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As discretas ajudas do PR à direita

Uma longa aula de Marcelo Rebelo de Sousa, que a propósito de Mário Soares, serviu para falar do passado mas também da política atual

antónio pedro ferreira

Marcelo intensifica farpas a António Costa. No 25 de Abril, lembrou a “legitimidade de a oposição aspirar 
a voltar a governar”

Marcelo Rebelo de Sousa avisou de véspera que não iria falar da conjuntura política no discurso do 25 de Abril, mas em menos de 24 horas confessou o que lhe vai na alma. Aproveitou uma aula que foi dar ao Colégio Moderno (da família Soares) para carregar nas indiretas que ciclicamente manda ao primeiro-ministro, António Costa.

Segundo Marcelo, o primeiro-ministro vê o país mais cor de rosa do que ele, obrigando-o, de vez em quando, a lembrar que há nesta história um professor e um aluno. Eis a frase-chave da confissão do Presidente da República: “Eu às vezes digo: não, o senhor primeiro-ministro irrita-me um bocadinho porque é evidente que há problema e está a tentar explicar-me que não há esse problema, e isso não me entra na cabeça. Depois recorro a um argumento de autoridade a que não se deve recorrer; é que eu ando a analisar a política portuguesa há 50 anos”. Conclusão: o Marcelo analista anda menos com António Costa ao colo (como diz a direita) do que o Marcelo Presidente.

Na véspera, no discurso que fez no Parlamento para comemorar o 25 de Abril, o PR já tinha, no entanto, aberto algum espaço ao centro-direita quando avisou que “os dois anos e meio que faltam para concluir a legislatura terão de ser de maior criação de riqueza e melhor distribuição e o Governo, os seus apoiantes e as oposições, que legitimamente aspiram a voltar a governar, estarão por certo atentos a este imperativo”. Está lá quase tudo o que preocupa Marcelo.

Ciente de que para o Governo as coisas (défice, desemprego e crescimento) dificilmente poderiam correr melhor, o Presidente da República teme que o PS chegue a 2019 sem uma oposição que verdadeiramente dê luta e lamenta que PSD e CDS não estejam a acertar agulhas. “O ideal era o centro-direita ter condições para disputar as legislativas”, confirma ao Expresso fonte próxima, alertando que “quando o PR se demarca do Governo é para ajudar o centro-direita”.

Não será só. Confortável com a popularidade estratosférica que mantém nas sondagens, Marcelo sabe que há uma direita que não lhe perdoa a empatia com Costa (Helena Matos escreveu, no “Observador”, que a direita vai ter de decidir se o deixa cair) e nunca irá descurar a relação com a sua família política. Se o seu sonho é repetir a reeleição esmagadora de Mário Soares, garantir o apoio do PS só interessa se for para somar ao intocável apoio do PSD e do CDS.