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Concentração “contra o fascismo” faz jogada de antecipação a ‘manif’ da extrema-direita

Símbolos da iniciativa “Primavera na FCSH, Contra o Fascismo” e do Partido Nacional Renovador: o primeiro faz marcação cerrada ao segundo

O cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto tem esta terça-feira uma sequela: ao protesto do PNR em Lisboa, na Avenida de Berna, frente à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), às 18h, respondem antigos e atuais estudante professores/investigadores com uma concentração, duas horas antes, no átrio da faculdade. Haverá “reforço policial” nas imediações

Cerca de quatro centenas e meia de pessoas, entre antigos e atuais alunos e docentes/investigadores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, tinham a meio da tarde desta segunda-feira já subscrito o manifesto "Primavera na FCSH, Contra o Fascismo”, que convoca para amanhã (terça-feira, às 16h) uma concentração no átrio da faculdade.

Será uma resposta, por antecipação, à manifestação que o Partido Nacional Renovador (PNR) realizará em frente à FCSH, na Avenida de Berna, em Lisboa. Ambas as iniciativas são um prolongamento da polémica que levou ao adiamento, há duas semanas, da conferência de Jaime Nogueira Pinto sobre os populismos.

Quer a a manifestação do PNR quer a concentração na “esplanada” da faculdade (também vista como uma “contra-manifestação”) estão eivadas de uma retórica que mais parece saída dos arquivos do anos de brasa da década de 70 do século XX, evidenciando uma clivagem esquerda-direita (para alguns, será mais extrema-esquerda vs. extrema-direita) que está a preocupar as forças policiais.

De acordo com várias fontes, a polícia está a preparar o dispositivo de acordo com as informações recolhidas no terreno e nas redes sociais. "Vai haver um reforço da segurança", afirmam vários responsáveis.

Algumas equipas da PSP vão estar de prevenção junto da universidade e outras vão estar nas proximidades. "Estimam-se entre 40 a 60 pessoas entre as 18h e 19h30", adianta uma fonte policial.

Cartaz do PNR, a convocar a iniciativa desta terça-feira

Cartaz do PNR, a convocar a iniciativa desta terça-feira

A iniciativa do PNR foi logo anunciada há duas semanas, no pico da discussão sobre a suspensão da conferência de Nogueira Pinto. O partido de extrema-direita, liderado por José Pinto-Coelho, vai realizar um “protesto contra o marxismo cultural e o pensamento único esquerdista”.

Com o lema “PREC nunca mais” (PREC é a sigla pela qual ficou conhecido o Período Revolucionário em Curso, em 1975, também conhecido como Verão Quente, no qual Portugal esteve à beira de uma guerra civil), o PNR vai manifestar-se “em frente à faculdade que tenta cortar a raiz ao pensamento”.

Na informação publicada no seu sítio na internet, os nacionais renovadores dizem que vão “protestar para prevenir a sombra de um novo PREC, mais colorido e travestido que o anterior, mas certamente mais tenebroso, porque dissimulado”.

Ao Expresso, José Pinto-Coelho, líder do PNR, garante que já tinha tido conhecimento da concentração através da página do Facebook de um dirigente do Bloco de Esquerda. “Vale o que vale”, limita-se a comentar o dirigente, que garante que da parte dos militantes do PNR “não haverá tensões nenhumas”.

Já sobre o número de simpatizantes do partido que poderão estar presentes em frente à faculdade não faz previsões. “Trata-se de um dia de semana, às seis da tarde. Não poderemos contar com militantes que possam vir de outras partes do país.” E volta a garantir que “o protesto do PNR vale por si”, negando que se trate de um ato de solidariedade para com Jaime Nogueira Pinto.

Uma espécie de movimento ‘ad hoc’

Se é fácil saber quem irá manifestar-se no exterior da FCSH, mais difícil é perceber que está por detrás do movimento que convoca as tropas para uma concentração no interior.

“Punho erguido” contra o fascismo sai à rua no Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial

“Punho erguido” contra o fascismo sai à rua no Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial

O grupo defende um ideário assumidamente de esquerda e aproveita o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial promovido pela ONU (a celebrar precisamente esta terça-feira, dia 21) para convocar os “antifascistas que trabalham e estudam na FCSH, assim como ex-alunos e alunas”.

O primeiro motivo de tal congregação é “celebrar a Primavera”. Vem depois a declaração de princípios, numa resposta à polémica do adiamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto: “Não seremos intimidados por grupos radicais de extrema-direita que aproveitam o momento para denegrir a faculdade e os seus diferentes órgãos legítimos de representação e de direção”.

