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Americanos dizem que “esquerda europeia quer uma fatia da geringonça”

O reputado site “Politico” realça o interesse que a atual solução de Governo em Portugal está a gerar, mas acrescenta que transpor a geringonça para outros países poderá ser ainda mais difícil do que traduzir a palavra

“A esquerda europeia quer uma fatia da geringonça de Portugal” é o titulo do artigo publicado esta sexta-feira no reputado site norte-americano “Politico”.

A propósito do interesse que a atual solução de Governo em Portugal está a gerar entre políticos, como o candidato presidencial francês Benoît Hamon –que caso seja eleito faz questão de a sua primeira deslocação ao estrangeiro ser a Lisboa –, o texto refere que os “socialistas europeus à procura de uma fórmula para reverterem o seu declínio eleitoral estão a percorrer os dicionários para encontrarem uma tradução da palavra portuguesa geringonça” (a solução encontrada no artigo foi o termo inglês “contraption”).

O “Politico” descreve como o recurso ao termo surgiu como uma elaboração da “crítica conservadora para ridicularizar a coligação remendada em fins de 2015 por António Costa e dois partidos da extrema esquerda”. Acrescentando que em 14 meses a solução encontrada pelo primeiro-ministro trocou as voltas aos opositores, apresenta duas provas concludentes: o défice em 2016 de apenas 2,1% do PIB, o mais baixo do pós-25 de Abril, e que Costa conta com 66,1% de apoio nas sondagens, mais do dobro do registado por Passos Coelho.

O Partido Trabalhista da Holanda, que recentemente enviou também a Lisboa uma delegação para estudar o caso português, assim como o responsável do grupo dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, Gianni Pittella, que também esteve por cá, são referidos como outros líderes interessados na orgânica e modus operandi da geringonça.

“A experiência de António Costa é muito útil para nós. Nós queremos uma aliança com os Verdes e com as forças progressivas à esquerda”, disse Pitella, em declarações à TSF citadas no artigo. “É possível formar uma aliança mesmo com as forças progressivas mais radicais, se nos centrarmos no apoio para um posicionamento europeu”, acrescentou.

O artigo realça, contudo, que diversas especificidades nacionais contribuíram tornar a geringonça possível. Nomeadamente, o facto do país, vindo há quatro décadas de uma ditadura de direita, ter escapado ao crescimento do populismo de extrema-direita que está “a complicar a política em quase todos os outros pontos da Europa“, sem esquecer que “a extrema-esquerda em Portugal não conseguiu o mesmo crescimento que o espanhol Podemos ou que o grego Syriza”. O “Politico” nota, por isso, que a transposição da geringonça para outros pontos da Europa poderá ser mais difícil do que simplesmente encontrar uma tradução para o termo.

Será muito difícil em França, onde a extrema-direita de Le Pen surge como a grande ameaça populista, e mais ainda na Holanda, tendo em conta que o Partido Trabalhista deverá descer de segundo para quinto partido parlamentar mais votado no sufrágio do próximo mês, tornando inverosímil um cenário em “tenha um papel de liderança na formação de uma coligação de centro-esquerda.

A Alemanha é apontada como o caso em que o exemplo português poderá ser “mais relevante”, pois com os “sociais-democratas (SPD) atualmente a subirem nas sondagens sob a nova liderança de Martin Schulz, eles podem, pelo menos em teoria, estabelecer um acordo com os Verdes e com o partido Esquerda para expulsarem a chanceler Angela Merkel e substituir a ‘grande coligação’ de longa data com os seus democratas-cristãos (CDU) de centro direita”.

O “Politico” frisa que mesmo neste caso a solução não será fácil de alcançar, uma vez que o SPD sempre se recusou a criar equipa com o partido Esquerda, “que muitos sociais-democratas encaram como manchado pelas suas raízes na comunista Alemanha de Leste”.