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É a política e não as regras que podem perder Dijsselbloem

Dijsselbloem à conversa com De Guindos, o ministro espanhol da Economia, que António Costa gostaria de ver na presidência do Eurogrupo

EMMANUEL DUNAND / AFP / Getty Images

O ministro holandês das Finanças quer manter-se à frente do Eurogrupo. Agora será difícil

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Jeroen Dijsselbloem queria manter-se à frente do Eurogrupo, cargo que ocupa desde janeiro de 2013, mas é pouco provável que o consiga. Depois da suas polémicas declarações sobre “copos e mulheres”, em que supostamente os países do euro que solicitaram o resgate gastaram o dinheiro, Portugal já pediu oficialmente o afastamento do holandês. Foi acompanhado pelo presidente do grupo dos socialistas europeus.

Na terça-feira foi a vez do ministro dos Negócios Estrangeiros e, já esta manhã, do primeiro-ministro e do Presidente da República, que secundou a posição do Governo. Costa pediu a Dijsselbloem que “desaparecesse” e exigiu-lhe um pedido de desculpas.

A nível internacional também se multiplicaram as reações, embora por enquanto mais nenhum outro Governo tenha reclamado a substituição de Dijsselbloem. Em Espanha, foram vários os eurodeputados (das duas famílias políticas, socialistas e populares) que se manifestaram contra o “insulto” aos Estados-membros, afirmando que o holandês tinha perdido a sua neutralidade.

Matteo Renzi, o ex-primeiro-ministro italiano que se recandidata à liderança do Partido Democrático, afirmou na sua página no Facebook “que quanto mais cedo ele se demitir melhor. Por ele e pela credibilidade das instituições europeias”.

Numa declaração, o Movimento Cinco Estrelas, neste momento à frente nas sondagens em Itália, também pede o mesmo: “A visão de Dijsselbloem é evidente nas políticas da união: uma suposta superioridade económica, moral e mesmo cultural dos países do norte, em detrimento dos do sul”.

A vítima óbvia

O ainda ministro das Finanças holandês já era, aparentemente, a vítima mais óbvia da hecatombe que se abateu sobre os trabalhistas holandeses, que perderam 29 lugares no Parlamento holandês nas eleições de dia 15. Ficaram reduzidos a nove lugares e não parece provável que o partido seja necessário para formar uma nova coligação no poder. Os trabalhistas integram desde 2012 o governo holandês, sob a chefia de Mark Rutte, cujo Partido Popular pela Liberdade e Democracia voltou a ganhar as eleições.

A presidência do Eurogrupo é assegurada por um ministro incumbente desde 2005, tendo Dijsselbloem sucedido a Jean-Claude Juncker, que assegurou o cargo desde essa altura até 2013. Até esse momento, o grupo informal era dirigido pelo ministro que assegurava a presidência da União.

Esta semana, na primeira reunião depois das eleições no seu país, Dijsselbloem fez saber que estava disponível para continuar, até porque o seu mandato só termina em janeiro de 2018 e as negociações para a formação de um novo governo na Holanda podem prolongar-se. É possível que até lá se pudesse manter no cargo, tendo em conta a vontade nesse sentido de alguns ministros, nomeadamente do alemão Wolfgang Schäuble, cujas teses em termos de austeridade professa. A Holanda é, aliás, um dos países-falcão nessa matéria.

Aliás, na mesma entrevista ao “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, onde fez as declarações sobre “os copos”, Dijsselbloem refere que "as regras da UE não têm nada contra” a sua permanência no cargo. E afirma: “Dizem apenas que os ministros do Eurogrupo escolhem um presidente por maioria simples, por um período de dois anos e meio. Não é dito que o presidente tem de ser ministro. Até agora, tem sido sempre o caso. Agora, os meus colegas minstros têm de decidir se deve continuar assim e se eu devo ficar no cargo até janeiro de 2018”. Era impossível ser-se mais direto na sua pretensão.

O problema é que se as regras não dizem, já havia quem não o quisesse. Eram em primeiro lugar os socialistas, que sempre o visaram. E, de modo geral, os países do Sul. Não é por acaso que o concorrente de Dijsselbloem ao cargo em 2013 era De Guindos, o ministro espanhol da Economia, e em quem António Costa aposta.

O facto é tanto mais curioso quanto, depois da eleição do membro do PPE Antonio Tajani para a presidência do Parlamento Europeu, os socialistas perderam uma representação ao mais alto nível das instituições. Agora, para obter tal objetivo só mudando mesmo a estrutura da Comissão, dando mais poder a um comissário socialista – a solução que Costa advoga.