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Nuno Melo: “Louçã está para Carlos Costa como a Associação de Estudantes da Nova para Jaime Nogueira Pinto”

DENÚNCIA “Alguma coisa está a acontecer de muito grave na sociedade portuguesa a partir do momento em que o socialismo democrático abriu a porta do poder à extrema esquerda”

alberto frias

O primeiro vice-presidente do CDS e eurodeputado deu uma entrevista ao Expresso (que pode ler na edição semanal, este sábado) na qual tece duras críticas à partidarização do Banco de Portugal. O que é que isto tem a ver com o cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova? Na sua perspetiva, tudo

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Editora de Política da SIC

Nuno Melo, em escala em Lisboa, oriundo do Porto a caminho de Bruxelas, onde desempenha o quarto ano do seu segundo mandato como eurodeputado, conversou com o Expresso na terça-feira. O pretexto era o primeiro aniversário da eleição de Assunção Cristas para a presidência do CDS (que se assinala este domingo).

Mas a entrevista acabou por ser, sobretudo, sobre os temas do momento: offshores e Banco de Portugal. E como, nessa mesma manhã, já começava a ser viral a notícia do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto pela Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o tema acabou, naturalmente, por vir à baila também.

O dirigente centrista não compreende, nem aceita, a nomeação de Francisco Louçã para o Conselho Consultivo do Banco de Portugal. Ocorre-lhe uma comparação muito atual: “Ter alguém nomeado para funcionar em relação a Carlos Costa como a Associação de Estudantes da FCSH da UNL funcionou em relação a Jaime Nogueira Pinto é simplesmente inqualificável”. Acusa, sem qualquer hesitação: “O que está em causa é criar as condições negativas para que o governador se sinta mal e preferencialmente se demita para que o PS possa fazer ascender quem entenda”.

Voltando ao cancelamento da conferência sobre “Populismo ou Democracia? O Brexit, Trump e Le Pen em debate”, que o escritor se preparava para dar na Universidade Nova, mas que a direção da FCSH acabou por cancelar, cedendo aos argumentos da Associação de Estudantes, que não garantia a segurança de um evento promovido por um núcleo de estudantes “associado a argumentos colonialistas, racistas e xenófobos”, Nuno Melo é igualmente taxativo: “Lembra os tempos idos do PREC, em 1975”. Para o eurodeputado, “alguma coisa está a acontecer de muito grave na sociedade portuguesa a partir do momento em que o socialismo democrático abriu a porta do poder à extrema esquerda, de que quis sempre ser fronteira”. O primeiro vice-presidente do CDS não tem dúvidas que “assistimos hoje a uma ‘bloquização’ do PS de que logo os seus porta-vozes são expressão”. “Para quem, como eu, acredita profundamente na democracia, no íntimo deve dar que pensar”.

Questionado sobre se a radicalização dos discursos, à esquerda e à direita, não é um fenómeno que extravasa as fronteiras nacionais, sendo europeu, se não mesmo mundial, Nuno Melo concede mas recusa-se “a atravessar o Atlântico para dar palpites sobre os EUA quando temos a casa a arder”. Prossegue: “Na Europa não é só a extrema direita que está a ascender e está, infelizmente”. Explica-se: “Os partidos tradicionais equilibrados, de centro esquerda e centro direita, estão a ser – por culpa própria, dos maus exemplos que muitas vezes deram –, paulatinamente substituídos por expressões radicais de poder com expressão relevantíssima nas urnas”. “E isto vale para a extrema-esquerda na Grécia, onde o Syriza é presidido por um assumido libertário comunista que acredita nas economias planificadas. À custa do PASOK. Mas olhemos também para Espanha, onde o Podemos, que aconselhou e ajudou à consagração do chavismo venezuelano e foi financiado pelo dinheiro do regime venezuelano, vinga à custa do PSOE”.

E o retrato não fica por aqui: “Está também a acontecer em Portugal. O equivalente do Syriza e do Podemos está em Portugal no PCP e no BE, que hoje governam. E o exemplo desta radicalização académica que só encontra paralelo nos anos 70 acontece por causa dessa viragem extremista da sociedade. Só possível porque este PS, querendo ascender ao poder perdendo nas urnas, assim o permitiu”.

Estende o raciocínio para a extrema-direita: “O que me preocupa em França não é que Marine Le Pen vença a primeira volta e perca na segunda; é o seu crescimento sustentado que um dia destes permite que ela vença mesmo a segunda volta! E no dia em que isso acontecer temos o Frexit e, provavelmente, o colapso do projeto europeu”.

Neste contexto, mais uma ‘bicada’ aos socialistas: “Acho extraordinário, em cima do Brexit e da maior crise europeia, que o melhor que os socialistas tenham para apresentar seja François Hollande como presidente do Conselho, alguém que vale 4% dos votos!”. Reitera: “Quando a liderança é vital, o Conselho apresenta uma projeto com cinco sugestões para o futuro da Europa, nem sequer concretiza a sua solução, e a maioria socialista sugere Hollande!”

(Leia mais, amanhã, na edição semanal do Expresso)