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PS teme que Centeno bata com a porta

Tiago Miranda

Apesar do défice histórico, fragilizado pelo Presidente da República e suspenso de SMS que poderão liquidá-lo, o ministro das Finanças já confessou cansaço

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Fragilizado na sua relação com o Presidente da República (que deixou claro só não lhe pedir a cabeça por “estrito interesse nacional”) e suspenso da divulgação ou não dos SMS que trocou com o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, Mário Centeno está a ser alvo de uma verdadeira operação de cerrar fileiras em seu redor por parte do PS e do Governo, que tudo querem fazer para evitar que o ministro saia.

Além de António Costa ter dito ontem que “só um PM insano dispensaria um ministro das Finanças depois deste défice”, ao que o Expresso apurou nos últimos dias, vários socialistas dentro do Executivo e fora dele têm manifestado a sua solidariedade a Centeno. Mais: no domingo, o PS começou a difundir nas redes sociais um cartaz com a foto de Costa e do ministro, com o número 2,1% em formato gigante e a legenda “o mais baixo défice da democracia portuguesa”. O pretexto mais direto para esta campanha de promoção e apoio do governante é o bom trabalho feito no défice e também na banca mas, como pano de fundo, está outra coisa: o receio de que Centeno bata com a porta.

O maior risco é a comissão de inquérito que PSD e CDS ontem anunciaram “à nomeação e à demissão de António Domingues” da CGD. Sendo um inquérito potestativo (que avança mesmo contra a vontade da maioria), e sendo certo que António Domingues será chamado a depor, resta saber se o ex-presidente da Caixa quererá confirmar que trocou com Centeno SMS a negociar a por si desejada dispensa de declarações de património.

“Se os SMS forem tornados públicos, o ministro fica liquidado”, antecipa quem já viu as mensagens. Uma tese que o Presidente da República contrariou quando disse que “os SMS não mudarão a minha posição sobre o ministro das Finanças”, ou seja, que Centeno deve ficar pelo interesse nacional e pela “estabilidade do sistema financeiro”. O pior é que o tom usado por Marcelo Rebelo de Sousa quando falou do ministro foi lido no PS e pelo próprio Mário Centeno como uma enorme fragilização da sua posição no Governo. E sabendo-se que o governante tem partilhado estar preocupado com o desgaste que todo este processo está a provocar na sua vida pessoal, o temor é que depois de ter posto o lugar à disposição ele acabe por querer sair pelo seu pé.

António Costa nem quer pensar nisso. Mário Centeno é-lhe essencial por dois motivos: os contactos com Bruxelas, onde tem muito bom trânsito e onde é visto como um fator de moderação num Governo apoiado pelas esquerdas mais radicais; e a boa relação que mantém com os parceiros dessa esquerda (“PCP e BE não criaram nenhuma dificuldade” nesta questão dos SMS, anota fonte do Governo). Mas ninguém sabe até onde poderá o ministro resistir. “É preciso ter estofo psicológico. Vamos ver”, reconhece um dirigente socialista, referindo-se à pressão a que Centeno está sujeito. Os mais próximos lamentam, até, algumas desconsiderações de que terá sido alvo, seja o dia em que teve que ir a Belém falar com o Presidente, seja quando, com António Costa fora do país, também foi convocado a São Bento pela chefe de gabinete do PM, de quem recebeu instruções.

Segurá-lo é, agora, a palavra de ordem e são os muitos os que estão a ir a jogo. O argumentário é claro — como os ministros Augusto Santos Silva e Eduardo Cabrita, em declarações ao Expresso, têm evidenciado, Centeno é o ministro “mais popular” e o “rosto” de um défice histórico, que culminará com a saída de Portugal do procedimento por défice excessivo, agendada para abril. O histórico socialista Manuel Alegre assume que foi uma das pessoas que já ligou ao ministro. “Telefonei a Mário Centeno para lhe dar a minha solidariedade”, explicou ao Expresso, acrescentando que “é um grande ministro” e que “conseguiu o que Vítor Gaspar não conseguiu”. Até um dos críticos da ‘geringonça’, Francisco Assis, saiu em defesa de Centeno esta semana, criticando o Presidente da República por ter cometido “um erro crasso” ao ter voltado a reabrir o caso CGD comparando o caso Centeno ao de Vítor Gaspar.

O exemplo Gaspar

Marcelo evocou Vítor Gaspar para travar nesta altura a saída do ministro das Finanças — ou seja, lembrou que quando Gaspar deixou o Governo de Passos e Portas precipitou-se uma crise política. Mas o que os socialistas temem na comparação com o ex-ministro é que Centeno acabe por fazer o que ele fez — ceder ao cansaço e optar por sair. Na altura, Gaspar combinou com Passos uma rápida sucessão e a verdade é que a reação negativa dos mercados não ocorreu quando o ministro saiu mas sim quando Paulo Portas também se quis demitir por discordar da sucessora e tudo acabou numa crise que levou três semanas a resolver.

Substituir Mário Centeno também não seria fácil (o PS não tem muitos macro economistas e nem todos os independentes morrerão de amores pela perspetiva de ter que negociar com o PCP e o BE). E numa situação em que, como dizia um ministro ao Expresso, “A Europa não está descansada porque apesar dos indicadores positivos nós não vivemos num oásis”, nem Costa nem Marcelo querem pensar em perturbações.