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Passos não fecha a porta a coligação pré-eleitoral com o CDS

MANUEL DE ALMEIDA

Apesar do desacordo em Lisboa, nenhum cenário está posto de lado. Líder do PSD acredita em legislativas antecipadas

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

O desentendimento entre PSD e CDS em Lisboa não significa que Pedro Passos Coelho tenha desistido da ideia de uma nova coligação com o CDS antes das próximas legislativas. “Está tudo em aberto”, asseguram ao Expresso fontes da direção social-democrata, que sabem que o presidente do PSD tem por posição de princípio “avaliar sempre as circunstâncias, em matéria de alianças partidárias”.

Passos acredita que a legislatura não vai chegar ao fim (por entender que esta solução governativa será a cada dia mais difícil de manter, com cada um dos partidos de apoio ao PS a reclamar espaço para responder ao seu próprio eleitorado) e está inabalável na sua estratégia: ciente de que o objetivo que traçou para as autárquicas é difícil de atingir (implicaria que o PSD tivesse mais 21 ou 22 Câmaras do que o PS) mas confiante de que o resultado dificilmente será pior do que em 2013 (quando ficaram 40 municípios aquém dos socialistas), prepara-se para se voltar a candidatar à liderança do partido no congresso do próximo ano e ser de novo o rosto do PSD nas legislativas.

Passos Coelho avisou Assunção Cristas de que, se ela avançasse para uma candidatura à Câmara de Lisboa, gorava-se a hipótese de um entendimento entre PSD e CDS para o município, que poderia funcionar como símbolo de um trabalho conjunto rumo às legislativas. O líder social-democrata sugeriu à sua homóloga centrista que aguardasse mais algum tempo (pela resposta de Pedro Santana Lopes, a quem Passos dirigira um convite, por acreditar que seria mesmo o melhor candidato para derrotar Fernando Medina), mas deixou claro que se ela avançasse sozinha o PSD nunca poderia vir a apoiá-la. Sob pena, explicou, de se fazer apenas uma de duas leituras: a de que os sociais-democratas não tinham melhor alternativa; ou a de que estariam a preparar-se para responsabilizar o CDS pelos resultados da eleição. Na conversa, que teve lugar poucos dias antes de a líder centrista anunciar a sua entrada na corrida à Câmara da capital (em meados de setembro), o presidente social-democrata chamou ainda a atenção de Cristas para o facto de os dois partidos poderem ter de voltar a entender-se para formar Governo nas próximas legislativas: “Se for eleita presidente de Câmara não vem para o Governo?”, questionou.

O rumo está definido 
e é para manter

No rumo que tem claramente traçado até às legislativas, aconteçam elas quando acontecerem, Passos faz orelhas moucas às críticas que tem estado a ouvir (em crescendo) no interior do seu próprio partido. Mudar não é opção. Na semana passada, falando no Conselho Nacional (o órgão máximo do partido entre congressos), foi taxativo: “Prefiro receber a crítica de que mudámos pouco do Governo para a oposição por sermos coerentes do que nos apontem o dedo por sermos uns troca-tintas.” Em privado, ao que o Expresso apurou, põe as coisas de outra forma: diz que “fazer o pino” só descredibilizaria o PSD, acrescentando que nem é uma questão de estilo pessoal, pois seria sempre descredibilizador mesmo que o líder do partido fosse outro. Tanto mais que, acredita convictamente, o projeto com que se apresentou (e venceu, não se cansa de lembrar) às eleições de outubro de 2015 “é cada vez mais válido”, e há de chegar o dia em que nem a eficaz máquina de propaganda do Governo será capaz de o continuar a disfarçar.

Os críticos internos lamentam-lhe a falta de propostas mobilizadoras (do país e do partido) e a insistência na receita que aplicou durante os anos em que teve de governar com os olhos da troika sobre os ombros. Passos desvaloriza os “recados”. Dizem os seus mais próximos: “Isto não é nada, comparado com as explicações que ele teve de dar, ao partido e ao eleitorado social-democrata, sobre algumas das opções que fez quando estava no Governo.” É a endurance ganha nesses dias já longínquos que lhe permite encarar de frente os opositores internos e perguntar-lhes: “E qual é a alternativa? É que não lhes conheço nenhuma.” Se é para fazer o mesmo que o Governo faz (que, argumenta, até aqui mais não foi do que condensar, num ano só, as mesmas medidas de devolução de rendimentos que o programa da coligação PSD/CDS previa que se concretizassem faseadamente ao longo da legislatura), não vale a pena. Aos que constatam que o seu discurso continua enclausurado na retórica dos anos da troika (como Pedro Duarte dizia há dias ao Expresso) e a todos os outros (Governo à cabeça) que insistem que as suas políticas governativas foram “além da troika”, devolve: “Sem a troika (isto é, sem o seu apoio financeiro) teria sido muito pior.”

Na sede nacional do PSD reconhece-se a necessidade de fazer acertos na mensagem do líder, que tem ficado nos ouvidos sobretudo pelo persistente negativismo e profecias de que “o diabo” ainda está para vir. O objetivo é que Passos — que tem estado mais na rua, num ritmo de dois ou três eventos por semana, que é para manter e até acelerar daqui para a frente — se foque agora na ideia de que “o país tem de crescer mais”, congratulando-se com os resultados que vão sendo atingidos (ainda esta semana o BdP reviu em alta as previsões de crescimento), mas reforçando a nota de que “era possível melhor”. E que este “melhor” só se consegue se, além de se aproveitar os fundos estruturais (como o Governo está a fazer), se fizerem as reformas que ainda estão por fazer (a nível fiscal — IRC; Segurança Social; relações laborais).