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O país saiu da troika, mas a troika não saiu do PSD

A vantagem do PS sobre o PSD já vai em quase 10 pontos. Críticos de Passos Coelho apontam-lhe a ineficácia

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Editora de Política da SIC

Os números são o que são: se, em dezembro de 2015, na primeira sondagem feita pela Eurosondagem para o Expresso e SIC depois de António Costa tomar posse como primeiro-ministro, o PS liderava as intenções de voto dos inquiridos, com 33,7%, o PSD estava logo ali nos seus calcanhares, a apenas 0,7%. Um ano e três meses depois, a distância entre os dois partidos aumentou significativamente: o hiato já vai nos 9,5% (mais do que vale o BE para os inquiridos deste barómetro de março); à medida que o PS se aproxima dos 40%, o PSD finca-se abaixo dos 30%, com 28,8% — um valor idêntico ao pior da sua história eleitoral recente: os 28,77% obtidos por Pedro Santana Lopes nas legislativas de 2005.

O que explica a diferença crescente (bem visível no gráfico abaixo, que traça a linha das intenções de voto do barómetro desde dezembro de 2015 até esta semana)? A habilidade do partido do Governo em tirar partido das baixas expectativas com que iniciou o seu mandato — apoiado numa solução governativa inédita que suscitava tantas incertezas que só o facto de se manter, 15 meses depois, é em si mesmo um sucesso? Ou a incapacidade do maior partido da oposição de agarrar (e alargar) o eleitorado que votou nele a 4 de outubro de 2015?

“O PSD tem de deixar de olhar para o retrovisor”

O Expresso dirigiu as perguntas a vários sociais-democratas. Pedro Duarte, que no congresso de há um ano levou ao Congresso de Espinho um discurso bastante crítico da liderança de Passos Coelho, foi o único que aceitou falar on the record. O antigo dirigente partidário e diretor da campanha de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República não tem dúvidas de que a explicação para a tendência de queda sustentada do PSD reside “essencialmente na ineficácia da oposição”. Lamenta que o PSD tenha “cristalizado no período de emergência financeira, entre 2011 e 2015”, que não consiga apresentar propostas novas: “A troika saiu do país mas parece que ainda mora na sede nacional do PSD”.

Pedro Duarte não é nada sensível ao argumento da coerência, invocado pelos apoiantes de Passos: “Coerência não é ter sempre a mesma posição quando tudo, a Europa, o mundo, a economia, a situação financeira nacional, se alteram à nossa volta”. Insiste: “Se o PSD se quiser afirmar tem de olhar para a frente, deixar de olhar para o retrovisor”. Reconhece que o essencial dos alertas que deixou no congresso de há um ano permanece válido: “O PSD tem de se libertar dos dogmas que estão ultrapassados; tem de renovar-se profundamente nos métodos e nas pessoas; tem de construir um programa de futuro, que dê resposta a um conjunto de novos problemas de que o PSD está completamente afastado”. E apela a que se tomem medidas, deixando claro que não o move qualquer intuito de desafiar Passos: “Há um mandato a decorrer, que deve ir até ao fim”.

Nos sectores críticos da atual liderança, os números dos estudos de opinião publicados mensalmente pelo Expresso são vistos como refletindo o facto de o partido estar “distante das pessoas”, e não ter causas próprias com substância. Critica-se a gestão do dossiê da Caixa Geral de Depósitos (a insistência, “incompreensível e incompreendida”, nos SMS trocados entre o Governo e António Domingues); a irritação de Passos Coelho nos debates quinzenais com o primeiro-ministro (em gritante contraste com a imagem de serenidade que Passos dava quando era chefe do Governo); as “fugas para a frente” no caso dos offshores (com o depoimento de Paulo Núncio, primeiro e, agora, o requerimento para Mário Centeno ir ao Parlamento, no que é interpretado como uma jogada para poupar Maria Luís Albuquerque e Vítor Gaspar); a defesa acrítica de Carlos Costa nas responsabilidades do BdP no caso BES reveladas pelas reportagens da SIC da semana passada. Neste cenário, a degradação da intenção de voto é vista como uma consequência natural da “degradação da vida partidária”.

Na sede do PSD, na São Caetano à Lapa, “não se comentam sondagens”. Mas o argumentário para a desvalorização dos números existe: o que é relevado é o facto de PSD e CDS, somados, alcançarem praticamente a mesma percentagem de intenções de votos do que nas últimas legislativas (36% contra 36,86%); e o de BE e PCP estarem, o primeiro em queda, o segundo estagnado (em relação aos resultados nas últimas legislativas).

Ficha Técnica

Estudo de opinião efetuado pela Eurosondagem S.A. para o Expresso e SIC, de 1 a 8 de MARÇO de 2017. Entrevistas telefónicas, realizadas por entrevistadores selecionados e supervisionados. O universo é a população com 18 anos ou mais, residente em Portugal Continental e habitando lares com telefone da rede fixa. A amostra foi estratificada por região: Norte (20,8%) — A.M. do Porto (14,6%); Centro (28%) — A.M. de Lisboa (26,6%) e Sul (10%), num total de 1011 entrevistas validadas. Foram efetuadas 1222 tentativas de entrevistas e, destas, 211 (17,3%) não aceitaram colaborar neste estudo. A escolha do lar foi aleatória nas listas telefónicas e o entrevistado, em cada agregado familiar, o elemento que fez anos há menos tempo, e desta forma resultou, em termos de sexo: feminino — 51,5%; masculino — 48,5% e no que concerne à faixa etária dos 18 aos 30 anos — 16,7%; dos 31 aos 59 — 51,9%; com 60 anos ou mais — 31,4%. O erro máximo da amostra é de 3,08%, para um grau de probabilidade de 95%. Um exemplar deste estudo de opinião está depositado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social.