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“É uma sensação de abandono impressionante. O que é que eu faço?”

Artur Pinto, 75 anos, fundador do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória, é o quinto e último testemunho que publicamos esta semana sobre oposicionistas enviados para os “curros”, ou “segredo”, como as celas de isolamento também eram conhecidas. Durante dois meses, viveu, sozinho, dia e noite, num paralelepípedo de dois metros por um, onde a luz não entrava

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

“Dois passos para a frente. Dois passos para trás. Para os lados nem um!” Ao longo de dois meses, Artur Pinto, estudante de Direito em Lisboa, viveu concentrado neste movimento, confinado a um paralelepípedo onde não entrava luz. “As pessoas têm dificuldade em perceber o que são dois metros por um.”

Artur Pinto foi detido a 21 de janeiro de 1965 e enviado para a prisão do Aljube. Encerrado num “curro”. Na noite anterior à visita da Pide tinha estado numa reunião da célula do PCP a que pertencia. A Pide fez-lhe uma visita pela madrugada e não foi preciso muito esforço para encontrar matéria proibida. O último “Militante”, jornal que só circulava dentro do partido, ainda estava em cima da mesa de cabeceira. Havia sido denunciado por um militante do partido, que “já devia trabalhar para a Pide há pelo menos um ano, um infiltrado que denunciou mais de cem nomes e entregou vários documentos”. Nos papéis ia um relatório feito por Artur Pinto.

Fechado, como nunca antes tinha imaginado que poderia acontecer, o jovem estudante viu-se confrontado com ele próprio, com os interrogatórios, com o jogo entre o Pide bom e o Pide mau, e, sobretudo, com um sem fim de questões: “A cabeça anda num corrupio. Será que fui denunciado? Como estão os meus pais? Como está a minha namorada? Será que também foi presa?”.

antónio pedro ferreira

No curro tentou comunicar em morse, batendo com os dedos nas paredes, como tinha aprendido nas suas reuniões clandestinas, e rapidamente se apercebeu da dificuldade em dizer o seu nome: “Seguindo a ordem do alfabeto, em que a letra A é uma pancada, duas a B, três a C, e por aí fora até ao Z...”

Ao fim de uma semana soube que não era o único detido da sua célula. Durante uma visita dos pais, a mãe disse-lhe, subtilmente: “Os teus amigos não têm telefonado.” Até porque as conversas que fossem além de coisas banais como o tempo eram sinal de fim de visita.

Apesar de sentir que a memória não consegue ser clara em relação a várias situações pelas quais passou no Aljube, Artur Pinto, já reformado de uma carreira ligada à publicidade, recorda muitos pormenores desses dois meses e até resolveu começar a descrevê-los em crónicas que tem vindo a publicar no Facebook. “Foram dois meses que me marcaram profundamente. Honestamente, não sei se me marcou mais esse isolamento, essa angústia que se vive em permanência, se a tortura do sono. Do ponto de vista físico a tortura do sono marca durante muito tempo, mas do ponto de vista emocional, psicológico, são os curros... Aquela imensa solidão. Não sabermos nada. Não vermos nada. Só olharmos para paredes... É uma sensação de abandono impressionante. O que é que eu faço?”

Voltar ao que passou na cadeia é uma forma de lembrar coisas para as quais considera que nunca se fez, de facto, justiça. Artur Pinto acabou por afastar-se lentamente do Partido Comunista, mas não da política. É um dos fundadores do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória.

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    Dos métodos que a polícia política da ditadura usava para vergar os presos (espancamentos, privação do sono, etc.), o isolamento foi uma arma sofisticada. A colocação na “solitária”, por vezes durante muitas semanas, pretendia quebrar o preso político entregando-o a si próprio, obrigando-o a uma luta com os seus pensamentos, as suas capacidades de autodomínio, os medos inconfessados. Iniciamos esta segunda-feira uma série de testemunhos de cinco personalidades que passaram pelas cadeias da Pide e que estiveram confinados à solitária, o chamado ‘curro’, ou ‘segredo’. O primeiro é de Maria José Morgado, magistrada do Ministério Público, detida aos 19 anos, num dia “cheio de sol” de outubro de 1973