E prossegue o manifesto: “Não podemos pactuar com o silêncio num momento em que ideologias fascistas e xenófobas se mobilizam para atacar o pluralismo e a democracia, componentes incontornáveis do ensino no nosso país”.

O documento tem entre os signatários a jornalista Alexandra Lucas Coelho, os historiadores Fernando Rosas, Irene Pimentel, José Neves e Raquel Varela, entre outros, além de elementos da atual direção da associação de estudantes.

No entanto, a identificação do núcleo promotor da iniciativa revela-se tarefa impossível. Em diversos contactos mantidos ao longo de segunda-feira junto de diversos signatários do texto para saber que está por detrás desta jogada de antecipação à manifestação do PNR, o Expresso ouviu sempre respostas evasivas, ou que alegavam desconhecer o nome das pessoas em causa. “É um movimento o mais alargado possível”, disse um dos subscritores do documento.

O Expresso tentou ao longo desta segunda-feira contactar o diretor da FCSH, Francisco Caramelo, mas sem êxito. No entanto, ao que foi possível apurar, a concentração no interior da faculdade esteve longe de suscitar o consenso na faculdade, pois há quem considere que a mesma vem dar “demasiada importância” à manifestação do PNR.

Debate contra o racismo

Antes da concentração, uma primeira iniciativa a decorrer na FCSH irá assinalar o Dia contra a Discriminação Racial. Trata-se de um debate promovido pela associação de estudantes, que terá início às 14h, no qual participarão associações de combate ao racismo.

A AE recusou divulgar a lista de presenças, pois estava ainda a receber confirmações. José Falcão, dirigente do S.O.S. Racismo, confirmou ao Expresso que estará presente. “Fomos convidados pela associação de estudantes para um debate sobre o dia mundial contra a discriminação racial”, disse, adiantando que em cima da mesa estarão as alterações recentes da lei, já com 21 anos. O desejo é que passem a ser criminalizados os atos racistas, uma das bandeiras da organização liderada por José Falcão.

Nova Portugalidade: Venha o Diabo e escolha!

Da parte do movimento Nova Portugalidade (que de certa forma esteve na origem de toda a polémica, pois foi o promotor da conferência de Nogueira Pinto), nenhuma das iniciativas desta terça-feira recolherá o seu apoio.

O grupo já se havia demarcado do PNR, antagonismo que, aliás, foi recíproco. Faz agora o mesmo (num tom menos agreste, mas que vai dar ao mesmo) em relação ao movimento que clama “Contra o Fascismo”.

“A Nova Portugalidade condenará sempre mais o fascismo do que quem tentou censurar uma conferência na FCSH, desrespeitando a liberdade de expressão e violando a Constituição”, afirma ao Expresso Rafael Pinto Borges, presidente do movimento. “Mas como somos pela liberdade, não podemos rever-nos em nenhuma manifestação desta terça-feira”, acrescenta.

  • O dia em que fui enganado por Jaime Nogueira Pinto

    A verdade é que o diretor da FCSH, depois de perceber que havia riscos de segurança e que, em reação, a Nova Portugalidade se preparava para levar “gorilas” externos à instituição para dentro da faculdade, propôs um adiamento do debate a Jaime Nogueira Pinto. E que ele próprio aceitou, concordando que não estavam garantidas as condições para que a sessão se fizesse. No minuto seguinte, estava a contar ao “Observador” como tinha sido vítima de uma vil censura. Apesar de ter sido movido pela repulsa que sinto perante qualquer tentativa de limitar a liberdade de expressão, sobretudo quando é o meu lado que as leva a cabo, devo um pedido de desculpas à direção da FCSH e aos meus leitores. Se é verdade que cerca de 30 estudantes tentaram impedir um colóquio e que isso é condenável, tudo o resto não passou de uma fabricação de um grupo de extrema-direita que, nas páginas de facebook, assumiram que se tratava de um golpe de “publicidade grátis” e de uma manipulação de Jaime Nogueira Pinto. Caí como um patinho no conto do vigário

  • Conselho de Faculdade da FCSH aprova cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto

    O órgão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) de que fazem parte personalidades externas colocou-se esta sexta-feira ao lado da direção da escola na polémica da conferência de Jaime Nogueira Pinto, que foi cancelada: “foi a decisão que melhor salvarguardou os interesses da FCSH e da Universidade Nova de Lisboa [à qual a primeira pertence]”, não atentando contra a liberdade de expressão