Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

No PSD Porto “cada um fala por si”

O ambiente de crispação entre vereadores eleitos pelo PSD Porto aumenta, com Andreia Júnior e Amorim Pereira a evidenciarem clivagens

André Manuel Correia

No interior da estrutura do PSD Porto as clivagens estão cada vez mais acentuadas, com os vereadores da estrutura concelhia social-democrata a manifestarem publicamente as suas divergências. As vozes, as opiniões e as perspetivas que lançam sobre as políticas municipais parecem estar desencontradas. Na reunião de executivo autárquico desta terça-feira, mais um episódio fez espoletar a tensão. Os protagonistas foram, novamente, os eleitos municipais Andreia Júnior e Amorim Pereira, a quem o partido retirou, em outubro, a confiança política.

A troca de palavras entre os dois vereadores municipais, ambos sem pelouro atribuído, ocorreu durante o debate sobre o projeto de requalificação para o Bairro Rainha D. Leonor – cujo projeto foi entregue a um promotor privado e com o arranque da empreitada, orçada em 3,5 milhões de euros, previsto para maio.

A suplente social-democrata Andreia Júnior, chamada a participar nesta sessão camarária, para substituir o eleito social-democrata Ricardo Almeida, tomou a palavra para dizer: “A posição do PSD relativamente ao passado [do processo de recuperação do bairro] é conhecida. Foi aqui manifestada a falta de transparência em relação ao concurso público”.

Foram estas as palavras que desagradaram a Amorim Pereira, para quem a intervenção da colega foi um “aparte despropositado”, e o levaram a explicar que “após a dilaceração do sentido unificado dos vereadores, por parte da Comissão Concelhia do PSD, resultou que cada um fala por si”.

Decisão que, defende o vereador, “é vantajosa para a democracia”, por considerar importante que “cada pessoa tenha a sua própria maneira de pensar e não a aliene” em função de objetivos partidários.

“O PSD tem três vereadores”, frisou Amorim Pereira, lembrando que todos têm “opiniões diversificadas” e acrescentou que dois dos eleitos social-democratas “têm apoiado aquilo que é de apoiar e desapoiado aquilo que é de desapoiar”, numa referência a si mesmo e a Ricardo Valente. “A democracia representativa é muito mais importante do que estas questões menores ligadas à vida interna do partido”, afirmou ainda o eleito municipal.

A roupa suja

Em resposta, Andreia Júnior asseverou que não iria “lavar roupa suja” do partido e dos vereadores que o representam. “Há locais próprios para o fazer, nomeadamente nos plenários em que o vereador [Amorim Pereira] nem põe lá os pés”, atirou a primeira suplente da estrutura municipal social-democrata.

“É bastante útil intervir enquanto vereador do PSD, mas depois não usam o cargo” para defender os interesses da lista, “ausentando-se de reuniões, sem fazerem pedidos de substituição, impedindo que companheiros” participem nas sessões camarárias, lembrou Andreia Júnior, numa clara alusão ao episódio verificado a 4 de outubro de 2016.

O mal-estar entre os dois vereadores foi espoletado a 4 de outubro, data em que Amorim Pereira não marcou presença na reunião pública da Câmara Municipal do Porto e não avisou atempadamente os serviços autárquicos para que, em situação de impedimento, pudesse ser substituído.

Para essa sessão camarária estava presente Andreia Júnior, pronta para ocupar o lugar vago, mas acabaria por ser barrada, uma vez que, na manhã em que se realizou a sessão camarária, o vereador social-democrata enviou um ‘e-mail’ ao presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, a dar conhecimento de que iria tentar comparecer. Mais do que isso, Amorim Pereira deixava bem claro que não autorizava a sua substituição. Amorim não apareceu e Andreia Júnior foi impedida de participar no debate, tendo ficado na zona destinada aos munícipes, relegada ao papel de mera espetadora.

Amorim Pereira defendeu-se, alegando que por motivos de saúde não teria comparecido. Vozes dentro do PSD Porto afirmaram, contudo, que o vereador se encontrava fora do país e que ao não ter comunicado antecipadamente a sua ausência teria como único objetivo inviabilizar a participação de Andreia Júnior.

Ainda nesse mesmo dia, o presidente da comissão política do PSD Porto, Miguel Seabra, anunciou a retirada de confiança política a Amorim Pereira, ao salientar em comunicado os “três anos de crescente afastamento e divergência”.

O dirigente da concelhia social-democrata justificou a decisão com o “inaceitável comportamento” do vereador e uma “ausência de lealdade” para com o partido, mostrando-se solidário com Andreia Júnior.

Na reunião desta terça-feira e na sequência da crispação entre os dois vereadores, Rui Moreira interveio para dizer que, “pelos vistos, há dois ou três PSD’s”, acrescentando que cada vereador deve responder “antes de mais nada, pessoalmente, porque foi eleito individualmente”.