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Carlos Silva, o sindicalista da aldeia

antónio pedro ferreira

O líder da UGT nasceu em Alfama, passa a semana em Lisboa ou em Bruxelas, mas volta sempre a Campelo, a pequena terra portuguesa onde agora vivem apenas duas dezenas de pessoas

Rosa Pedroso Lima

Rosa Pedroso Lima

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Carlos Silva abre bem os braços e dá-nos as boas-vindas a Campelo com um sorriso rasgado. A aldeia onde vive fica no fundo de um vale, bordado a casario que escorrega encosta abaixo até ao rio. O ar cheira a erva cidreira e a flores. O líder da UGT está em casa. Ou, melhor, está em família. A terra tem pouco mais de vinte almas e dificilmente se consegue encontrar nas ruelas estreitas alguém que não seja primo ou prima, que não abrace “o Carlitos” e estranhe a companhia de uma gente de fora que faz jornais e se ocupa das notícias do mundo.

Em Campelo, os media são de viva voz e as novidades são a subida do rio ou a cura da gripe da tia Maria. Há cinco anos, quando chegou a secretário geral da UGT, Carlos Silva quis manter-se na terra. Apesar dos quilómetros de distância, das curvas e contracurvas que a afastam da capital, é aqui que se sente bem. Talvez por isso mesmo. Um homem não é de ferro, precisa de limpar a alma das tricas lisboetas, dos salões da política que o chamam desde sempre mas que, apesar de tudo, quer gerir em doses homeopáticas. E à devida distância.

Abre a porta e entramos numa varanda fechada, com vista para a aldeia inteira. Não é preciso quadro, nem música de fundo com esta decoração natural. O ar da primavera traz o som dos pássaros e a luz do sol faz brilhar as casas e a igreja da aldeia. O forno de lenha traz um aroma de comida das avós que nos pega ao colo e nos senta à mesa. Está a família a postos para o almoço, porque no Norte ninguém passa fome, muito menos quando se chega de longe. Carlos Silva garante que foi ele o cozinheiro de serviço e pega no tabuleiro com bacalhau com batatas a murro que larga em cima da grande mesa.

“Mais vale que faça mal do que sobrar”, diz para abrir as hostilidades. O repasto dava quase para a aldeia inteira, mas os convivas eram só sete: o líder da UGT, a mulher, Ana, e o filho João; mais um casal de primos, o Gabriel e a Fátima, esta última ligada à casa porque “a bisavó dela era irmã do meu bisavô” e isso é proximidade de irmãos; e com os dois jornalistas. Ficamos sozinhos para tratar do bacalhau. E assim foi. Sobrou pouco. “Fica para o lanche”, diz o primo.

A aldeia foi perdendo gente a conta-gotas. Além das hortas, da agricultura ou dos viveiros de trutas que saltam no rio, a terra não tem mais ofertas de emprego. E a população foi deixando Campelo para as férias de verão e os fins de semana prolongados, fechando as casas durante a maior parte do ano. Com a saída das pessoas, fechou a escola, por falta de miúdos. Depois, foi-se embora o padre, por falta de paroquianos. Fechou o posto de correios, o posto médico. Não há café e a associação está fechada porque também, num sábado à tarde, não há ninguém para a frequentar.

Mas a casa de Carlos Silva está sempre cheia. O líder da UGT gosta de ‘tainadas’, de serões e de pretextos para juntar amigos, conhecidos, familiares. Recita datas como se fossem de ontem, sabe o dia exato em que o bisavô voltou, no idos de 1927, à aldeia vindo dos Estados Unidos. O homem foi parar às Américas “por acaso”. Uma metáfora para explicar que o antepassado, depois de se meter numa rixa e de ter “aviado quatro polícias”, fugiu pelas ruas das docas de Lisboa e adormeceu num cargueiro. Acordou no meio do mar, livre dos tribunais, mas sem fuga possível de uma chegada à terra das oportunidades.
Carlos é um contador de histórias e todos gostam de o ouvir. Ali, o público é fiel, o orador tem sucesso garantido entre a família e sente-se isso à distância. Fala da sua terra, conhece-lhe os cantos e a história de praticamente todos os habitantes. Ele, que até nasceu em Alfama, tomou as raízes da família da mãe, deixou os bairrismos alfacinhas e alapou-se aos traços de beirão, às pedras da aldeia e à terra onde passava as longas férias de verão com os avós.

