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Política

“Tal como houve um antes, pode haver um depois da União”

Lucília Monteiro

Entrevista a Alice Cunha, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova, no dia em que se cumprem 60 anos sobre o Tratado de Roma

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Em 60 anos, muito mudou na Europa graças à União. Há um mundo de coisas facilitadas no dia a dia que são direitos que se foram adquirindo. Apesar disso, nada está garantido e o ‘Brexit’ é uma prova eloquente de como as coisas ainda podem mudar mais, afirma a investigadora em História Contemporânea. E cita Jean Monnet: “A Comunidade é apenas uma fase a caminho do futuro”.

Como foi vista há 60 anos a assinatura do Tratado de Roma?
Como algo muito positivo para o futuro da Europa, em que alguns Estados que tinham travado uma guerra estavam dispostos a unir-se pela paz e pelo progresso económico.

Que nos diz o cartaz sobre a visão dos seis sobre a CE?
Foi uma encomenda do Estado italiano para assinalar a assinatura dos tratados, onde desde logo ressalta um conjunto de jovens sadias e sorridentes, de mãos dadas em sinal de unidade, pelo progresso e pela paz, como consta do título, e cujas saias são as bandeiras dos respetivos Estados. Há uma frase de um dos pais fundadores, Alcide De Gasperi, que diz que “finalmente as fronteiras da Europa foram reduzidas, criou-se uma comunidade de livre circulação para as pessoas, bens e sobretudo para o trabalho”. A posição das jovens também não é inocente e mostra desde logo a relação de poder entre os Estados: no centro está a jovem italiana, ladeada pela alemã e a francesa, enquanto a do Luxemburgo ocupa uma posição reservada. No conjunto, o cartaz é uma amostra de jovialidade, união e futuro sorridente.

O que não se comprova hoje.
Sessenta anos depois, as jovens tornaram-se necessariamente velhinhas, fruto da idade, fizeram um grande trabalho em conjunto, alargaram a família e áreas de intervenção, mas têm de lidar com vários problemas. O reflexo é o cartaz de comemoração dos 60 anos, meramente gráfico, com a inscrição 60 anos e pássaros estilizados, que voam não se sabe em que direção, dois virados para a direita, outro para a esquerda. Parece uma mensagem sobre o futuro desconhecido da Europa.

O acontecimento teve eco no Portugal da época?
Muito pouco. “O Século”, um dos jornais de maior circulação, fez menção na primeira página, mas limitou-se a noticiar a ocorrência. Portugal nessa época via-se mais como potência ultramarina.

Hoje há razões para celebrar o quê?
A crise sempre foi uma palavra presente no jargão comunitário. Mas apesar dos muitos problemas, nestes 60 anos construiu-se muita coisa do ponto de vista económico, comercial e das pessoas. Pode-se circular livremente, adquirir os bens que se quiser, viver noutros Estados, ter os diplomas reconhecidos. São coisas do dia a dia que são direitos adquiridos. Uma construção que na sua génese foi política e económica contribuiu para a melhoria das condições de vida.

A UE ainda é o melhor clube para se ser membro?
Ao longos dos tempos tem sido, e a prova foram os sucessivos alargamentos. Mas o ‘Brexit’ veio mostrar que um Estado pode ser membro durante 40 anos e depois querer sair. Há muito trabalho a fazer e o que se pede hoje é que quem dirige e é sócio do clube tome ações concretas e assuma um papel de liderança para que o clube continue a ser apetecível.

Discute-se de mais o futuro e faz-se pouco pelo presente?
Na Europa, estamos sempre a discutir o futuro, ao mesmo tempo que se faz uma gestão quotidiana do presente até que ele se torne passado.
Ninguém garantiu que o projeto seria eterno...
Em 1976, Jean Monnet afirmou que “as nações soberanas do passado já não conseguem resolver os problemas do presente” e que “a própria Comunidade é apenas uma fase a caminho do mundo organizado do futuro”. Estas palavras parecem proféticas. Um projeto com 60 anos não é definitivo. Poderá haver outras maneiras de os Estados europeus se organizarem.

Podem até não querer.
E voltar a ser Estados soberanos, independentes e com moeda. Não acredito, mas tal como houve um ‘antes’, também pode haver um ‘depois’ da União.

SINTOMAS E REFLEXOS
Há coisas que falam por si. A historiadora da Universidade Nova de Lisboa teve o mérito de o apontar, comparando os cartazes de Roma. O primeiro, da assinatura dos Tratados que fundaram a Comunidade Económica Europeia e o Euratom, em 1957, e o que foi elaborado 60 anos depois, para a sua comemoração, na mesma cidade. É um abismo. Descontando as óbvias diferenças estéticas de época, o que se nota é que um transmite uma visão (e a professora disseca-a), o outro, de tão gráfico (“60 anos, Roma”) não consegue dizer nada: uma mensagem a um futuro desconhecido? Pode ser que os mais de 40 líderes europeus hoje lá reunidos avancem mais além. É o que se espera deles.

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