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Marcelo: “Mário Soares foi o maior e o melhor de todos”

Marcos Borga

Grátis com o Expresso a partir deste sábado: “Portugal Amordaçado”, o livro de Mário Soares reeditado

Mário Soares, no final da sua vida, manifestou a intenção de reeditar “Portugal Amordaçado”. O livro havia sido publicado há mais de 40 anos e encontrava-se esgotado. O Expresso cumpre agora esse desejo, oferecendo a todos os seus leitores, ao longo de sete semanas, uma obra que se pode considerar fundadora da democracia em Portugal. Para o autor era claro que a reedição devia ser complementada por um prefácio que oferecesse contextualização. Neste relançamento, para esse efeito, colaboraram Alfredo Barroso, José Manuel dos Santos, Clara Ferreira Alves, João e Isabel Soares, José Pedro Castanheira, António Costa Pinto e Henrique Monteiro, que assinam textos introdutórios em cada um dos volumes. “Portugal Amordaçado” foi originalmente, e numa versão resumida, publicado em França, em 1972, pela editora Calman-Lévy, de Alain Oulman, autor de alguns dos mais famosos fados de Amália. Chegaria a Portugal, já depois do 25 de Abril, para ser finalmente publicado pela Arcádia, em outubro. Nele se plasmavam três princípios — a democracia parlamentar, a descolonização e a adesão à Europa — que marcariam definitivamente o nosso país.

No lançamento da reedição da obra “Portugal Amordaçado”, que o Expresso oferece a partir de hoje, foi relembrado o papel de Mário Soares na luta pela liberdade em Portugal. O evento encheu o auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, terça-feira. “É a mais importante e mais significativa homenagem que se podia fazer ao meu pai”, disse o filho, João Soares.

A obra, central no pensamento político de Mário Soares, foi dividida em sete volumes e a reedição, feita em parceria com a Fundação Mário Soares, será oferecida pelo Expresso a partir de hoje. “Os traços de caráter do nosso pai estão retratados aqui como em nenhum outro texto”, resume o filho. Além dos filhos, João Soares e Isabel Soares, também Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, e Francisco Pinto Balsemão, fundador do Expresso e presidente do grupo Impresa, foram oradores no lançamento desta reedição. O livro faz um retrato dos tempos da ditadura do Estado Novo e só foi editado em Portugal em 1974, alguns meses depois do 25 de Abril.

Recordando o papel de Soares no combate pela democracia, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que “a causa da vida” de Soares foi a luta pela liberdade. “Nenhum outro o igualou na luta pela causa da liberdade e pela construção da democracia. Por isso, ele foi o maior e melhor de todos.” Marcelo disse que a sua presença no lançamento se fazia numa “tripla qualidade”: como cidadão, como “estudioso e analista da realidade política” e como Presidente da República.

Considerando que o legado de Soares “é demasiado grande para não ser lembrado”, o presidente da Assembleia da República considerou que a reedição deste livro é uma “iniciativa de serviço público”. Ferro Rodrigues lembrou três grandes pilares da vida política de Soares: a democracia, a Europa e a abertura ao mundo. “Se houve coisa que Soares nos ensinou foi a lutar sempre por aquilo em que acreditamos.” Recordando o fundador do PS, Ferro lembrou ainda a “tolerância democrática” de Soares.

Para a filha, Isabel Soares, o livro do pai é um “importantíssimo testemunho”. “É um retrato simples mas exato do que era a vida sem liberdade”, resumiu. “É urgente mostrá-lo aos jovens para que estes tempos não mais se repitam.” “A história do livro confunde-se com a nossa adolescência”, relembrou ainda Isabel Soares. Também João Soares lembrou que o livro começou a ser escrito em São Tomé, num contexto muito diferente dos dias de hoje, considerando-o “uma das marcas mais singulares do século XX português”.