Raízes. Na aldeia de 20 pessoas, todos cresceram juntos e conhecem tão bem as árvores da genealogia como as que cercam os caminhos da terra

Raízes. Na aldeia de 20 pessoas, todos cresceram juntos e conhecem tão bem as árvores da genealogia como as que cercam os caminhos da terra

antónio pedro ramos

As origens humildes obrigavam a juntar lazer e trabalho. Carlos entremeava as idas ao rio com os amigos, com tarefas de verão que ajudavam a pagar as contas da família. Aos 14 anos, no verão na aldeia, foi trolha de umas obras de restauro da igreja. Amealhou uns cobres e, no ano seguinte, seguiu para a ‘faxina’. Aceitou sem saber bem que ‘faxina’ significava carregar troncos de pinheiros e de eucaliptos, acabados de cortar e que iam carregando as camionetas para Lisboa. O pior era mesmo “lançar os troncos quando o camião estava já cheio”. Chegava partido a casa, o corpo a doer por todos os cantos, mas no final das férias “estava cheio de músculos”.

Hoje, tem duas casas, recheadas de recordações. E vários lotes de terra pequeninos, que foi comprando ao longo dos anos e que lhe dão certificado de proprietário de pomares, oliveiras e vinha. Ri-se quando lhe chamamos o latifundiário de Campelo ou agricultor de sucesso. “Nem digam isso, que ainda alguém acredita.” Mas, se não é verdade, andará lá próximo.

Surpresas desagradáveis

Despacha-se o bacalhau, bem regado com o azeite da família Silva, limpa-se a travessa de arroz-doce pintado a canela e entra-se na política. Sem papas na língua, como de costume, o líder da UGT fala do Presidente ou do primeiro-ministro, sem a linguagem florentina habitual num meio em que, confessa, entrou “de paraquedas”.

Há, no discurso de Carlos Silva, uma autenticidade tão rara nos salões da política portuguesa como a água num deserto. Há expressões que lhe saem da boca e de que não se arrepende, porque está na massa do sangue e faz parte da terra a que cerrou raízes. Quando não gosta, fica “lixado” e não aborrecido, como mandam os folhos da etiqueta. Diz que o Presidente da República “é um porreiraço”. Na rua, o carro, onde vai o autarca de Castanheira de Pêra, passa por nós e pára para cumprimentar o líder da UGT. “Olha, estes autarcas da treta!”, diz Carlos Silva de mão estendida. Todos riem, cumprimentam-se e acabam a combinar que “depois de despacharem lá o que têm para fazer” vai tudo para casa do sindicalista dar cabo do queijo do rabaçal que acabaram de lhe entregar à porta. E do mais que houver, evidentemente...

À beira do congresso, que decorre no Porto no próximo fim de semana, Carlos Silva arranca para um segundo mandato como secretário-geral da UGT. A política entrou-lhe nas veias, ainda estudante. Começou a frequentar as secções locais socialistas de Lisboa, foi compagnon de route de Seguro, de Costa, de João Proença e, quando chegou a hora do histórico dirigente sindical deixar a UGT, “olhou para o lado e acertou em mim”. Já Carlos Silva era dirigente do Sindicato dos Bancários do Centro, dava nas vistas no sector financeiro, onde a central ganhou força e implantação, mas estava ainda bem longe de saber o que se passava no comando das operações.

E nem tudo era bonito. Na herança que recebeu, constava um velho diferendo com as instituições europeias chamado Fundo Social Europeu. O caso remonta aos idos anos 80, levou Torres Couto e João Proença a sentarem-se no banco dos réus e a reputação da UGT a passar pelas ruas da amargura, sob suspeita de desvio de dinheiros comunitários. A Europa tinha inundado o país de verbas para a formação profissional e a requalificação de trabalhadores, de repente obrigados a corresponder às médias e aos rácios comunitários, sempre mais altos, mais qualificados e mais preparados para as tecnologias do que a velha tradição portuguesa.

A central tornou-se um dos grandes recetores de verbas, mas as suspeitas começaram cedo. “Em tribunal fomos sempre ilibados”, diz Carlos Silva. Mas essa era só metade da missa. A Comissão Europeia continuou a guardar o caso e a cobrar juros pelo facto de ter fornecido dinheiro à UGT sem cabimento orçamental. “Inelegibilidade de verbas”, era a classificação oficial. O caso arrastou-se décadas pelos corredores de Bruxelas batendo o triste recorde de ser o processo mais antigo à guarda da Comissão. Rios de dinheiro gastos em advogados que tentaram o impossível: vencer o braço de ferro com Bruxelas e tornar “ilegível” o que nenhuma norma previa.

