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O mais difícil deste ano? “O sistema financeiro”

Espelho meu, espelho meu, qual o político que tira mais selfies do que eu?

FOTO ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Presidente da República orgulha-se de ter descrispado a sociedade e atribui atual guerra política a ano eleitoral. Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse há precisamente um ano

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

No espaço de duas horas, provou da concha sopa de ervilhas numa cantina, vestiu por cima da camisa e da gravata uma T-shirt branca com letras verdes a dizer “Um Presidente raro”, defendeu a transparência nas operações para offshore e deu os parabéns a um dos atores mais amados do país, Ruy de Carvalho. É um dia normal e será também assim a próxima quinta-feira, dia em que Marcelo Rebelo de Sousa completa um ano de mandato e em que a agenda não tem previsto nada de institucional para assinalar a data — apenas uma sessão com estudantes no seu antigo liceu, o Pedro Nunes, em Lisboa, e uma ajuda à venda da revista Cais.

Na Sala Império do Palácio de Belém, decorada em tons verdes e dourados, num intervalo para mais uma audiência, Marcelo Rebelo de Sousa diria ao Expresso, em jeito de balanço, que o mais difícil neste ano foi “o sistema financeiro, deu mais trabalho” do que pensava inicialmente. E “a situação do mundo e da Europa complicou-se”. Os outros objetivos, enunciados no discurso de tomada de posse, deixam-no satisfeito. Mesmo a descrispação (“cicatrizar feridas dos anos de sacrifícios”, como dizia) que agora parece abalada? “A ideia era distender a sociedade civil. O cidadão comum está noutra onda, pacífico, calmo e sereno. Nunca tive ilusões de que entre partidos ia haver maior tensão em ano de eleições autárquicas, mas isso é conjuntural”, explica o Presidente, que em março do ano passado adotou o lema dos “pequenos gestos que aproximam às grandes proclamações que afastam”. Ainda na semana passada, recebeu em Belém queixas do CDS de que o presidente da Assembleia da República não sabia ser imparcial, nomeadamente por causa da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, mas, para o chefe do Estado, a tensão parlamentar é um microclima.

Tal como tem vincado várias vezes, o Presidente entende que um dos seus principais deveres é criar condições para que o Governo governe, seja ele qual for. E, para Marcelo, a solução de Governo a que alguns chamam ‘geringonça’ está “de pedra e cal, é cimento armado”, tal como entende estarem as lideranças à direita, leia-se, Pedro Passos Coelho.

O Presidente, contudo, não se livra de acusações de excessiva colagem ao Governo por parte do PSD e mesmo de demasiada interferência em assuntos da governação por parte do PS. “Outros Presidentes estiveram colados ao Governo por períodos maiores do que eu no início dos seus mandatos”, refuta, dando como exemplo Mário Soares que acabou por abrir caminho às maiorias absolutas do social-democrata ao convocar eleições em 1987, Jorge Sampaio, que era da mesma área da maior parte dos governos com que lidou, e Cavaco Silva, que se distancia de Sócrates com o caso das escutas ao fim de três anos de coabitação.

No discurso de tomada de posse já antevia eventuais críticas, avisando que ia assumir as funções “sem querer ser mais do que a Constituição permite”, mas também “sem aceitar ser menos do que a Constituição impõe”.

Uma das áreas em que Marcelo mais tem dado a mão ao Governo é nas finanças públicas. Não se coíbe de elogiar os resultados do Executivo (ver texto ao lado) e faz do apelo ao investimento uma prioridade. “O investimento é a minha obsessão” — Marcelo entende que o PR deve também ele mobilizar o país para isso porque é um objetivo tanto do Governo como da oposição.

Na comunicação feita perante a Assembleia da República, a 9 de março de 2016, balizou todo este ano que passou: a preocupação em ter umas “finanças sãs”, o apoio ao “relevante sector social”, a vigilância para que o Governo mantivesse os compromissos com a NATO e a UE, a importância “dos pequenos gestos”, a concertação social e o elogio ao esforço dos portugueses.

“Sem rigor e transparência financeira, o risco de regresso ou de perpetuação das crises é dolorosamente maior, mas, por igual, finanças sãs desacompanhadas de crescimento e emprego podem significar empobrecimento e agravadas injustiças e conflitos sociais”, dizia. Uma parte, a avaliar pelos resultados económicos, está garantida. Falta a parte do crescimento sustentado.