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O regresso de Alberto João Jardim ao combate

Gregório Cunha

Livro de memórias políticas do ex-líder do PSD-Madeira é posto hoje à venda. Com elogios a Cunhal, críticas a Passos e uma história sobre “copus night”

Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Durante praticamente quatro décadas, Alberto João Jardim foi o ‘rei’ da Madeira. Líder incontestado, recordista de maiorias absolutas, governou e comandou o PSD local e o arquipélago com mão de ferro e um estilo truculento que se tornou inconfundível. Agora, dois anos depois de deixar o poder, volta, com as suas memórias políticas. Já não está no poder, já não manda na região, mas o estilo é o mesmo. Basta ver o título do livro, “Relatório de Combate”. A obra começa com o 25 de Abril, merecendo o período anterior uma breve e discreta referência — “cheguei, aos 18 anos, a fazer um discurso numa celebração salazarista”. Apesar de o livro passar ao lado de marcas essenciais do que foi a governação na Madeira nestes 40 anos, como o clima de asfixia sobre as oposições ou a permanente confusão entre política e negócios, não deixa de ser um contributo muito útil, ao apresentar a visão de um protagonista central da vida política portuguesa neste período. Eis alguns dos principais excertos.

NEGOCIAÇÃO COM A MULHER

A tomada do poder na Madeira, em 1978, foi polémica em casa: “Tive de lhe dizer que, mais uma vez, ia responder positivamente e em consciência ao que o partido e a Região me solicitavam. E acrescentei que, se nos dois anos e meio de mandato que faltavam, nada me obrigasse a continuar, ficaria por ali. Minha mulher respondeu satiricamente: ‘Vais pôr isso por escrito e assinar.’ Respondi-lhe também com humor que o meu avô, tenente Domingos Cardoso, em companhia de quem vivi antes e depois de ter perdido meu pai aos 11 anos de idade, dizia: ‘Nunca se assina seja o que for.’ E que eu, ao menos, o casamento tinha assinado. E com estas piadas amargas, lá encerrámos o assunto.

ÁLVARO CUNHAL

“Conheci pessoalmente o dr. Álvaro Cunhal no Conselho de Estado criado pela revisão constitucional de 1982. Vestido sempre impecavelmente com fato escuro protocolar, Mota Amaral e eu gostávamos de falar com ele quando do coffee-break das reuniões, pois era uma pessoa interessantíssima, culta, muito bem-educada, a revelar a sua ‘origem de classe’ na alta burguesia. Curiosamente, nesses intervalos, isolava-se num canto da sala, observando. Os membros do Conselho mais à ‘esquerda’ não se lhe aproximavam muito, mas recebia-nos muito bem, ao João Bosco e a mim. Tinha um certo espírito de humor, mas era sempre formal na conversa (embora eu me metesse com ele, por num seu livro me tratar por ‘líder reacionário’).”

SÁ CARNEIRO

“Na última vez que estive com Francisco Sá Carneiro, jantávamos os dois casais na Zona Velha, onde ele tanto apreciava ir. Sá Carneiro teimava que se demitiria de primeiro-ministro, caso Eanes vencesse as eleições presidenciais. Eu manifestava-lhe a minha radical oposição, pois não reconhecia qualquer argumento convincente que tal justificasse; uma coisa nada tinha que ver com outra. Fiquei preocupado, porque sabia quão determinado era Sá Carneiro. Então disparei: ‘E, se você sair, quem vai para primeiro-ministro da AD?’ ‘Cavaco ou Eurico’, respondeu.”

BALSEMÃO

Estávamos no início dos anos 80: “Balsemão queixava-se muito de Marcelo Rebelo de Sousa, era este ainda jornalista no Expresso. E, mesmo no Governo, estava sempre de olho nele. Um dia, perguntei ao primeiro-ministro por que razão tinha Marcelo no Governo, já que tanto se queixava dele. Respondeu-me que ainda era a melhor maneira de o ter controlado!…”

CAVACO SILVA
No famoso congresso do PSD da Figueira da Foz: “Se não me engano era a tarde do segundo dia, presidia eu. Cavaco Silva, porque tinha um tempo de intervenção muito curto, não conseguiu explicar muito bem a sua tese, mormente no tocante à candidatura de Freitas do Amaral, a que era favorável, para federalizar o eleitorado à ‘direita’ do PS. Houve vários apupos e discordâncias em som alto. Daí a pouco tempo venho tomar um café e encontro Cavaco Silva, que me diz saber que não tem direito regimental a intervir mais uma vez, mas que gostaria que o congresso percebesse bem a sua proposta, o que estava nas mãos da Mesa. Voltei ao lugar onde presidia, obtive com ‘rapidez democrática’ a aquiescência dos que na altura estavam lá sentados comigo, dois ou três companheiros, e disse para o congresso: ‘O nosso companheiro Cavaco Silva fez aqui uma comunicação importante, mas que parece não ter ficado bem esclarecida. Como em consciência me parece importantíssimo que o Professor clarifique as suas propostas, embora o regulamento do congresso não lhe permita uma segunda intervenção, dadas as circunstâncias vou abrir uma exceção, se ninguém se opõe...’ Deixo passar dois ou três segundos que me pareceram uma eternidade e avanço: ‘Já que ninguém discorda, tem a palavra o companheiro Aníbal Cavaco Silva.’”

COPUS NIGHT!