Carlos Silva não sabia de nada, garante. Na altura da passagem de pastas, ninguém o informou sobre esta dor de cabeça financeira que, mal ou bem, representava uma dívida de 1,5 milhões de euros. O bancário ficou chocado, mas arregaçou as mangas e negociou o fecho das contas. Nos próximos 25 anos, comprometeu a central sindical a pagar, mensalmente, à Caixa Geral de Depósitos 7500 euros. Com o esforço dos sindicatos, que aceitaram duplicar a quotização para a central, saldaram-se as dívidas e cumpriu-se o “código de conduta” a que o bancário, mesmo no papel de sindicalista, continua a considerar-se amarrado.

Foi defeito profissional, talvez. Ou, apenas, uma casa a arder em problemas de gestão financeira a que já não se podia escapar obriga qualquer um a tornar-se bombeiro. A segunda surpresa foi a ameaça de despejo da sede da central sindical, historicamente instalada numa vivenda na Avenida Gago Coutinho, bem a caminho do aeroporto. “Disseram-nos que tínhamos de comprar ou sair”, explica Carlos Silva. Nova falha nos circuitos de comunicação interna, o secretário-geral não sabia de nada quando tomou posse. E sobrou para ele tratar do assunto.

Em outubro, na Ameixoeira, Carlos Silva inaugurava a nova sede. Tratou da mudança, comprometendo-se com o BCP a uma locação financeira de 20 anos e deslocou a atividade da UGT do centro para a periferia. “Tive de jogar toda a influência que não sabia que tinha”, diz ao Expresso. Nas terras pequenas, o fiado é para pagar, as contas para saldar e as promessas para cumprir. Garante que herdou uma central sindical “com dificuldades”, mas que agora “está muito estável”. Tirou a tensão ao orçamento, mas não evitou apanhar com valentes baldes de água fria.

Agarrem-me, senão saio

O embate com o centro de comando da UGT não foi fácil. A par dos problemas financeiros escondidos durante anos debaixo do tapete, somavam-se as desavenças internas que, logo nos primeiros tempos de mandato, levaram o sindicato do pessoal de voo da aviação civil a bater com a porta. Era um dos fundadores da central sindical, mas nem se deram ao trabalho de avisar o líder. “Ninguém falou comigo, ninguém me avisou de nada. Foi uma coisa que me afetou”, confessa.

A isto acrescentava ainda o desgaste de um dos maiores períodos de austeridade do país, que colou a UGT a um acordo de Concertação Social, que retirou direitos laborais, feriados, férias e salários. “Houve falhas na transmissão da mensagem”, assume Carlos Silva, que reclama que se os sindicatos — o seu sindicato — não tivessem entrado em negociações o resultado teria sido “ainda muito pior para todos”. O memorando da troika tinha 200 medidas draconianas e o poder político que aceitou o acordo, a troco de um empréstimo de 78 mil milhões de euros, “não teve coragem de explicar ao país quanto ia custar o resgate”. Em letras pequeninas, como nos contratos dos seguros, havia a necessidade de “os portugueses pagarem com língua de palmo a ajuda que foi pedida”. Quase ninguém leu, no início. Mas, um dia, o país acordou mais pobre, com menos direitos e com muito mais trabalho pela frente.

Não foi ele a sentar-se com patrões e Governo à mesa. Mas foi quem apanhou com a fama de liderar um sindicato “que faz fretes a todos os governos e que anda de mão dada com os patrões”. Pouco importa que o acordo foi um mal menor, que evitou um quadro bem pior. A esquerda nunca o poupou e ainda menos o perdoou. Às vezes, as críticas resvalam para terrenos movediços, bem diretos à honra. Mariana Mortágua chamou-lhe “traidor da pátria”, Arménio Carlos diz da UGT o que nem Maomé diz do toucinho. O homem de Campelo, mesmo grande e forte, não é de ferro. Perde as estribeiras e a paciência e, várias vezes, tentou bater com a porta, deixar as quezílias internas do sindicalismo e as tricas da política, para voltar para os olivais e para o ribeiro que corre mesmo à sua porta.

Mas ficou. “Tantas vezes tentei bater com a porta...”, recorda. “Mas os meus colegas nunca me deixaram.” Foi travado a tempo de partir a loiça toda, agarrado pelos outros ou até “por falta de coragem”. Afinal, no país não é só o Presidente a recolher afetos. “Também me ligo às pessoas, ganho-lhes amizade.” E por isso levou o mandato até ao fim e segue agora para outro.

Olhar com outros olhos para a UGT

Aprendeu a resistir aos choques da cidade e a compensá-los com o fôlego que a terra lhe dá aos fins de semana. “É aqui que me sinto bem”, diz entre estradas de pedra que serpenteia a aldeia, rodeada dos cheiros e das cores da primavera. Aqui nada o apanha de surpresa, conhece cada recanto, cada habitante e o calendário que, todos os anos, muda as estações, mas nunca a alma do lugar.

