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Política

Calma! O adversário é o outro

As candidatas do PSD 
e do CDS à maior câmara do país dão-se bem e têm um objetivo comum: manter o canal aberto 
a pensar nas legislativas

Tiago Miranda

Nas últimas autárquicas, PSD e CDS perderam 50 mil votos para a abstenção. Teresa Leal Coelho e Assunção Cristas querem recuperá-los sem se atropelarem. Mas há uma segunda corrida na corrida a Lisboa

Enquanto Fernando Medina finge que a guerra não é com ele (o atual presidente só formaliza a recandidatura a Lisboa em cima do verão, o que diz muito sobre a forma como lê as sondagens que o dão vencedor), Teresa Leal Coelho e Assunção Cristas estão no terreno a viver um teste tramado. Não podem assumir que apenas se batem pelo segundo lugar (negá-lo-ão até ao fim); têm de provar, com diagnósticos assertivos e soluções sedutoras, que o seu adversário se chama mesmo Medina; e (difícil!) têm de resistir à tentação de se tornarem a dupla que mais vai medir forças na capital.

Se for verdade que Lisboa está perdida (os estudos de opinião só questionam se o PS segura a maioria absoluta), pelo menos os dois partidos à direita sabem que devem tentar manter o canal aberto para as legislativas que se seguem.

A última entrevista da líder do CDS deixou o PSD nervoso. “Se fosse vereadora, daria o mínimo de faltas possível”, afirmou Assunção Cristas, no que foi lido como um remoque a Leal Coelho, que tinha passado a semana debaixo de fogo pelas 91 faltas que deu enquanto vereadora. “A assiduidade não é bitola da qualidade de um vereador”, respondeu a candidata do PSD. Teresa justificou as faltas por ser presidente da Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças e frisou que sempre se fez substituir. Mas a estreia desta coabitação à direita confirma: a tentação do braço de ferro está lá.

Apostadas em enxotar o fantasma, Teresa e Assunção repetiram aos media exatamente a mesma frase: “O meu adversário é Fernando Medina”. O pior é que terem de o dizer confirma que há uma segunda corrida nesta corrida a Lisboa. Para a candidata do CDS está em jogo a sua performance como líder do partido; para a candidata do PSD está em jogo a performance do líder do seu partido. Sabendo que para Medina este ‘duelo’ na velha AD é um maná dos deuses, as duas candidatas farão das tripas coração para se focarem no essencial. E o essencial é outro fardo: precisam de recuperar para o seu lado os 50 mil votos que nas últimas autárquicas lhes fugiram para a abstenção.

Recuperar os 50 mil que fugiram com a troika

Os números não enganam: em 2013, António Costa foi reeleito com menos votos do que tinha tido em 2009, mas onde a abstenção verdadeiramente galopou foi à direita. O PS teve menos quatro mil votos, o PCP menos 500, o BE manteve, e a coligação PSD/CDS perdeu 50 mil. Não será difícil adivinhar porquê. Estava-se na troika, Passos e Portas foram chumbados pelo eleitorado urbano, havia o IVA da restauração, a lei das rendas não ajudou, o castigo autárquico cumpriu-se.

Depois, a AD reconquistou Lisboa nas legislativas, mas quem conhece o terreno avisa: “Sem recuperar os votos perdidos para a abstenção nem entramos na corrida”. A preocupação é tal que os homens do aparelho do PSD acham um erro entrar já a matar nos bairros: “Temos de começar por agarrar a classe média e a 3ª idade”. Assunção Cristas, que arrancou primeiro e leva três voltas a Lisboa de avanço, não concorda. Com a preciosa ajuda de João Gonçalves Pereira, vereador do CDS com muito trabalho feito nas políticas sociais, já correu os bairros todos. E o que tinha que fazer nos media para trabalhar o povão, está feito: escreve no “Correio da Manhã”, tem uma crónica semanal no CMTV e dá entrevistas à “Maria”.

Com o perfil mãe de família (diz quem viu que a memória da ex-ministra barriguda que gozou a licença de maternidade, ainda rende quando, nos bairros, lhe perguntam pela filha), a candidata do CDS também tem feito render o seu catolicismo praticante e acompanhou Marcelo Rebelo de Sousa à alfacinha procissão do Senhor dos Passos.

Teresa Leal Coelho é menos catalogável e o PSD vê nisso uma vantagem. Desassombrada, é conhecida por dizer o que pensa, ser combativa, entrar nos vários meios com informalidade e assumir a defesa de causas sociais fraturantes, o que pode tocar o centro-esquerda. Tem a seu favor um dado nada despiciendo: o pior resultado de sempre do PSD em Lisboa (32 mil votos com Fernando Negrão) foi duas vezes superior ao melhor do CDS (17 mil votos com Paulo Portas). E subverter esta proporção seria revolucionário. Assunção vai tentar, Teresa vai resistir e para serem eficazes têm de fazer mossa em Medina. Os programas das duas ainda não estão fechados, mas há pontos em comum: pôr os lisboetas à frente do “fontismo” e do turismo desregulado, dar guerra às taxas e taxinhas e garantir apoios sociais a quem quer morar, viver, ter filhos e trabalhar com mais qualidade na cidade. Qual das duas o fará melhor?