Anos mais tarde, com Cavaco como PM: “Uma das coisas que os ‘pequenos’ que queriam mostrar serviço a Cavaco Silva envenenavam contra mim era a ‘estória’ de eu me divertir à grande nas noites de Lisboa. Inventaram que, sendo Mota Amaral da Opus Dei, eu seria do... ‘copus night’! Cavaco Silva olhou desconfiado para mim, mas lá veio a água, explicando-lhe eu a razão de tal pedido. Começámos a trabalhar, mas de repente o primeiro-ministro interrompe e dispara-me de chofre: ‘Veio só a Lisboa, ou a sua mulher também veio?’ Respondi-lhe que estava só, ao que ele corta: ‘Então, andou na farra!’ E continuámos ao que estávamos.”

MÁRIO SOARES

No final dos anos 70, com Soares como PM: “As reuniões prolongaram-se por muitas horas, sob difícil tempo de ‘capacete’. À tarde, o dr. Soares parecia dormir a sesta, enquanto os trabalhos decorriam. Quem liderava por parte da República era o brilhante dr. Almeida Santos, pessoa que eu muito estimava e considerava — foi decisivo na instalação da Zona Franca —, pelo que a discussão era difícil, não se chegava a qualquer consenso. O ministro do CDS, Rui Pena, então era o mais intransigente, ao ponto de ter sido chamado à atenção pelo seu próprio primeiro-ministro. Quando o dr. Mário Soares pareceu despertar, começou logo a escrever. Eu disse devagar para o meu lado, ao dr. Nélio Mendonça: ‘O que será que ele está para ali a redigir?...’ ‘Vai ver que é o comunicado final, mesmo sem haver conclusão alguma’, respondeu baixinho o dr. Nélio. Dito e feito. O dr. Mário Soares interrompe a reunião: ‘Tenho aqui uma coisa, não sei se concordam...’ E desata a ler o tal ‘comunicado final’.

PRESIDÊNCIAS ABERTAS

“Eu, quando vi o caminho que essas ‘presidências abertas’ percorriam —razão por que, outra vez contra o PSD nacional, não apoiei a recandidatura de Mário Soares —, nunca convidei o Presidente da República a fazer um programa desses na região autónoma, ao contrário do que fizeram os Açores. O dr. Mário Soares, de resto, percebeu. E até disse ironicamente ao então secretário de Estado Correia de Jesus, que o acompanhava numa viagem ao estrangeiro: ‘Veja lá se o Jardim caiu nessa de uma presidência aberta na Madeira!...’”

JORGE SAMPAIO

“Na generalidade, eu considerava positiva a primeira presidência do dr. Jorge Sampaio e, especificamente, também em relação à Madeira. Por isso, não o afrontei nestas eleições, embora apoiando e estando lado a lado com Ferreira do Amaral. Isto mesmo expliquei ao dr. Jorge Sampaio, em encontro cordial quando ele veio em campanha eleitoral à Madeira e teve a gentileza de me receber.”

O CONGRESSO DE 94

“Eu sabia que Durão Barroso e Pedro Santana Lopes não se falavam, como percecionava que, com o triunfo do nogueirismo, o PSD nacional perderia as eleições e a Madeira enfrentaria Guterres como primeiro-ministro. Fui ter com Barroso, de quem era número dois na lista, e disse-lhe: ‘Sei que você não se dá com o Pedro Santana Lopes. Mas aceita falar com ele, se eu fizer uma diligência que tal propicie?’ Aquiesceu e eu levei o Pedro atrás do pano do palco e disse-lhe: ‘Você de certeza que já percebeu o que vai acontecer ao partido, interna e eleitoralmente, se o Nogueira ganhar. Em nome dos nossos ideais comuns, aceita que eu traga aqui o Durão para falarem e fazerem um acordo que evite a vitória daquela gente que suporta o Nogueira?’ Pedro Santana Lopes concordou e pareceu-me que tinha compreendido ser necessário reunir votos. Fui buscar Durão Barroso, cheguei atrás do pano do palco e disse-lhes: ‘Agora entendam-se para bem do país e do partido. Deixo-vos a sós.’ Do outro lado do palco, vi Nogueira, à pressa, espreitar esta cena.”

MARCELO

O período de Marcelo na presidência do PSD: “Marcelo é uma pessoa muito exigente, além de ter uma comprovadíssima inteligência. Tínhamos de estar 24 horas de serviço. Eu devia atenções a Marcelo, que de resto tem a primazia intelectual, cultural e humana que se lhe reconhece.”

PASSOS COELHO

Sobre o período da governação, Jardim fala em “genocídio social”, mas as críticas a Passos vêm de longe: “Em março de 1990, Miguel Albuquerque assume a presidência da Juventude Social Democrata (JSD) da Madeira. Já nessa altura eu não atinava com o ‘político profissional’ que era o presidente nacional da JSD, Pedro Passos Coelho.” (...) “Ao fim dos meus mais de 40 anos de liderança do partido e de 46 vitórias, não teve uma única referência pessoal para comigo. Os tempos, depois, a todos elucidaram sobre o carácter desta gente."

SÓCRATES

Relações tensas desde o início do governo PS: “Reúno-me com Sócrates em São Bento, estando presentes Teixeira dos Santos e um chefe de Gabinete lugubremente silencioso. Expliquei-lhes que podiam dar aos Açores e a quem quisessem aquilo que muito bem entendessem, desde que não tocassem no que era da Madeira. Não estávamos de olhos postos no que seria para os outros. Não queríamos era ser extorquidos. Pela antipatia do encontro, percebi logo que era mesmo essa garotice que se preparavam para fazer.”

Artigo publicado na edição do Expresso de 8 de abril de 2017