de cima para baixo - por modelos em rede.

"No modelo tradicional, que seguimos ainda em Portugal, as pessoas participavam politicamente nas eleições, nos referendos se os houvesse, e a coisa fica-se por aí, tudo o resto é uma integração política mediada por instituições que são os partidos", resumiu.

Sarmento lembrou que as últimas "alterações sistémicas" à Constituição aconteceram em 1989, numa altura em que não existia Internet, telemóveis nem sequer televisão privada.

Ora, defendeu, numa época em que os cidadãos recuperaram a sua capacidade de intervenção direta, sem a mediação dos partidos, não vão querer voltar atrás.

"Não acredito que seja um passo reversível, nós não vamos nunca mais trazer às pessoas aos partidos, se formos inteligentes vamos levar os partidos às pessoas", afirmou.

Por isso, classificou como "uma brincadeira" pretender que a abertura à sociedade civil passe apenas pelos momentos de votação, como o sistema de eleições primárias, em que não militantes podem votar na escolha do presidente do partido, já adotado pelo PS e que figuras do PSD, como Miguel Relvas, têm defendido.

"Não é fazer a fantochada de abrir em momentos de votação, a escolha do chefe até pode ser feita por eles [militantes dos partidos], o que que queria é que os temas e a posição sobre os temas fosse aberta e fosse atual", disse.

Dizendo-se adepto de uma 'soft change' [mudança suave], Morais Sarmento considera que os partidos poderão ter um papel nesta alteração, se conseguirem, por exemplo, aproximar-se dos temas que as pessoas discutem nas redes sociais, na blogosfera ou em plataformas de cidadãos.

"Ou se cruzam os dois níveis ou serão empurrados os partidos velhos e estes morrem", disse, apontando o caso do Partido Socialista francês, que obteve resultados residuais na primeira volta das presidenciais.

Considerando que "a juventude pode ser o primeiro fator de mudança", Morais Sarmento apelou à JSD para que não seja uma miniatura do partido, que disse andar a fazer "um jogo de amuado permanente" e arredado quer dos temas que interessam às pessoas, quer até dos temas políticos tradicionais.

Também Pedro Rodrigues defendeu que o essencial será os partidos "recuperarem o seu ADN, que é a representação dos cidadãos".

"Os partidos políticos precisam de estar dentro da vida das pessoas e resolvendo os seus problemas, é assim que se abre o partido à sociedade civil, não apenas mudando método de eleição", apelou.