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“O livro do meu pai é incontornável.” João Soares conta como “Portugal Amordaçado” foi escrito

Foto Marcos Borga

O filho de Mário Soares fala sobre o tempo de escrita de “Portugal Amordaçado”, o livro que o grande socialista escreveu entre 1968 e 1971 sobre a realidade da ditadura de Salazar, e que o Expresso vai oferecer aos seus leitores a partir deste sábado

A anteceder a apresentação, esta terça-feira, da reedição de “Portugal Amordaçado”, na Fundação Gulbenkian, numa iniciativa do Expresso e da Fundação Mário Soares, o filho do estadista conversou connosco sobre a importância da obra e sobre os condicionamentos que o pai sofreu enquanto a escreveu.

Que lembrança tem do tempo de escrita de “Portugal Amordaçado”?
Tenho uma memória quase sempre agradável do meu pai. E assim foi também quando ele começou a escrever o livro ainda em São Tomé, bastante jovem, com quarenta e poucos anos.

Era um momento de recato para ele e para vocês?
O meu pai era um homem da escrita manual, isolava-se quando tinha que escrever alguma coisa. Mas, por exemplo, em São Tomé, as condições logísticas eram muito limitadas. Vivíamos numa casinha com um quarto que era para ele e para a minha mãe enquanto lá estivemos os quatro, depois havia duas camas, uma montada na sala, onde dormia a minha irmã, e outra no corredor, onde ficava eu. Não eram por isso possíveis grandes privacidades. Ele trabalhava à mesa, a casa tinha uma varanda e o clima era equatorial...

Já nessa altura ele tinha ideia do que estava a escrever?
Disse sempre que estava a esboçar uma série de coisas. O livro começou a ser escrito lá e não foi só depois da queda do Salazar, começou a ser escrito assim que ele chegou a S. Tomé. Ele era um homem que não tinha nenhum problema de angústias em relação ao seu tempo. Ele definia-se a si próprio tarefas e era um tipo muito trabalhador. Muito trabalhador e muito arrumado. Estamos a falar de uma época que era completamente diferente de hoje. Não havia computadores e mesmo máquina de escrever era uma coisa a que ele avesso, embora eu ache que ele depois tenha escrito uma parte na máquina de escrever, sem a possibilidade de voltar atrás, sem deletes ou copy+pastes. Se errava numa coisa, tinha que voltar para trás e escrever uma página inteira do início se fosse preciso.

Esperava que o livro tivesse tanto sucesso como teve?
Quando o livro saiu, em 1972, já estava efetivamente condenado a ter sucesso. É óbvio.

Não foi portanto uma surpresa?
“Portugal Amordaçado” é o livro mais importante sobre aquela época e de certa forma um livro único. Um documento de ataque ao regime que ao mesmo tempo conta a história do século XX português e é um livro autobiográfico escrito por um dos seus principais intervenientes não há mais. Existem apenas livros de memórias mas pontuais. Álvaro Cunhal nunca escreveu nada neste registo, apesar de ter escrito documentos políticos muito importantes. E o próprio Salazar também não escreve. O livro do meu pai é absolutamente incontornável e continua a ser atual, que é o mais espantoso. É um livro feito sem nenhum temor da polícia, embora escrito ainda com as precauções que era preciso ter por via da existência da polícia política. Sai em 1972 mas foi feito antes dessa data, começa em 1968 e vai até 1971. Portanto, há ali muita coisa que ainda não pode ser contada.

Como o quê?
O caso de pessoas do PC que desapareceram e foram eliminadas, por exemplo, mas muito mais.