O ar puro ajuda, mas também o novo ambiente político que se tornou mais suave, apesar de todas as dúvidas iniciais. Carlos Silva foi um dos primeiros a adivinhar problemas com um Governo minoritário, apoiado por dois partidos de esquerda que nunca esconderam o ódio que reservam à UGT. Não se arrepende do que disse. Sendo socialista, vestiu a pele de secretário-geral e continua a repetir que “o PS escolheu dois partidos que não gostam de nós e que, para a minha central sindical, são inimigos. Ponto final”.

A realidade mudou. Mas mudou-o, também. Mesmo que António Costa não fosse o seu candidato, na corrida à liderança do PS (apoiou António José Seguro), Carlos Silva reconhece que o primeiro-ministro tem “cumprido o que promete” e até foi capaz de equilibrar os pratos da balança e “conseguido inibir algumas tentativas dos seus parceiros parlamentares em relação ao movimento sindical que nós representamos”.

O tempo político amainou, “há um maior respeito e olha-se para a UGT com outros olhos”. Costa ajudou a isso, o Governo seguiu-o, o Presidente da República reforçou os laços. Carlos Silva conta com Marcelo para o reforço da central sindical e da Concertação Social. “É uma pessoa muito próxima, muito ativa, quer saber de tudo e de todas as coisas e ajudou muito ao desanuviamento da classe política portuguesa. Só não desanuviou quem não quis perceber.”

Mesmo perdido no fundo do vale, não perde a oportunidade de lançar farpas políticas ao PSD. Os ares de Campelo, por mais fortes que sejam, não chegam para afogar todas as mágoas. Nem as memórias recentes. Passos Coelho deixou pendurado o último acordo de Concertação pelo voto contra à redução da Taxa Social Única e Carlos Silva não esquece o contratempo. Como não se esquece de recolher os troféus que lhe são devidos. Nem de separar amigos e inimigos na hora de acertar contas, como pode ser a altura de inaugurar o congresso. Lembra como, “pela primeira vez na História”, um Presidente da República estará presente na abertura dos trabalhos da UGT. O primeiro-ministro “ainda tentou conciliar a ida ao Porto com a viagem a Roma para a celebração dos 60 anos do Tratado de Roma”. Não foi possível e só por isso não estará presente. Haverá ministros, o vice-presidente da Assembleia da República e Mota Soares, em representação do CDS e como ex-ministro da Segurança Social. Passos Coelho fez-se substituir por Marco António Costa. O PCP, que “nunca foi, também não vai”. E a CGTP “que sempre veio, desta vez não confirmou e já terminou a data de confirmação”.

Carlos Silva encolhe os ombros. “Convidamos todos. Está quem quer.” É uma das regras da casa e da aldeia de Campelo.

“Não sou o Trump, não falo de mais”

antónio pedro ferreira

No seu mandato, a UGT perdeu filiados, não conseguiu aproximar-se da CGTP, como pretendia. É um balanço negativo.
A UGT baixou, como todo o movimento sindical na Europa. É dramático, mas tem causas. A primeira, é a crise que se continua a sentir. Em 2014, o desemprego estava nos 17,2% e a dessindicalização é uma consequência natural da perda de trabalho. Em oito anos, a UGT baixou do meio milhão de filiados, perdeu 62 mil.

Notou alguma alteração com a ligeira retoma do emprego?
No meu mandato, o país viveu os quatro anos mais difíceis desde o 25 de Abril. Mas, desde o início do ano passado, há sectores onde a situação se reverte e há um regresso aos sindicatos: indústria, têxteis, cortiça, comércio e serviços, com uma exceção enorme do sector financeiro.

Enganou-se no diagnóstico que fez quando apostou numa aproximação com a CGTP, ou foi a Intersindical que mudou?
A CGTP não mudou. Cem anos depois da Revolução de Outubro, há quem ache que está tudo igual, mas as pessoas já não acreditam em amanhãs que cantam.

Desistiu de uma reaproximação?
Não desisto completamente de pontuais convergências. Mas estou convencido que é muito difícil uma aproximação. Apesar da crise e de podermos estar mais perto, o PCP continua a ter uma fortíssima intervenção na CGTP. A questão é menos sindical e mais partidária.

Os ataques a Arménio Carlos passaram para o plano pessoal?
Do meu lado, não. Mas Arménio fulanizou a questão quando disse que eu devia ter mais cuidado na maneira como falo e outras simpatias. Eu não aceito isso.

