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Política

PCP recusa “companhia de Marine Le Pen” na saída do euro

Comunistas lançam campanha contra o euro e afastam qualquer paralelo com a extrema direita europeia. “Não caminhamos na mesma direção”

“Os limites da governação são cada vez mais visíveis”, avisa o PCP, referindo-se aos constrangimentos do Tratado Orçamental

“Os limites da governação são cada vez mais visíveis”, avisa o PCP, referindo-se aos constrangimentos do Tratado Orçamental

Marcos Borga

É já na próxima quinta-feira, no Porto, que o PCP lança uma campanha pela saída de Portugal da moeda única. Cartazes, conferências e debates vão marcar um conjunto de iniciativas que vão percorrer o país durante três meses. O objetivo político é deixar claro que “dentro do euro não há futuro”, mas qualquer semelhança com os slogans apregoados pela extrema direita é pura coincidência, sublinham os comunistas.

“Não estamos acompanhados por Marine Le Pen, nem queremos essa companhia”, diz Vasco Cardoso. O dirigente comunista responsável pelo sector económico do PCP coordena a campanha “Produção, Emprego, Soberania — libertar Portugal da submissão ao euro”. Lembra que o seu partido sempre avisou para os riscos de uma moeda única e que agora se “confirmou que o euro foi feito à medida da Alemanha e das grande potências, mas completamente trágico para os interesses nacionais”.

O discurso de um regresso ao escudo e da necessidade de reforçar a soberania nacional, nomeadamente através de “um banco central capaz de emitir moeda”, tem semelhanças com o usado por movimentos extremistas por essa Europa fora. ”Há uma narrativa que tenta repor a velha ideia de que os extremos se tocam”, diz Vasco Cardoso. “Mas não é assim. O que vemos é a extrema-direita a cavalgar o descontentamento dos povos, mas sem contestar o sistema capitalista que está na raiz dos problemas.”

A Frente Nacional francesa “está do lado da alta finança e dos grandes grupos económicos”, acrescenta Vasco Cardoso: “Esse não é o barco em que o PCP vai. Nem sequer caminhamos na mesma direção.” E o mesmo distanciamento é válido para qualquer comparação com o movimento que levou o Reino Unido a pedir a saída da União Europeia. Será que os comunistas sonham como uma espécie de ‘Portuguexit’? “O ‘Brexit’ não é um modelo para nós. Os povos têm a sua própria história e os seus próprios percursos e o PCP sempre recusou modelos externos, venham eles de onde vierem”, conclui o responsável comunista.

Recados ao PS

Mas mesmo no quadro político nacional, a campanha do PCP está longe de reunir consenso. Até mesmo na atual maioria parlamentar, as posições dos dois parceiros de esquerda chocam de frente com as defendidas pelo Governo do PS. Vasco Cardoso não vê problema nisso, nem tão pouco riscos para o desequilíbrio da 'geringonça'. “Era o que mais faltava que o PCP deixasse de ter pensamento e intervenção próprios em matérias que estão em confronto com o que são, neste momento, as posições do PS”, acrescenta Vasco Cardoso.

O PCP não tem dúvidas que “o chamado triângulo das Bermudas” que junta “dívida, o euro e a banca” são problemas que, mais cedo ou mais tarde, vão ter de ser resolvidos. Vasco Cardoso reconhece que, apesar dos alertas e da pressão para a mudança feita pelos parceiros parlamentares de esquerda, o PS “tem, no fundamental, mantido inalteradas as suas posições sobre estas matérias”. Mas as coisas podem mudar.

As questões europeias identificadas pelos comunistas “estão para lá da própria vontade do PS e do Governo”, diz Vasco Cardoso. Os socialistas “podem afirmar toda a fidelidade à moeda única e à construção federalista que está em curso na União Europeia, porque os problemas que eles acarretam para o país vão-se colocar”.

E, a partir daqui, ficam os recados políticos para o Governo que o PCP ajuda a suportar no Parlamento. “Há um confronto entre aquilo que é afirmado e a continuação de um caminho sólido de reposição de rendimentos e direitos e os constrangimentos da União Europeia a que estamos sujeitos”, diz o dirigente comunista. Ou seja, se o Governo quiser “responder às necessidades do país” e, leia-se nas entrelinhas continuar a contar com o apoio comunista, “vai ter, obrigatoriamente de enfrentar esses constrangimentos”. E, na verdade, “se o Governo e o PS não refletiram nisto é porque andam distraídos”, conclui Vasco Cardoso.

A campanha nacional contra o euro produziu, desde já, um livro que serve de base para a reflexão alargada. É uma “obra coletiva, assumida pelo PCP”, como refere Vasco Cardoso para explicar porque não consta qualquer autor na badana da publicação. Mas tanto o responsável pelo sector económico dos comunistas como o ex-líder, Carlos Carvalhas, foram colaboradores importantes.

No livro há gráficos, enquadramentos e explicações. E mais recados para os socialistas que ainda resistem a reclamar mudanças nas políticas europeias. “Os limites da governação são cada vez mais visíveis”, lê-se na página 26, onde se faz a análise da situação nacional. E vai-se mais longe. “O Governo do PS vive uma contradição insanável. A intencionada recuperação e melhoria dos níveis de vida do povo português colide com o acatamento dos condicionamentos da União Europeia, especialmente os que decorrem da integração monetária”, diz o PCP.