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Raio-X de um ano de afetos e 750 intervenções

Ao longo de um ano, Marcelo falou 28 vezes sobre o caso da CGD, esteve calado 50 dias e contou o que ia celebrar com um charuto, segundo análise às notícias da Lusa. Mas o que o ocupou muito tempo foi a economia

O clima político

No seu segundo dia em Belém, Marcelo disse que os portugueses querem uma “desdramatização” da política — uns dias antes de ter desejado sucesso ao Governo de António Costa. Em março retratava um clima de “menos crispação e mais estabilidade”, opinião que foi mantendo nas suas declarações, apesar da temperatura política mais quente dos últimos meses. Falou em “consensos” entre os partidos, afastou cisões e defendeu que o Governo “não vai cair” após as autárquicas de 2017. Sobre a sua ligação com o Parlamento? “Uma magnífica colaboração institucional”. No final do ano passado, veio esclarecer que não há nenhuma “relação estratégica” entre o Presidente e o Governo — o entendimento é “uma decorrência natural da Constituição”. E sobre o seu perfil enquanto Presidente da República também se pronunciou: é que apesar de ter um papel “muito interventivo” com os cidadãos e com o uso da palavra, diz Marcelo, não deixa de ser “muito cuidadoso” no exercício dos seus poderes, sem os exceder.

Os casos mais quentes

A polémica mais recente e por isso também mais presente é a da Caixa Geral de Depósitos, um tema que motivou 28 intervenções de Marcelo desde 14 de junho, quando o Presidente disse esperar “consenso” no processo de recapitalização do banco. As fragilidades da banca e a necessidade de estabilidade foram não só um dos pontos do seu discurso de tomada de posse, mas também das suas intervenções ao longo do ano. Outros temas quentes que não escaparam? A descida da TSU para os empregadores em troca da subida do salário mínimo (que Marcelo via como um “sinal para o investimento privado”); o diploma sobre as barrigas de aluguer (“Promulgo, obviamente”, garantiu); as mortes no curso de Comandos, sobre as quais garantiu um “apuramento até às últimas consequências”; ou o caso de violência dos filhos do embaixador do Iraque contra o jovem de Ponte de Sor, que “chocou” o Presidente; os incêndios na Madeira durante o verão (“Vim dar o abraço de Portugal à Madeira”, declarou na sua visita à região autónoma); ou, mais recentemente, a transferência de €10 mil milhões para offshores sem controlo do Fisco, uma fuga que “merece ser investigada”, segundo afirmou.

A economia e os números

“Só no final do ano saberemos se o caminho económico do Governo teve sucesso”, dizia Marcelo no início de setembro. Para trás, e desde a sua tomada de posse, a ameaça das sanções europeias a Portugal devido ao défice excessivo foi um dos principais temas das suas intervenções públicas sobre a economia. Começou por antecipar que Portugal poderia esperar uma “sanção zero” e acabou a saudar como “boa notícia” o levantamento da suspensão dos fundos. Sempre com uma visão positiva e de elogio em relação às estatísticas económicas, Marcelo sublinhou várias vezes a palavra “estabilidade” — não só aplicada à política, mas também em matéria financeira e fiscal. Em outubro, mostrou-se “confiante” no cumprimento das metas do défice acordadas com a Europa e com “muita esperança” em ver o défice nos 2,5%. A dívida e as exportações não ficaram de fora: “Tudo o que seja embaratecer a dívida mais longa é bom”, disse, em fevereiro, um dia antes de lembrar que, “apesar de tudo”, as exportações cresceram. Já esta semana, Marcelo traçou o retrato do passado e futuro desejado: “O ano de 2016, que começou mal, com dois trimestres muito fracos, acabou bem. E agora o grande desafio é termos este ano acima disso”, resumiu, depois de ter confessado que a notícia de uma possível saída de Portugal do procedimento por défice excessivo lhe “encheu a tarde”.

A Europa e o mundo

Um dia depois de tomar posse, Marcelo foi claro: queria levar Portugal “mais longe” na cena internacional. Os compromissos assumidos em matéria de política externa já tinham sido referidos no seu primeiro discurso e ao longo do ano houve cerca de 170 intervenções sobre a Europa e o mundo. No ‘Brexit’ viu uma possível “oportunidade” para a União Europeia e afastou a ideia de referendo sobre o tema em Portugal (“É uma questão que não se põe”). Apresentou-se no Parlamento Europeu como “europeu incorrigível”, condenou os atentados em Nice (França) e em Orlando (EUA) e citou o Corão num jantar em honra do Presidente egípcio, “em prol do diálogo inter-religioso”. Definiu a escolha de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas como uma “excelente notícia para Portugal”. E se na tomada de posse tinha falado dos “desafios dos refugiados na Europa” como uma das questões “relevantes” a enfrentar, no mês passado, num almoço com refugiados em Lisboa defendeu que Portugal “abre os braços” à entrada de pessoas, numa altura em que “há quem crie obstáculos, muros e limites”. A Donald Trump, Marcelo pediu “continuidade a uma grande história e uma grande democracia”, e a uma “magnífica amizade” entre os dois países.

Os momentos inesperados

“Talvez fume um charuto quando Guterres tomar posse, que é o meu dia de anos”, disse o Presidente, durante uma visita a uma fábrica de charutos em Havana, Cuba, em outubro. E foi precisamente na celebração do primeiro ano de Governo de António Costa que Marcelo foi questionado pelos jornalistas sobre se, tal como o primeiro-ministro, acredita que as vacas voem. “As vacas não voam, mas o fundamental não é que as vacas voem, é que os portugueses vivam melhor.” Já durante uma receção à seleção portuguesa de hóquei em patins em Belém, Marcelo regressou à infância para recordar um guarda-redes, “chamado Matos, a quem, no tempo em que não havia máscara, partiram muitos dos dentes num remate certeiro”, acrescentando que também ele um dia tentou fazer hóquei em patins. “Mas sem sucesso algum.”

Os dias em silêncio

Houve poucos dias em que Marcelo Rebelo de Sousa não teve qualquer tipo de intervenção: foram apenas 50 ao longo do último ano, segundo os registos de notícias da Lusa. Os mais recentes foram durante esta semana (dois dias), mas foi em agosto que o Presidente parou durante mais tempo: não há registo de nenhuma intervenção durante sete dias, mas não foram seguidos.