Isso afetou a vossa relação pessoal?
Nunca tive nem mais nem menos relação pessoal com Arménio Carlos. Quando é necessário falar, falamos. Mantemos um certo distanciamento, com cortesia e educação. Na comunicação social, confesso, a qualquer um escorrega o pé para o chinelo. Talvez tenha sido isso que aconteceu com os dois.

Você é sanguíneo, fala de mais às vezes?
Não falo de mais, digo aquilo que penso. Não sou o Trump, que às vezes diz o que deve e o que não deve. Na altura da TSU, quando percebemos que a CGTP podia assinar um acordo com a parte melhor do lombo, deixando os ossos para os outros... isso não aceitei!

A assinatura do acordo de 2012, em pleno período da troika azedou as relações. Teria feito o mesmo que João Proença?
Só quem está no convento, sabe o que vai lá dentro. Perante um memorando da troika com 200 medidas gravíssimas, podíamos lavar as mãos, dizer ao Governo que resolvesse o problema porque o movimento sindical não se metia nisso. O que ia acontecer? Os trabalhadores levavam com aquilo tudo!

Era mais?
Era muitíssimo mais e muitíssimo mais duro! João Proença decidiu negociar para mitigar estas medidas e a UGT acompanhou-o. A CGTP preferiu não se meter naquilo, deixar o país de pantanas e criar uma convulsão social tremenda que levasse à queda do Governo. Era uma decisão política. Reconheço ao João Proença a capacidade de gerar o melhor acordo possível. Dir-me-ão: mas foi mau. Pois, mas podia ter sido muito pior.

Este Governo e a nova correlação de forças olha melhor para a UGT?
Alguns dos apoiantes do Governo gostariam de ver a UGT noutro planeta! O PCP e o Bloco nunca me mereceram grande simpatia, desde logo por serem anti-UGT. Eu sou secretário-geral de uma central sindical que surgiu com Mário Soares e Sá Carneiro contra a hegemonia sindical comunista E isso nunca nos foi perdoado. Se pudesse ditar a nossa destruição, o PCP ditava. O BE não gosta de nós, porque acha sempre que andamos de braço dado com a direita, com os governos todos e com o patronato.

Há um braço de ferro entre o Parlamento e a Concertação Social?
Não. No Parlamento não há só bloquistas e comunistas! E o Governo está comprometido em resolver uma série de matérias na Concertação Social. Os parceiros mais à esquerda preferiam esvaziar a Concertação. Mas há uma pergunta que tem de ser devolvida ao BE e ao PCP: se, no futuro, a direita voltar ao poder, vão continuar a defender que quem decide é o Parlamento? É que não vale só defender isto quando estamos em maioria!

Como classifica a forma como foi assinado o último acordo?
Houve muita pressão de todos os lados. Sempre defendi uma cerimónia pública, mas não foi possível porque acho que o Governo não quis hostilizar um parceiro que, por não ter assinado, ainda ia fazer folclore com isso.

O Governo teve medo da CGTP?
Medo não digo. Não quis criar frisson. Um Governo que anda todos os dias a negociar com o PCP e com o Bloco, achou desnecessário ofender a CGTP num ato público. Embora ache que os parceiros sociais mereciam esse protagonismo, não fiz disso cavalo de batalha.

Ou foi porque o Governo se comprometeu com uma coisa que não podia cumprir?
A TSU foi uma questão complicada. É o que, à portuguesa, se chama “contar com o ovo no cu da galinha”. E contamos todos! Não passou pela cabeça de ninguém que o dr. Passos Coelho não aplicasse naquele dia o que sempre aplicou… Foi um erro a inversão do PSD. E foi azar nosso.

Como avalia o papel do primeiro-ministro?
Tem passado o ar de grande negociador da coisa pública e política. E, apesar de tudo, tem-se saído bem.

Reconciliou-se politicamente com António Costa?
Eu sou um institucional. Institucionalmente o meu secretário-geral chama-se António Costa, é ele o primeiro-ministro e eu sou leal. Politicamente é assim. E acho que tem correspondido aos desafios do país e dos trabalhadores.

Acha que controla os parceiros desagradáveis para a UGT?
Sim, o PS tem conseguido inibir algumas tentativas desses parceiros em relação ao movimento sindical que nós representamos. O primeiro-ministro tem cumprido o que tem prometido.

E o Presidente da República conta?
Conta muito e em tudo. Até na forma como olha para a UGT e para a Concertação Social. Falo com Marcelo com regularidade, ainda no outro dia por uma questão de lana caprina lhe telefonei. Não atendeu, mas devolveu-me a chamada dois minutos depois.

Partilha o desejo de Marcelo de que este Governo cumpra a legislatura?
Ah, oxalá que sim.