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Costa protege Centeno no Eurogrupo

José Caria

“Assuntos diversos” justificaram falta do ministro à reunião. Portugal corria o risco de ficar isolado contra Dijsselbloem

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

O ministro das Finanças português não é para já uma alternativa à presidência do Eurogrupo, a cuja última reunião, de cariz informal, não compareceu. Se, tal como disse o primeiro-ministro no debate quinzenal, a discussão sobre esse assunto “não era feita ali, nem naquelas circunstâncias”, também é verdade que se Portugal tivesse apresentado um pedido de demissão do holandês Jeroen Dijsselbloem corria o risco de ficar isolado ou em minoria no grupo.

As conhecidas declarações sobre “copos e mulheres” chocaram muitos membros do restrito “clube” dos ministros das Finanças do euro, mas não o suficiente para provocar a sua demissão imediata. “Ninguém quer abrir mais uma frente de desestabilização, e ainda por cima quando se fala do complicado programa de auxílio à Grécia, entre os muitos problemas da Europa” ouviu o Expresso de fonte europeia.

Ao que apurou este jornal, o ministro alemão Wolfgang Schäuble, aliado de primeira hora de Dijsselbloem, terá mesmo ficado muito aborrecido durante a última reunião do Eurogrupo e questionado o seu homólogo espanhol, De Guindos (da mesma família política), sobre a razão dos protestos.

O assunto pode, pois, ter ficado arrumado para já, como Dijsselbloem deu a entender na conferência de imprensa final, mas há de voltar-se a ele mais tarde. Apesar do apoio que goza da parte de Schäuble e de outros ministros dos países do Norte, a permanência ou não de Dijsselbloem à frente do Eurogrupo vai colocar-se de qualquer maneira: ou se for formado um novo Governo na Holanda que não inclua o seu partido (ou ele próprio) e/ou quando terminar oficialmente o seu mandato, em janeiro de 2018.

É para essa altura que António Costa está a colocar as peças do xadrez. Entretanto, ocorrerão as eleições na Alemanha e, tal como o PM já disse, “haverá que esperar até lá”. Portugal marcou o seu ponto ao pedir a demissão e acumulou capital de queixa para o futuro. Internamente, Costa conseguiu fazer o consenso nacional, enquanto se reforçou entre os seus parceiros socialistas.

No imediato, o Governo quer garantir que Dijsselbloem não se perpetue no cargo, enquanto prepara o terreno para que, numa previsível mudança de regras no Eurogrupo, estas acabem por favorecer as pretensões de uma alteração de políticas... e de nomes. A descredibilização do holandês, cuja cabeça foi pedida pela família europeia dos socialistas e dos populares, tornarão a sua reeleição mais difícil.

Entre os meios socialistas em Bruxelas, assume-se que este não era o momento para pedir a demissão. “Para quem pretende que no Eurogrupo haja uma alteração de perspetiva política, é fundamental que o timing da demissão de Dijsselbloem seja adequado, para que possa ser substituído por alguém que tenha uma perspetiva diferente”, disse ao Expresso Carlos Zorrinho, presidente da delegação dos eurodeputados portugueses.

Talvez por isso a opção tenha sido a de ir a Malta o secretário de Estado, com a intenção, divulgada pela manhã numa entrevista ao site Politico.eu, de exigir um pedido de desculpas a Dijsselbloem. Centeno ficou em Lisboa, até porque, como se disse na justificação oficial, prendiam-no na capital “assuntos diversos para tratar” — os trabalhos finais do Programa de Estabilidade e Plano Nacional de Reformas, entre outros.

Presidente pode vir a não ser um ministro

Na Assembleia, a questão sobre a ausência de um pedido de demissão, anteriormente aprovado por unanimidade no Parlamento, foi colocada diretamente pela oposição, que questionou o primeiro-ministro pela omissão. A bancada do PSD classificou as palavras de Mourinho Félix como “um número” e todo o processo como “uma palhaçada”.

“Quando chegar o momento”, respondeu Costa, “lá estaremos para fazer o que é necessário fazer.” O Protocolo 14, que rege o funcionamento do Eurogrupo, refere apenas, quanto ao seu presidente, que “os ministros dos Estados-membros cuja moeda seja o euro elegem um presidente por dois anos e meio, por maioria desses Estados-membros”. Dijsselbloem sublinhou que o texto não refere que o presidente tem de ser um entre eles.

“O risco sério é que haja uma inovação institucional no Eurogrupo, que permita que a sua presidência seja ocupada por alguém que não seja membro do organismo”, disse ao Expresso fonte conhecedora do processo. “Seria o nível 10 da escala de Richter”, ironizou António Vitorino. Tal possibilidade abriria a porta para que outros pudessem ocupar o cargo. E se Costa nunca se mostrou preocupado com o facto de um ministro de outra família política que não a sua ocupar o cargo (sempre deu o apoio explícito ao espanhol De Guindos), já vê com bons olhos que, caso não seja um ministro das Finanças em exercício, haja uma redistribuição de pelouros na Comissão e o comissário socialista Pierre Moscovici acumule a função. Para tanto, seria preciso uma revisão global da estrutura do próprio Eurogrupo

Nada é ainda claro. E as peças apenas agora começaram a mover-se. Enquanto no Governo alemão se mantiver Schäuble, nada deverá alterar-se. E, mesmo depois, há que ver. Elogiosamente para Centeno, este era referido ontem no jornal italiano “La Repubblica” como ocupando a pole position para substituir Dijsselbloem.