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Política

Cravo na mão ou na lapela?

Marcos Borga

No primeiro 25 de abril em Belém, Marcelo festejou de cravo na mão. Este ano, com eleições, o discurso do PR será inócuo

Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio usaram sempre a flor-símbolo da revolução na lapela do casaco. Cavaco Silva, o único Presidente oriundo de um partido do centro-direita, nunca usou cravo. E Marcelo Rebelo de Sousa encontrou um meio caminho. Há um ano, entrou na Assembleia da República para as comemorações oficiais do 25 de Abril de cravo na mão. Belém, que no ano passado explicou a solução encontrada por Marcelo como “o modelo de um PR de centro”, diz que, este ano, o Presidente ainda não disse como vai fazer.

O discurso, já se sabe que será politicamente inócuo. Em ano eleitoral (autárquicas em outubro), o Presidente não quererá deitar achas para a fogueira e já decidiu que levará ao Parlamento um discurso em tom meramente comemorativo e genérico. Nos anos seguintes não é certo que faça muito diferente, porque, ao contrário dos seus antecessores, Marcelo acha que os grandes discursos políticos não devem ser misturados com cerimónias ou datas comemorativas . Mas este ano, por maioria de razões, não é expectável que o PR lance novos temas ou deixe grandes recados políticos a quem quer que seja.

Valorizar a democracia e os valores da liberdade, isso sim. Foi, aliás, o que Marcelo fez na Associação 25 de abril, que esta semana visitou para participar no lançamento de um livro e onde, na presença de Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e outros capitães de abril, lembrou que a democracia é uma construção que “nunca está acabada” e que na afirmação da democracia, ao contrário do futebol, “empatar é perder”.

Há um ano, no discurso na AR, Marcelo já tinha lembrado isso mesmo, quando disse que “o saldo [dos anos pós-25 de Abril] é claramente positivo (é injusto negar o que todos devemos ao 25 de Abril de 74), para quem tiver a memória dos anos 70. Mas pode começar a ser preocupantemente descoroçoante para quem só se lembrar dos anos 90 e da viragem do século”. O PR considerou, aliás, “míope negar as desilusões, as indignações, as frustrações com a qualidade da democracia, a debilidade do crescimento, a insuficiência do emprego, o aumento das desigualdades, a persistência significativa da pobreza”. Um parágrafo que facilmente revisitará.

Em 2016, o PR também deixou três perguntas e três respostas sobre o futuro: se iríamos prosseguir (dado o clima de alta tensão política) em campanha eleitoral? Se os consensos sectoriais de regime seriam impossíveis? E se a unidade essencial entre os portugueses estaria em causa? Marcelo respondeu “não” às três perguntas. Mas numa coisa enganou-se: os consensos sectoriais de regime não apareceram.