O fundador do Expresso, Francisco Pinto Balsemão, lembrou que a iniciativa de reeditar a obra visou “prestar homenagem a Mário Soares e a todos os lutadores pela liberdade”.
Recordando detalhes da sua ligação ao histórico socialista, Balsemão contou que, em 1972, quando a obra foi publicada pela primeira vez em Paris, Mário Soares lhe enviou um exemplar e leu a dedicatória que lhe escreveu. “Ao Dr. Francisco Balsemão – não obstante algumas divergências importantes – com a consideração e a cordialidade de Mário Soares. Paris, 1972.”

António Correia de Campos, presidente do CES, Manuel Alegre, Gomes Canotilho, Carlos Monjardino e Alfredo Barroso foram algumas das personalidades que marcaram presença, além de Jorge Lacão, vice-presidente da Assembleia da República, Carlos César, líder do grupo parlamentar do PS, do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, e do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina..

Ferro Rodrigues, Marcelo Rebelo de Sousa e Francisco Pinto Balsemão
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Ferro Rodrigues, Marcelo Rebelo de Sousa e Francisco Pinto Balsemão

Marcos Borga

Marcelo Rebelo de Sousa e Francisco Pinto Balsemão
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Marcelo Rebelo de Sousa e Francisco Pinto Balsemão

Marcos Borga

Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura; Guilherme de Oliveira Martins, administrador da Gulbenkian; Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa; Artur Santos Silva, presidente da Gulbenkian; Isabel Soares, filha de Mário Soares; Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa e João Soares, filho do homenageado
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Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura; Guilherme de Oliveira Martins, administrador da Gulbenkian; Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa; Artur Santos Silva, presidente da Gulbenkian; Isabel Soares, filha de Mário Soares; Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa e João Soares, filho do homenageado

Marcos Borga

Manuel Alegre com João Soares
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Manuel Alegre com João Soares

Marcos Borga

Isabel Mota, Carlos César, Fernando Medina (na 1ª fila), Alfredo Barroso (2ª fila), Carlos Monjardino (4ª fila)
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Isabel Mota, Carlos César, Fernando Medina (na 1ª fila), Alfredo Barroso (2ª fila), Carlos Monjardino (4ª fila)

Marcos Borga

Memórias de “um político sem medo”

Fernando Henrique Cardoso, ex-Presidente do Brasil

Fernando Henrique Cardoso, ex-Presidente do Brasil

Nuno Botelho

Entrevista por Luísa Meireles

Mário Soares e o ex-Presidente do Brasil foram amigos tanto tempo que Fernando Henrique Cardoso nem se lembra de quando, nem onde, nem como o conheceu. “Foi uma vida”, disse. Considera que Soares era um político “vital”, que acreditava nas coisas e estava sempre a tentar renovar. FHC, como é mais conhecido, esteve em Portugal para fazer a conferência inaugural no V Seminário Luso-brasileiro de Direito (Constituição e Governança).

Era muito amigo de Mário Soares, como o conheceu?
Foi um amigo de tanto tempo que nem me lembro onde o conheci, talvez em Paris, onde estive exilado nos anos sessenta. Sei que já o conhecia antes da Revolução dos Cravos, porque me lembro que ele foi ao Brasil antes de 1974. Foi até curioso. Eu tinha feito uma palestra no Dia da República de Portugal, a 5 de Outubro, num grupo português, num bairro popular de São Paulo. Disse-lhes que eles eram um exemplo de resistência, visto que lutavam contra o regime, apesar de não se ver luz no horizonte. Quando o Mário chegou, veio com boas novas, fez uma intervenção e disse que Portugal ia mudar, coisa de que duvidámos. Mas a verdade é que mudou. Fomos sempre muito amigos e de cada vez que vim a Portugal estive com ele e D. Maria de Jesus, fui ao aniversário dos seus 90 anos e discursei. Até andei com ele em campanha quando foi candidato à presidência da República.

Como o via?
Ele era uma pessoa vital, um político que tinha posição, ao contrário de muitos agora. E não tinha medo. Quando eu era Presidente do Brasil, ele foi lá, ao Fórum Social de Portalegre, e estava muito danado. Fomos amigos a vida inteira e sempre tive grande admiração por ele. Foi favorável a acabar com a colonização, era um democrata, apresentou-me Olof Palme, o líder social-democrata sueco que foi assassinado; lembro-me que até tomámos os três juntos o café da manhã num hotel em Madrid. Foi com ele também que conheci Willy Brandt, na Alemanha, e fomos a uma reunião da Internacional Socialista no Chile. Enfim, tive uma longa relação com ele.

