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Sousa Pinto: Costa alcançou “o improvável”

Alberto Frias

Socialistas destacam papel do PCP e do BE no controlo da despesa pública

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Não foi só à direita que os resultados alcançados pelo Governo na redução do défice e no controlo das contas públicas suscitaram alguns sinais de admissão de que, afinal, a atual maioria de esquerda poderia funcionar. “O Governo, com o PCP e o BE, conseguiu trazer o défice para níveis históricos, o que era difícil de conceber num quadro político destes”, reconhece também o deputado do PS, Sérgio Sousa Pinto.

O socialista que se demitiu do secretariado do partido em finais de 2015 — em protesto contra a decisão de António Costa fazer a ‘geringonça’, que Sousa Pinto chegou a rotular, no seu Facebook, como uma “barafunda suicidária, sem programa nem destino certo” —, elogia agora o primeiro-ministro por ter conseguido que BE, PCP e PEV o “secundassem” nas metas de redução do défice e na trajetória de sustentabilidade das contas públicas (1% de défice já para o ano). “Era improvável”, analisa agora à distância.

Sousa Pinto recorda que a sua principal objeção à génese da atual solução de Governo era o facto de ela ter “retirado o poder ao ganhador legítimo [o PSD]” nas legislativas de 2015. Mas admite agora que “dificilmente a direita teria tido as condições políticas para alcançar” as metas atingidas pelo executivo liderado por Costa. Isto porque, por exemplo, um eventual Governo minoritário de direita “não teria a paz social que PCP e BE asseguraram” nos primeiros dois anos de legislatura.

O “drama do segundo álbum”

O trajeto que Sousa Pinto agora qualifica como “improvável” à partida tem suscitado várias análises sobre o futuro que estará reservado a esta solução de Governo. Ainda há margem para chegar ao fim da legislatura? Serão possíveis novos acordos de esquerda numa legislatura seguinte? Dúvidas que levam o analista político Pedro Adão e Silva a fazer uma comparação com o universo musical.

“O que se está a passar agora é uma espécie de crise de sucesso, como a que sofrem as bandas que lançam um primeiro álbum muito bom e depois têm de lançar um segundo álbum, onde é difícil repetir o sucesso”, ironiza o ex-dirigente socialista e próximo de António Costa.

Convicto de que nem PS, nem BE, nem PCP terão interesse, neste momento, em forçar o fim da ‘geringonça’ — por ser algo difícil de justificar junto dos respetivos eleitorados —, Adão e Silva rejeita também as interpretações de que bloquistas ou comunistas estejam a colocar-se na posição de partidos que cederam ao PS. “Os ganhos de causa que PCP e BE têm tido não são assim tão violentadores”, constata, apontando exemplos como a recente ‘vitória’ dos partidos na questão das carreiras contributivas mais longas.

A esse propósito, de resto, o ex-dirigente sublinha que muitas das reivindicações que são debatidas na opinião pública “não são só do BE e do PCP, mas também do PS, são partilhadas”. Por isso, acrescenta, se as coisas eventualmente correrem mal nos atuais entendimentos na maioria de esquerda isso ocorrerá “pelo ponto de vista político”, mas sim por contingências “do ponto de vista económico e financeiro” e da capacidade de garantir que continua a haver margem para acomodar no orçamento todos os pressupostos dos acordos.