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Cavaco responde a Sócrates: “Não preciso de ajustar contas com ninguém”

Em entrevista à RTP, a primeira desde que deixou a presidência, Aníbal Cavaco Silva, assegura que a “primeira parte do livro” que lançou na semana passada já estava “totalmente escrita há bastante tempo”. Antigo Presidente nunca disse o nome de José Sócrates, referindo-o sempre como “o primeiro-ministro do XVIII Governo Constitucional”

Quase um ano depois de ter deixado o Palácio de Belém, Aníbal Cavaco Silva deu a primeira entrevista. Na noite desta quinta-feira, em entrevista à RTP3, o antigo Presidente da República defendeu que o livro “Quinta-feira e outros dias”, que lançou há uma semana, “tem principalmente o objetivo de prestar contas pelo exercício de cargos públicos”, recusando que se trata de um ajuste de contas.

“Não preciso de ajustar contas com ninguém”, disse Cavaco Silva. “A vida correu-me bem. Profissionalmente, cheguei a professor catedrático. Durante dez anos fui primeiro-ministro, mais dez anos Presidente da República. Tenho uma família que me deu alegrias e nunca me deu tristezas. O que entendo é prestar contas, nunca me passou pela cabeça ajustar contas com este ou aquele”, acrescentou.

No primeiro volume das memórias que agora lançou, Cavaco fala das reuniões com o “primeiro-ministro do XVII e XVIII Governos Constitucionais” (nunca disse o nome de José Sócrates ao longo da entrevista desta quinta-feira). Após o lançamento do livro, há uma semana, Sócrates acusou o ex-Presidente de usar aquele meio como um ajuste de contas e classificou a obra como “um autorretrato perfeito das consequências que o ressentimento pode ter no caráter de um político”.

Questionado sobre o envolvimento de Sócrates num processo judicial, Cavaco, que nunca se apercebeu de “qualquer atuação legalmente menos correta” ao longo do mandato, disse estar “totalmente surpreendido”. Como não tem acompanhado o caso, “a não ser pelos títulos demasiado grandes que aparecem em alguma comunicação social”, recusou fazer comentários sobre a matéria.

Sobre as reuniões entre ambos, recordou que houve duas que “foram muito difíceis”. A primeira por altura do PEC IV (“não me informou e eu disse-lhe numa reunião que era uma deslealdade”) e outra em setembro de 2009. “Houve também outra deslealdade que registei e talvez tenha considerado muito grave, no caso do Oraçamento do Estado para 2011 em que desempenhei um papel importante”, disse sem referir o que terá feito Sócrates.

Primeira parte foi “totalmente” escrita enquanto ainda estava em Belém

Na entrevista desta quinta-feira, Cavaco Silva revelou ainda que a primeira parte do livro já estava “totalmente escrita há bastante tempo”, enquanto ainda exercia funções como chefe de Estado. O manuscrito foi entregue na totalidade à editora em novembro do ano passado, ou seja, “oito meses” após ter deixado Belém.

A intenção, “se a saúde assim o permitir”, é que dentro de uns tempos chegue às bancas um segundo volume das memórias do antigo Presidente.

Apesar de ter sido questionado, recusou comentar o atual Governo. Fez apenas um breve comentário sobre a solução encontrada para formar o Executivo: “Tenho certeza absoluta daquilo que vi, que José Sócrates nunca faria um entendimento com a extrema-esquerda em Portugal”.

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