Como o recorda?
Comigo era perfeito. Sempre muito gentil, no estilo dele. Dizia as coisas em que acreditava de modo direto, mas sempre amigo. Era amigo do Lula também. Recordo-o como uma pessoa de valor, com ideias, sempre renovando, interessado em fazer avançar as coisas. Não gostava muito da chamada “Terceira Via” porque ele era socialista ligado aos alemães e franceses. Desconfiava de Tony Blair.

E o senhor?
Eu nunca fui tão próximo de Blair, os meus amigos eram Lionel Jospin (ex-Primeiro-ministro e líder socialista francês), Mário Soares. Nunca fui amigo de Willy Brandt. Sou, sim, de Hillary e Bill Clinton e nessa época quem tinha influência era Hillary, era mais ligada intelectualmente a Tony Blair. Foi interessante ver como se renovava o Labour na Inglaterra. O Mário tinha uma visão do socialismo mais pré-globalização, que manteve até ao fim da vida. Com a globalização muita gente ficou confusa, acreditando que ela é uma ideologia, mas não é, é um modo de produção e de como se organiza o mundo. Queiramos ou não, é assim. E temos que ver como se domina essa fera, visto que há problemas enormes. A produção contemporânea aumenta a produtividade, concentra a renda e não dá emprego.

E acentua as desigualdades...
Sim, mas reduz a pobreza. Nunca a pobreza diminuiu tanto no mundo como nestes últimos tempos. É complicado entender estes processos e penso que o Mário tinha uma visão mais em bloco contra. Mas foi mudando de posição. A certa altura, em Portugal, teve de fazer um acordo com o Fundo Monetário Internacional, tal como eu também fiz. Não é uma questão ideológica. São precisos recursos, faz-se o quê? Mas ele era um homem que acreditava, que tinha crença. Numa certa altura da vida, foi até uma espécie de “imperador” de Portugal, no bom sentido, acima do bem e do mal. Lembro-me disso porque estive com ele uma vez em Coimbra, numa das suas presidências abertas. Ele era o símbolo da democracia em Portugal, mas ao mesmo tempo era um lutador, continuava brigando. Sempre tive admiração por ele.

Era um exemplo...
Sem dúvida, até escrevemos um livro juntos, “Diálogo em português” (Gradiva, 1998). Foi uma das pessoas que me inspirou bastante. Até o meu instituto (agora Fundação Fernando Henrique Cardoso) foi inspirado na sua Fundação.

1º VOLUME 
22 DE ABRIL, Obra apresentada 
por Alfredo Barroso

1º VOLUME 
22 DE ABRIL, Obra apresentada 
por Alfredo Barroso

2º VOLUME 
29 DE ABRIL, Prefácio 
de José Manuel dos Santos

2º VOLUME 
29 DE ABRIL, Prefácio 
de José Manuel dos Santos

3º VOLUME 
6 DE MAIO, Prefácio 
de Clara Ferreira Alves

3º VOLUME 
6 DE MAIO, Prefácio 
de Clara Ferreira Alves

4º VOLUME 
13 DE MAIO, Prefácio 
de José Pedro Castanheira

4º VOLUME 
13 DE MAIO, Prefácio 
de José Pedro Castanheira

5º VOLUME 
20 DE MAIO, Prefácio 
de Isabel Soares e João Soares

5º VOLUME 
20 DE MAIO, Prefácio 
de Isabel Soares e João Soares

6º VOLUME 
27 DE MAIO, Prefácio 
de António Costa Pinto

6º VOLUME 
27 DE MAIO, Prefácio 
de António Costa Pinto

7º VOLUME 
3 DE JUNHO, Prefácio 
de Henrique Monteiro 
e Cronologia 
de Paulo Paixão

7º VOLUME 
3 DE JUNHO, Prefácio 
de Henrique Monteiro 
e Cronologia 
de Paulo Paixão