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“A palavra liberal carrega fantasmas”

Tiago miranda

Entrevista a José Adelino Maltez, Professor catedrático

Manuela Goucha Soares

Manuela Goucha Soares

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

É um homem que gosta de organizar a sua história, embora ache que foi ultrapassado pelas novas formas de comunicação; tem um site onde reúne muitos escritos, comentários e intervenções, e a sua biografia pode ser lida desde o ano em que nasceu, 1951. Apresenta-se como “decano”do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, “e o único catedrático do século XX no ativo” nessa escola. Gosta de ser “provocador”, diz que Marine Le Pen e Trump levaram a comunicação muito a sério nas suas estratégias, e não sabe “o que será de nós se perdermos a perspetiva europeia”. É filiado no Partido Liberal Europeu e — não só por isso mas também por isso — está disponível para “ser um soldado raso” no novo partido liberal que quer nascer no nosso país.

Juntou-se ao grupo que apresentou o “Manifesto Portugal mais Liberal”. Sente-se um dos decanos e o nome mais conhecido do projeto?
Há uma geração — que é a minha — que tem de compreender que a maioria do eleitorado já não corresponde aos nossos padrões de comunicação. Há novos padrões, a elaboração deste Manifesto foi feita a partir de uma plataforma interativa aberta a colaborações, um processo muito diferente das tradicionais reuniões em comité. A nova ideia de Portugal tem de ser feita com gente nova, não com jotas, mas com gente na plenitude da sua maturidade. Depois de 1974, a democracia portuguesa foi construída com gente jovem. Agora quando olhamos para uma reunião do Conselho de Estado é uma cena deprimente... Sou um sénior por lei, já tenho bilhete sénior... mas a ideia de senadores corresponde a uma forma de fazer política que já vem do império romano. Sendo filiado no Partido Liberal Europeu entendi que devia ajudar esta gente mais jovem e que sabe das novas formas de comunicar. Mas como soldado raso.

O que é hoje um liberal em termos políticos?
É fácil definir um liberal, mas o nome carrega fantasmas. Um liberal é um adepto do liberalismo, que tem de respeitar três vertentes: ser liberal político, liberal económico e liberal nas causas.

Quando fala de causas refere-se aos chamados temas fraturantes?
À adoção por casais homossexuais [por exemplo].

Pode haver democracia sem partidos?
Não se faz democracia sem ser partidária. Ser de um partido ou partidário não é defeito nenhum. Criou-se esta terrível imagem dos partidos... A classe política desleixou-se na questão da corrupção e não soube responder à altura. Apesar disso, Portugal é um dos 30 países menos corruptos do mundo nos índices internacionais. Estamos em 29º lugar, a Espanha em 41º e o Brasil em 75º.
Há muitos anos que não pertence a nenhum partido político português. Porquê?
Uma organização liberal tem de ser plural nas pertenças, dentro do [tríptico] que referi. Há sempre uns oportunistas que vão bater à porta do Partido Liberal Europeu e que são rejeitados por não respeitarem alguns dos valores da Internacional Liberal.

Disse que é um sénior por lei e que os seniores devem dar lugar à geração do meio. Porque apoia este partido que quer nascer?
A política é para quem gosta do combate! É para os netos que devemos trabalhar. Sou avô de dois europeus, filhos da geração Erasmus. E quero-os na pátria, na Europa... Era uma tragédia para nós se esta ideia de Europa desaparecesse. A política europeia é lenta mas é benéfica. Portugal tem hoje mais poder [do que quando não estava na Europa].

Enquanto liberal, como vê os novos desafios da imigração em termos europeus?
Temos de resolver o problema dos imigrantes. Faz parte da nossa riqueza integrar estas minorias.

Falou do papel da comunicação. Como vê essa estratégia no caso de Trump e de Le Pen?
Le Pen é doce, feminina e céltica, não tem o primarismo de Trump. Le Pen é a cores e os nossos caça-fascistas são incompetentes porque acham que a ameaça, se voltar, vem a preto e branco. Estamos num momento de definição de valores civilizacionais, ai de nós se perdermos a perspetiva europeia!